A Ilha do TEsouro
Stevenson

Ao CoMPRADoR HESITANTE

Se histrias do mar, em toada marina,
Tufes, aventuras, males suportados,
Se escunas e ilhas, navios  bolina,
Piratas e ouro, homens desterrados,
oS velhos romances, de novo contados
A moda de antanho, podem como outrora
--Tanto eles me encantaram...--ser apreciados
P'los mais progressivos dos jovens de agora,

Comecem, ento; seja assim! Mas se no, Se o jovem que estuda
j hoje esqueceu o que antes amava no seu corao,
--Ballantyne, o bravo, e outros mais, que sei eu?-Se heris
efa,canhas o olvido escondeu, Tambm seja assim! E os heris
que ainda ousam, Meus piratas e eu, como um sol que desceu,
Baixemos  campa onde todos repousam!
Primeira Parte

o VELHo PIRATA
Captulo um

o VELHo LoBo Do MAR NA ESTALAGEM Do ALMIRANTE BENBoW

o morgado Trelawney, o Dr. Livesey e outros senhores
pediram-me que escrevesse tudo o que sabia sobre a Ilha do
Tesouro, desde o princpio ao fim, sem omitir nada, excepto a
localizao da ilha, porque h nela um tesouro que ainda no
foi retirado. Peguei, pois, na pena, no ano da graa de 17...
e recuei at o tempo em que meu pai tinha a Estalagem do
Almirante Benbow e em que o velho marinheiro, com uma cicatriz
de cutilada no rosto, se instalou em nossa casa.
Lembro-me dele como se fosse ontem e vejo-o aproximar-se
devagar da porta da estalagem, e mais atrs o seu ba de
marujo transportado num carrinho de mo. Era um homem alto,
forte, pesado, de pele trigueira. Um rabicho de cabelo
ensebado caa-lhe sobre o capote azul, cheio de ndoas; tinha
as mos calosas, cobertas de cicatrizes, e as unhas negras e
partidas; o sinal da cutilada que Lhe atravessava a face punha
nela um trao branco e lvido. Vejo-o a olhar em volta toda a
enseada, assobiando em surdina, como costumava fazer, e, por
fim, trauteando aquela velha cano do mar, que tantas vezes
depois Lhe ouvi:

Quinze homens na mala do morto... Io-ho-ho, e uma garrafa de
rum!

numa voz grossa e arrastada que parecia gasta pelos cabos do
cabrestante. Bateu  porta com uma espcie de alavanca que
trazia na mo e, quando meu pai apareceu, pediu-lhe rudemente
um copo de rum. Bebeu o lcool com lentido, saboreando-o
vagarosamente, como apreciador, olhando tudo em redor, desde os rochedos escarpados
at a nossa tabuleta.
--Que rica baa!--exclamou por fim.--E a casa est num bom

stio. Muita gente por c, camarada?
Meu pai respondeu-lhe que no, que havia pouca gente, o que
era uma pena.
--Muito bem--disse ele--,  isso mesmo o que me convm. Eh,
amigo --gritou para o homem que empurrava o
carrinho.--Descarrega a o meu ba. Vou ficar aqui algum
tempo--- continuou. --Sou homem fcil de contentar; desde que
tenha rum, presunto e ovos, j estou satisfeito, e ento no
alto de um penhasco como este, donde posso ver passar os
navios... Hem? Como  que h-de chamar-me? ora, pode chamar-me
capito. Ah! Eu sei o que Lhe d cuidado... aqui tem...
--dizendo isto, atirou para o cho trs ou quatro moedas de
ouro. --E quando as tiver gasto em comida e bebida, avise-me!
--pronunciou, com o olhar sobranceiro de um comandante.
Realmente, apesar do mau estado do seu vesturio e da sua
linguagem grosseira, no tinha a aparncia de um homem do
convs; parecia antes imediato ou capito de navio, acostumado
a ser obedecido e a fazer sentir a sua fora. o homem do
carrinho disse-nos que a mala-posta o deixara naquela manha em
frente do Royal George, onde ele se informara acerca das
estalagens existentes ao longo da costa e que, ouvindo falar
bem da nossa, suponho, e sabendo que ficava num stio isolado,
a escolhera para sua residncia. E foi tudo o que pudemos
saber sobre o nosso hspede.
Era um homem habitualmente silencioso. Passava os dias a
rondar a enseada, encarrapitado nos rochedos, munido de um
culo de longe alcance;  noite sentava-se ao canto da sala,
perto do lume, e bebia rum temperado com pouca gua. A maior
parte das vezes no respondia, mesmo quando falavam com ele;
limitava-se a deitar-nos um olhar furioso e altivo e a soprar
pelo
nariz, produzindo um som semelhante ao de uma sereia.
Depressa, pois, tanto ns como quem vinha a nossa casa
aprendemos a deix-lo em paz. Todos os dias, ao regressar do
seu passeio, perguntava se tinham passado alguns marinheiros
na estrada. Ao princpio, pensmos que era o desejo de
convvio com gente da sua igualha que o levava a fazer tal
pergunta; mas, por fim, comemos a perceber que ele queria
evit-la. Quando algum marinheiro parava em Almirante Benbow,
o que s vezes sucedia, pois, tal como hoje, tomavam a estrada
ao longo da costa para Brstol, o nosso hspede mirava-o bem
atravs das cortinas da porta, antes de entrar na sala; e
sempre que algum estava presente, ficava calado como um rato.
Para mim, pelo menos, o caso j no era segredo e, at certo
ponto, partilhava os seus sobressaltos. Certo dia chamara-me 
parte e prometera-me uma moeda de prata de quatro dinheiros no
dia um de cada ms se eu estivesse de < olho alerta" para o
avisar assim que visse aparecer um marinheiro s com uma
perna. A maior parte das vezes" quando chegava o primeiro dia
do ms e eu pedia o meu soldo, ele limitava-se a soprar pelo
nariz e obrigava-me a baixar os olhos; mas antes do fim da
semana, tinha a certeza, a tineta passava-lhe e l vinham os
quatro dinheiros com a recomendao de procurar o "marinheiro
de uma perna s".
Mal sei dizer quanto esta personagem me perturbava os sonhos.
Nas noites de vendaval, quando o vento sacudia os quatro
cantos da casa e o mar bramia na enseada, desfazendo-se contra
os rochedos, eu julgava v-lo de mil formas e com mil

expresses diablicas. Tanto o via com a perna cortada pelo
joelho, como pelo quadril; outras vezes aparecia-me como um
ente monstruoso, que nunca tivera seno uma perna, colocada a
meio do corpo. V-lo saltar, correr, perseguir-me, transpondo
sebes e fossos, era o pavor dos meus pesadelos. No fim de
contas eu pagava bem cara a minha moeda mensal de quatro
dinheiros com essas abominveis vises.

I
Mas se a ideia do marinheiro com uma s perna me aterrorizava
tanto, era eu quem tinha menos medo do prprio capito entre
as muitas pessoas que o conheciam. Havia noites em que ele
tomava mais rum do que a sua cabea aguentava; ento, punha-se
a cantar as suas velhas canes de marujo, rudes e perversas,
sem fazer caso de ningum; s vezes, porm, mandava encher
copos de vinho para todos e obrigava a trmula assistncia a
ouvir as suas histrias ou a acompanh-lo em coro enquanto
cantava. Muitas vezes senti a casa estremecer com o c  ctri hi
l h o .

lo-ho-ho, e uma garrafa de rum!

Todos o acompanhavam, como se defendessem a vida e temessem a
morte, cada qual cantando mais alto que o parceiro para evitar
reprimendas. Porque naqueles acessos o capito era um
autntico tirano: dava murros na mesa para impor silnio, ou
encolerizava-se com qualquer pergunta, s vezes at mesmo sem
ningum Lhe dizer nada, s por julgar que a assistncia no
seguia com suficiente ateno as suas histrias. E no deixava
ningum arredar p da estalagem enquanto no estivesse a cair
de bbado e no fosse aos baldes para a cama.
As suas histrias aterrorizavam toda a gente. Eram narraes
tremendas, com enforcamentos, zaragatas, tempestades no mar,
personagens temveis, selvajarias e lugares tenebrosos. Pelo
que contava, devia ter vivido entre os piores homens que Deus
pusera na vida do mar; e a linguagem de que se servia nessas
narrativas impressionava ainda mais os pobres campnios do que
os crimes que descrevia. Meu pai dizia constantemente que a
estalagem assim se arruinaria, pois o povo acabava por no pr
l os ps, para no se sentir oprimido e acabrunhado e no ir
para a cama a tremer de medo; eu, porm, estava convencido de
que a sua presena ali nos era benfica. As pessoas tinham
medo na ocasio, mas

1 4
ao recordarem-se sentiam certo prazer--aquilo era uma espcie
de estmulo na vida tranquila da aldeia, e os rapazes, ento,
chegavam a admir-lo, chamando-lhe um verdadeiro lobo do mar,
um autntico marinheiro da velha guarda. dizendo que homens
como aquele  que tinham tornado a Inglaterra temvel nos
mares.
Assim foram passando semanas e meses. Comemos ento a ser
prejudicados doutra maneira, porque o dinheiro que de incio
ele dera j se gastara e o meu pai no se atrevia a pedir-lhe
mais. Se o fizesse, o capito sopraria pelo nariz um ronco to
estrondoso que o meu pobre pai fugiria logo pela porta fora.
Vi-o a torcer as mos com tal desespero depois de uma rajada
dessas, que estou certo de que a inquietao e o terror em que

viveu nesses dias contriburam muito para a sua morte
prematura.
Todo o tempo que o capito viveu connosco nunca mudou de
vesturio e apenas comprou alguns pares de pegas a um
vendedor ambulante. Uma das abas do seu chapu descaiu para a
frente e ele deixou-a ficar tombada, apesar do incmodo que
isso Lhe causava quando havia vento. Lembro-me ainda do
aspecto do seu casaco, que ele prprio consertava l em cima,
no quarto, e que, afinal, no passava de um mosaico de
remendos. Nunca escreveu nem recebeu uma carta e no falava a
ningum, a no ser aos frequentadores da casa, e assim mesmo
s quando estava cheio de rum. E nenhum de ns viu algum dia
aberta a sua grande mala de marujo.
Somente uma vez encontrou quem o contrariasse e enfrentasse,
j quase no fim, quando o meu pobre pai estava minado pela
enfermidade que o levou. Era j bastante tarde quando o Dr.
Livesey veio ver o doente; comeu depois qualquer coisa que a
minha me Lhe ofereceu e em seguida foi para a sala fumar o
seu cachimbo, enquanto Lhe iam buscar o cavalo  aldeia,
porque na velha Benbow no tnhamos cavalaria. Fui para l
atrs dele e recordo-me que notei o contraste que o mdico, muito limpo e correcto, de cabelos j um pouco grisalhos,
olhos negros e brilhantes e maneiras corteses, fazia com os
rudes camponeses e, sobretudo, com o espantalho do nosso
pirata, srdido, pesado, sombrio, afogado em rum, de braos
estendidos pela mesa fora. De repente o capito comeou a
sibilar a sua eterna cano:

Quinze homens na mala do morto... Io-ho-ho, e uma garrafa de
rum! A bebida e o diabo deram cabo dos outros... Io-ho-ho, e
uma garrafa de rum!

Ao princpio supus que a "mala do morto" era igual quela
grande mala que ele tinha l em cima, no quarto da frente, e
nos meus pesadelos esse pensamento misturava-se com aquele do
marinheiro com uma perna s. Mas nessa altura j nenhum de ns
ligava importncia  cano; no constitua novidade para
ningum, menos para o Dr. Livesey, e observei que o efeito que
ela Lhe produzia no era agradvel, pois levantou a cabea um
instante, quase zangado, continuando depois a falar com o
velho jardineiro Taylor sobre um novo tratamento do reumtico.
Entretanto, levado pela prpria msica, o capito excitara-se
gradualmente e por fim bateu com a mo na mesa, naquele jeito
que todos ns j sabamos que significava--silnio! Todas as
vozes se calaram ao mesmo tempo, excepto a do Dr. Livesey, que
continuou a falar como at ali, numa voz clara e agradvel,
chupando vigorosamente o cachimbo de cada vez que dizia uma ou
duas palavras. o capito lanou-lhe um olhar furibundo,
descarregou a mo outra vez em cima da mesa, tornou a
fulmin-lo com um olhar ainda mais duro e por fim trovejou com
uma praga obscena:
--Silnio, a nas cobertas!
--o cavalheiro fala comigo?--perguntou o mdico.
E quando o rufio, com outra praga, Lhe disse que sim, o
mdico replicou:--S tenho uma coisa a dizer-lhe,
senhor,  que se continua a beber rum dessa maneira, depressa
o mundo se ver livre de um verdadeiro canalha imundo!
o furor do velho foi tremendo. Bateu com os ps no cho, sacou

de uma navalha de marujo, de ponta e mola, abriu-a, e,
agitando-a na mo, ameaou cravar com ela o doutor na parede.
o mdico nem se mexeu. Continuou a falar-lhe no mesmo tom de
voz, olhando-o por cima do ombro, suficientemente alto para
ser ouvido por todos, perfeitamente calmo e firme:
--Se no os mete imediatamente a navalha no bolso, dou-lhe a.
minha palavra de honra que, na prxima audincia, o tribunal o
manda enforcar.
A estas palavras, os olhares dos dois cruzaram-se; o capito,
porm, deu-se por vencido: guardou a arma e tornou a
sentar-se, dando roncos como um co espancado.
--E agora, senhor--continuou o mdico--, agora que sei que no
meu distrito h um sujeito da sua espcie, pode estar certo de
que o trarei debaixo de olho dia e noite. Eu no sou s
mdico, sou tambm magistrado, e  menor queixa que me
fizerem, ainda que seja s por uma insolncia como a desta
noite, tomarei providncias para o prenderem e o porem daqui
para fora. Que no seja preciso tornar a dizer-lho.
Pouco depois o cavalo do Dr. Livesey estava  porta e ele
punha-se a caminho. E no s nessa noite, como da em diante,
o capito passou a manter-se em respeito.

Captulo dois
o Co NEGRo APARECE E DESAPARECE

Passado pouco tempo, deu-se o primeiro dos misteriosos
acontecimentos que nos haviam de libertar por fim do capito,
embora no nos libertassem, como se ver, dos seus negcios. o
Inverno ia rigoroso e frio, com neves demorados e fortes e
ventos implacveis; o meu pobre pai, decerto, no chegaria a
ver a Primavera. Piorava a olhos vistos e minha me e eu
tnhamos a nosso cargo todo o trabalho da estalagem; as
preocupaes eram demasiadas para podermos pensar, um momento
sequer, no nosso desagradvel hspede.
Foi numa manha de Janeiro, muito cedo; estava um frio glacial,
penetrante, e a neblina envolvia toda a enseada; as ondas
desdobravam-se brandamente nas rochas e o Sol, ainda baixo,
afagava apenas os topos das colinas, parecendo espelhar-se ao
longe, sobre o mar. o capito levantara-se mais cedo do que
era costume e descera  praia: o sabre a balouar por baixo
das abas do seu velho casaco azul, o culo de cobre debaixo do
brao e o chapu tombado para a nuca. Recordo-me do vapor
branco como fumo que Lhe saa da boca ao afastar-se a largos
passos e do som rouco que Lhe ouvi, ao contornar a grande
rocha, espcie de grunhido de indignao, como se fosse
ruminando ainda a ameaa do Dr. Livesey.
ora a minha me estava l em cima com meu pai, e eu ia por o
pequeno almoo na mesa,  espera do regresso do capito,
quando a porta da sala se abriu e apareceu um homem que eu
nunca tinha visto. Era plido e macilento, tinha dois dedos a
menos na mo esquerda e, embora viesse munido de um sabre, no
tinha o menor aspecto de brigo. Eu estava sempre de atalaia
aos marinheiros, tivessem ou no uma perna s, e este l 9
indivduo,  claro, perturbou-me. No parecia ser marinheiro,
mas tudo nele cheirava a gua do mar.
Perguntei-lhe se precisava de alguma coisa, e disse-me que
queria rum; quando eu ia a sair para ir busc-lo, sentou-se na
ponta de uma mesa e fez-me sinal para me aproximar. Parei onde

estava, de guardanapo na mo.
--Anda c, pequeno--disse ele.--Aproxima-te.
Avancei um passo.
--Esta mesa est posta para o meu camarada Bill?-perguntou,
olhando-me de soslaio.
Disse-lhe que no conhecia esse seu camarada Bill e que aquela
mesa estava posta para um hspede da nossa casa, a quem
chamvamos "capito".
--Seja ento capito o meu amigo Bill, tanto faz... Tem uma
cicatriz na face e  doido por bebida. E, agora, para te
provar que sei quem  o teu capito, vou dizer-te que a
cicatriz que ele tem na cara  do lado direito. Hem? Acertei
ou no? Ento o meu camarada Bill est c em casa?!
Respondi-lhe que tinha sado.
--E para que lado foi, meu rapaz? Que caminho tomou?
Apontei para os penhascos e disse-lhe que o capito no devia
tardar. Depois de Lhe responder ainda a outras perguntas,
proferiu:
--Muito bem! Isto vai ser to bom como uma bebida para o meu
amigo Bill.
Ao dizer estas palavras a sua expresso no era nada agradvel
e eu tinha as minhas razes para pensar que nem ele mesmo
acreditava no que dizia.
Mas no tinha nada com isso, pensei, nem sequer sabia o que
podia fazer.
o desconhecido deambulava pela sala, rondando do lado de
dentro da porta, como o gato que espera o rato, de atalaia a
um canto. Uma vez em que tive de ir  estrada, chamou-me logo;
como no obedeci to depressa

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como ele queria, uma horrvel expresso se Lhe estampou no
rosto macilento e ordenou-me que voltasse para dentro,
soltando uma praga que me fez estremecer. Mal entrei, voltou
aos seus modos primitivos, meio untuosos, meio escarninhos,
bateu-me no ombro e disse-me que eu era um bom rapaz e que
simpatizava comigo.
--Tenho um filho--acrescentou--que  tal qual como tu e  todo
o meu orgulho. Mas o mais importante para os rapazes  a
disciplina, pequeno, a disciplina. Se j tivesses embarcado
com Bill, no seria preciso chamar por ti duas vezes. Que
Bill, mesmo no deixava, nem os que o acompanhavam. Mas olha,
a vem o meu amigo Bill, com o seu culo debaixo do brao;
vais ver como ele fica contente. Vamos os dois para a sala,
meu rapaz, e pomo-nos atrs da porta para Lhe fazer uma
surpresa. Digo-te que no vai caber em si de contente.
Assim falando, o desconhecido empurrou-me, entrou comigo na
sala e ps-me atrs dele, a um canto, de forma que ficssemos
ocultos quando se abrisse a porta. Eu estava muito contrafeito
e assustado, como  fcil de calcular, e o meu medo aumentou
mais ao observar que o prprio desconhecido tambm mostrava
certa inquietao. Pegou no sabre, tirou-o da bainha e
enquanto ali estivemos  espera senti-o engolir a saliva como
se tivesse o que ns chamamos um n na garganta.
Por fim o capito entrou, empurrando a porta com toda a fora,
e, sem olhar para a esquerda nem para a direita, avanou logo
para o almoo que estava  sua espera.

--Bill!--articulou o outro, numa voz que eu percebi que ele se
esforava por tornar forte e firme.
o capito rodou nos calcanhares e deu de cara connosco; toda a
cor trigueira do seu rosto desapareceu e at o nariz se tornou
azul; parecia que tinha visto um fantasma, o Diabo, ou outra
coisa ainda pior, se  possvel; confesso, senti pena de v-lo
tornar-se assim, dum momento para o outro, to velho e cado.  -Ento, Bill, no me conheces? Decerto hs-de conhecer um
velho companheiro de bordo...--proferiu o desconhecido .
o capito teve uma espcie de espasmo.
--o Co Negro!--murmurou.
--Ele mesmo!--replicou o outro, tornando-se mais senhor de
si.--o Co Negro em carne e osso, que veio ver o seu velho
amigo Bill  Estalagem do Almirante Benbow. Ah, Bill, o que
ambos temos visto desde que perdi estas duas garras ! --
acrescentou, levantando a mo mutilada.
--ouve l--disse o capito--, j que me descobriste, aqui me
tens; fala, portanto; que queres?
--s sempre o mesmo Bill--volveu o Co Negro. --Vais direito
ao fim. Muito bem. Vou tomar um copo de rum, que este pequeno,
de quem gosto tanto, me ir buscar; e agora senta-te, se fazes
favor, e vamos conversar como velhos camaradas que somos.
Quando voltei com o rum, j estavam os dois sentados  mesa em
que o capito almoava--o Co Negro, porm, perto da porta, de
maneira a poder ter um olho no capito e outro na sada,
segundo me pareceu.
Mandou-me sair, recomendando-me que deixasse a porta aberta de
par em par.
--Fica sabendo que no caibo pelos buracos da fechadura,
pequeno--acrescentou.
Deixei-os juntos e voltei para a loja. Durante muito tempo,
por mais que eu apurasse o ouvido, no consegui ouvir seno um
murmrio baixo; por fim as vozes comearam a crescer e pude
apanhar uma palavra ou duas principalmente as pragas do
capito.
--No, no e no! --gritou ele de sbito. --Isto tem de
acabar, e vocs vo parar todos  forca, digo-te eu !
A seguir houve uma tremenda exploso de pragas, o rudo de
mesas e cadeiras pelo ar, depois o som metlico das lminas e
logo um grito de dor. No mesmo instante vi o Co Negro, com o ombro esquerdo a escorrer sangue, a
fugir  frente do capito, que o perseguia ardorosamente,
ambos de sabres em punho. Quando o fugitivo transpunha a
porta, o capito atirou-lhe um ltimo e terrvel golpe, que o
apanharia pelas costas se a grande tabuleta da Almirante
Benbow no interceptasse o sabre no caminho. Desde esse dia,
v-se um talho na parte inferior do caixilho.
Com isto terminou a luta. Uma vez na estrada, o Co Negro,
apesar de ferido, deu s de vila-diogo com uma agilidade
admirvel e desapareceu na volta da colina em menos de um
minuto. Por seu turno, o capito estacou em frente da
tabuleta, verdadeiramente perplexo. Passou a mo vrias vezes
pelos olhos e por fim voltou para dentro de casa.
--Jim! -- chamou. -- Rum! --E, ao dizer isto, cambaleava,
amparando-se com uma das mos  parede.
--Est ferido?--perguntei.
--Rum! --repetiu ele. --Tenho de me ir embora daqui. Rum! Rum!
Corri a buscar-lho; mas estava to transtornado com tudo o que

sucedera, que quebrei um copo e sujei o balco; e, enquanto o
limpava, ouvi um estrondo na sala; corri para l e
deparou-se-me o capito estendido no cho. No mesmo instante,
minha me, alarmada com os gritos e o rudo da luta, vinha a
correr pela escada abaixo, para me ajudar. Levantmos-lhe a
cabea. Respirava com dificuldade, tinha os olhos fechados e a
cara com uma cor horrvel.
--Valha-me Deus!--exclamou a minha me.--Que desgraa na nossa
casa! E o teu pobre pai doente!
Naquele transe no nos ocorria, sequer, a ideia de socorrer o
capito e s pensvamos que ele fora mortalmente ferido na
rixa com o desconhecido. Fui buscar rum e tentei meter-lho na
boca, mas tinha os dentes fortemente cerrados e as maxilas
rgidas como se fossem de ferro. E ambos respirmos de alvio
quando a porta se abriu e o Dr. Livesey entrou para a sua
habitual visita a meu pai.
--oh, doutor!--gritmos.--Que havemos de fazer? onde  que ele
estar ferido?
--Ferido?--disse o mdico.--Tem graa! Est to ferido como
vocs ou como eu. o que teve foi um ataque apoplctico, como
j o tinha avisado. Agora senhora Hawkins, v l para cima e
no diga nada disto ao seu marido. Pela minha parte vou fazer
o que puder para salvar a vida a este sujeito; Jim, traze-me
uma bacia!
Quando voltei com a bacia, j o doutor arregaara uma das
mangas do capito e pusera a descoberto o seu grande brao
musculoso. Tinha tatuagens em vrios stios. "Boa sorte", "Bom
vento", "Capricho de Billy Bones , eram legendas que se viam
ntida e claramente gravadas no antebrao; mais acima, perto
do ombro, havia o esboo de uma forca com um homem
pendurado--tudo muito bem feito, em meu entender.
--Proftico--disse o mdico, tocando neste desenho com o dedo.
--Agora, mestre Billy Bones, se  que  este o seu nome, vamos
ver de que cor  o seu sangue. Jim--perguntou-me--, tens medo
do sangue?
--No, senhor--respondi.
--Ento, bem--replicou ele--, segura na bacia.--- Dizendo
isto, pegou na lanceta e abriu uma veia do capito.
Depois de Lhe tirar uma boa poro de sangue, o capito abriu
os olhos e lanou em volta um olhar nublado. Primeiro
reconheceu o mdico com um inevitvel franzir de sobrancelhas;
depois, o seu olhar descobriu-me e pareceu satisfeito. De
repente, porm, mudou de cor e tentou levantar-se, gritando:
--onde est o Co Negro?
--No h aqui nenhum Co Negro--retorquiu-lhe o mdico--, a
no ser voc. Bebeu rum e teve uma congesto, precisamente
como eu Lhe tinha dito; e no foi de muito boa vontade que o
salvei da morte. Agora, mestre Bones...

Captulo trs

A MAR( A NF(-.RA

Cerca do meio-dia assomei  porta do capito com alguns
refrescos e medicamentos. Estava quase como o tnhamos
deixado, apenas um pouco mais para cima, e parecia
enfraquecido e excitado ao mesmo tempo.
--Jim --disse-me--, s aqui a nica pessoa que vale alguma

coisa, e sabes que sempre tenho sido bom para ti. Todos os
meses te dava uma linda moeda de quatro dinheiros. Agora, que
estou em baixo e todos me abandonam, Jim, vais trazer-me um
copinho de rum, no vais, camarada?
--o mdico...--principiei.
Mas ele interrompeu-me, invectivando o mdico com voz dbil
mas veemente:
--os mdicos so todos uns parvos, e este, ento, que percebe
ele de marinheiros? Estive em lugares quentes como o pez
derretido, com os camaradas a cair  minha volta com a febre
amarela e a terra a revolver-se em ondas como o mar por causa
dos terramotos. Que sabe o mdico dessas terras? Pois bem, o
que me aguentava em p era o rum, digo-te eu! Ele  que era o
meu po e o meu vinho, o meu melhor companheiro, era tudo para
mim. E se me tirarem o rum, agora que sou o casco velho de um
navio dado  costa, o meu sangue cair sobre ti, Jim, e sobre
o idiota desse mdico.
Voltou outra vez s injrias.
--olha, Jim, como tenho os dedos a tremer--prosseguiu em tom
aliciante. -- No consigo mant-los quietos. Nem uma pinguinha
bebi ainda... Afiano-te que esse mdico  um doido. Se no
bebo uma gota de rum, endoideo; j estou transtornado. olha,
vi o velho Filinto a ao canto, por trs de ti; vi-o to bem
como estou a ver-te e, se continuo com estes pesadelos, sou



um homem perdido, ressuscitarei Caim. o teu mdico foi o
prprio a dizer que um copo s no me matava. Dou-te um guinu
de ouro por uma pinguinha, Jim!
A sua excitao aumentava cada vez mais, e isso assustava-me,
por causa de meu pai, que nesse dia estava abatido e precisava
de sossego; alm disso lembrava-me bem das palavras do mdico,
a que ele aludia, mas sentia-me deveras ofendido por ele
procurar subornar-me.
--No quero nenhum dinheiro seu, a no ser o que deve a meu
pai--disse-lhe. --Agora vou buscar-lhe um copo de rum, mas no
Lhe dou mais.
Quando Lho trouxe, agarrou-o sofregamente e engoliu-o de um
trago.
--Ah! --exclamou. --Agora sinto-me melhor, podes crer! ouve
c, camarada, quanto tempo disse o mdico que eu tinha de
estar aqui metido?
--Uma semana pelo menos--respondi.
--Com mil demnios!--berrou ele.--Uma semana! Isso  que no
pode ser. Daqui at l trazem-me eles a marca negra. os
malandrins deram comigo e como no puderam conservar o que
tinham, querem agora apanhar o que  dos outros. S queria
saber se isto  um procedimento prprio de marinheiros. Mas eu
sou econmico; nunca esbanjei o meu rico dinheiro nem
desperdicei o dos outros. Hei-de tornar a ensin-los! No
tenho medo deles... Prego-lhes outra partida, camarada, e
enrolo-os outra vez.
Enquanto falava, fora-se levantando na cama com grande
dificuldade; apoiando-se ao meu ombro com tal fora que quase
me fazia gritar, mexia as pernas como um peso morto. As suas
palavras enrgicas contrastavam tristemente com a debilidade
da voz que as pronunciava. Quando conseguiu sentar-se na beira

da cama, houve uma pausa.
--Mas o que esse mdico me fez... --murmurou depois. -- Sinto
um zumbido nos ouvidos. Deita-me outra vez.

29
Antes que eu pudesse deitar-lhe a mo, tornou a cair de
costas, no mesmo stio em que estivera, e ali ficou em
silnio um bocado.
--Jim--disse com lentido--, viste hoje esse marujo?
--o Co Negro?--inquiri.
--Ah! o Co Negro--articulou ele.-- um bicho mau, mas h
outros piores que ainda o fazem mais terrvel. Agora, se eu
no puder sair daqui e eles me trouxerem a marca negra,
lembra-te bem, pequeno, vo direitos  minha mala. Ento,
monta num cavalo. Sabes montar, no sabes? Bem, monta num
cavalo e vai... bem... sim...  preciso... vai ter com esse
doido do mdico, e dize-lhe que chame bastante gente,
magistrados e quejandos  os junte todos aqui, a bordo da
Almirante Benhow, homens e rapazes, todos os que restam da
tripulao do velho Filinto. Eu era o imediato, sim, o
imediato do velho Filinto e sou a nica pessoa que conhece o
stio. Revelou-mo ele em Savannah, quando estava s portas da
morte, tal como eu estou hoje, percebes? Mas no digas nada
disto, a no ser que eles me tragam a marca negra, ou ento se
vires outra vez esse Co Negro ou o marinheiro de uma perna
s, Jim; principalmente esse.
--Mas o que  a marca negra, capito?--perguntei.
-- uma intimao, amigo. Se eles ma trouxerem, eu digo-te.
Mas tu, Jim, mantm-te de olho alerta e juro-te pela minha
honra que repartirei contigo em partes iguais .
Delirou ainda algum tempo e a voz tornava-se-lhe cada vez mais
fraca. Em seguida dei-lhe o remdio, que ele tomou como uma
criana, observando: "Eu, um marujo, que nunca precisei de
drogas..." Por fim, caiu num sono pesado, que se assemelhava a
um desmaio. Assim o deixei. Se tudo tivesse corrido bem, no
sei o que teria feito. Provavelmente contaria toda a histria

30

ao mdico, porque estava com um medo mortal de que o capito,
se arrependesse das suas confisses e desse cabo de mim. Mas
tudo se transtornou, pois nessa mesma noite o meu pobre pai
morreu quando menos espervamos. Esse triste acontecimento ps
de parte todas as outras coisas. A nossa amargura, as visitas
dos vizinhos, o funeral, todo o trabalho da estalagem que
tinha de se fazer, tudo isso me ocupou de tal modo, que mal
tinha tempo para pensar no capito e ainda menos para ter medo
dele.
Na manha seguinte ele desceu para tomar as suas refeies,
como era costume, mas comeu pouco, e receio bem que tivesse
bebido ainda mais rum do que nos outros dias, porque foi ele
prprio busc-lo, soprando ameaadoramente, sem que ningum se
atrevesse a contrari-lo. Na vspera do funeral, estava mais
bbedo do que nunca, e foi simplesmente horrvel, naquela casa
em luto, ouvi-lo cantar essa velha cano canalha de marujos.
Fraco como estava, todos tnhamos medo de que ele morresse,
tanto mais que o mdico fora chamado para um caso urgente a
algumas milhas dali e no voltara a nossa casa depois do

falecimento de meu pai. o capito estava fraco e, em lugar de
recuperar as foras, parecia enfraquecer cada vez mais. Subia
e descia as escadas, ia da sala para a taberna e da taberna
para a sala e outras vezes punha o nariz fora da porta e
cheirava o mar, amparando-se s paredes e respirando ofegantemente,
como se tivesse subido uma montanha escarpada. Nunca mais
falara comigo em particular e creio mesmo que tinha esquecido
as confidncias que me fizera; mas o seu carcter era cada dia
mais incompreensvel e, tanto quanto Lhe permitia o seu estado
de fraqueza, mais violento do que nunca. Agora, quando se
embriagava, tinha o hbito inquietante de desembainhar o sabre
e p-lo na sua frente, em cima da mesa. Apesar de tudo, porm,
preocupava-se menos com as pessoas do que antes e parecia
perdido nos seus prprios pensamentos, como que abstracto. Uma vez, por exemplo, ficmos todos
extremamente admirados ao ouvi-lo cantar uma ria que nunca
Lhe ouvramos, uma espcie de canto buclico, que ele devia
ter aprendido na juventude, antes de ser marinheiro.
Assim estavam as coisas, quando, no dia seguinte ao do
enterro, cerca das trs horas da tarde, com um tempo
inclemente, de nvoa e geada, cheguei  porta um momento e vi
algum que avanava lentamente na estrada. Era completamente
cego, pois vinha tacteando o caminho com um bordo  sua
frente e usava uma grande pala verde que Lhe encobria os olhos
e o nariz; andava muito curvado, ou fosse da idade ou da
fraqueza, e envergava um enorme capote de martimo, todo
esfarrapado, com um capuz, o que Lhe dava uma aparncia
positivamente disforme. Nunca em minha vida vi uma figura to
macabra. Parou a pequena distncia da estalagem e, elevando a
voz numa singular ladainha, falou para o espao na sua frente:
--Quem  a alma caridosa que quer informar um pobre cego, que
perdeu a luz preciosa dos olhos na defesa da sua ptria, a
Inglaterra (que Deus abenoe o rei Jorge!), onde ou em que
lugar do pas se encontra agora?
--Est na Estalagem do Almirante Benbow, bom
homem--respondi-lhe--, na enseada do monte Preto.
--Estou a ouvir uma voz de criana--disse ele.-Quer dar-me a
mo, meu amvel amiguinho, e levar-me l para dentro?
Estendi-lhe a mo e aquela horrvel criatura sem olhos mas de
falas to doces agarrou-a imediatamente, como um torno. Fiquei
to apavorado, que tentei libertar-me. Mas o cego puxou-me
para ele com um simples movimento do seu brao.
--Agora, meu rapaz --proferiu--, leva-me onde est o capito.
--oh, senhor!--balbuciei.--Dou-lhe a minha palavra que no me
atrevo!

 2
--Ah, ele  isso?! -- bradou escarninho. -- Leva-me j onde
ele est ou quebro-te o brao!
E, dizendo isto, apertou-me o brao de tal forma, que soltei
um grito de dor.
--Senhor,  por sua causa que o digo. o capito no est como
era. Tem sempre o sabre fora da bainha... o outro senhor...
--Vamos, anda l--interrompeu ele. Jamais ouvi uma voz to
cruel. to fria, to arrepiante como a desse cego. Enchia-me
de terror e obedeci-lhe imediatamente, caminhando para a porta
e dirigindo-me  sala onde se encontrava o nosso velho pirata,

doente e perdido de bbedo. o cego segurava-me com a mo de
ferro e apoiava-se a mim com tanta fora que eu mal o podia
aguentar.
--Vais levar-me onde ele est e quando estivermos em stio
onde ele possa ver-me, dizes bem alto: "Est aqui um seu
amigo, Bill." Se no fizeres o que te digo, fao-te assim...
--Deu-me um aperto to grande que me senti desfalecer.
Entretanto, o terror que o mendigo cego me inspirava era tal,
que me esqueci do medo que tinha do capito e, mal abri a
porta da sala, pronunciei bem alto e com voz trmula as
palavras que ele me indicara.
o pobre capito levantou os olhos e dir-se-ia que os efeitos
do rum Lhe passaram imediatamente, ficando logo em bom estado.
A expresso do seu rosto no s denotava terror como angstia
mortal. Fez um movimento para se levantar, mas as foras
faltaram-lhe.
--Agora, Bill, deixe-se estar onde est--pronunciou o
mendigo.--No vejo, mas ouo, nem que seja o mexer de um dedo.
Negcios so negcios. Estenda a mo direita. E tu, meu rapaz,
pega-lhe na mo direita pelo pulso e pe-a ao p da minha.
Ambos Lhe obedecemos sem resistir e vi-o passar qualquer coisa
que trazia na mo que segurava o bordo para a palma da mo do
capito, que instantaneamente se fechou.

 4

  , .=;
--Pronto!--disse o cego.
E largando-me subitamente, saltou para fora da sala com uma
preciso e agilidade incrveis; fiquei sem poder fazer qualquer movimento, e da a pouco ouvi na estrada o
tap-tap do seu bordo, afastando-se a tactear o caminho.
Tanto eu como o capito estivemos algum tempo sem recuperar a
noo das coisas; lentamente, larguei-lhe o pulso, que ainda
segurava, e quase no mesmo instante ele abriu a mo e olhou-a
ansiosamente para ver o que o cego l tinha posto.
--Dez horas!--gritou.--Temos seis horas. Ainda podemos fazer
alguma coisa.
Ps-se de p de um salto, mas cambaleou logo a seguir, levou a
mo  garganta, agitou-se um instante e depois caiu
redondamente no cho, com um rudo surdo, ficando de bruos.
Corri logo para ele, chamando por minha me. Tudo porm, era
j intil. o capito fora ferido de morte por uma apoplexia
fulminante. E, coisa extraordinria -porque, na verdade, eu
nunca gostara daquele homem, embora a pouco e pouco passasse a
ter pena dele--, assim que percebi que estava morto, rompi
numa torrente de lgrimas. Era a segunda morte que eu via,
quando a dor da primeira estava ainda bem viva no meu corao.

Captulo quatro

A MALA Do MARUJo

Contei logo a minha me tudo o que sabia e que devia ter dito
h mais tempo; estvamos numa situao deveras difcil e
perigosa. Uma parte do dinheiro daquele homem--se  que o
tinha--pertencia-nos, claro, visto que no-lo devia; mas no
era crvel que os seus companheiros, especialmente os dois que

eu vira, o Co Negro e o mendigo cego, concordassem em
abandonar a presa para pagar as dvidas do morto. Se
obedecesse  ordem do capito e montasse logo a cavalo para ir
ter com o Dr. Livesey, deixaria a minha me sozinha e sem
proteco e eu nem queria pensar nisso. Parecia-nos alm disso
impossvel continuarmos mais tempo naquela casa: um carvo que
caa da grelha do fogo, o tiquetaque do relgio, enchiam-nos
de terror. Para os nossos ouvidos tudo o que nos rodeava
estava cheio de passadas que se aproximavam; ante o corpo sem
vida do capito e o pensamento de que esse detestvel mendigo
cego podia rondar ali perto e voltar de um momento para o
outro, eu estremecia de pavor. Era preciso tomar prontamente
uma resoluo; ocorreu-nos a ideia de irmos ambos pedir
auxlio  aldeia vizinha. Dito e feito; tal como estvamos,
mesmo de cabea descoberta, corremos imediatamente para a rua,
na noite que caa envolta numa neblina gelada.
A povoao ficava a poucas centenas de metros, embora no se
avistasse, do outro lado da baa prxima, e, o que mais me
encorajava era que amos precisamente na direco oposta
quela de onde o cego aparecera e para onde presumivelmente
voltara. Corramos na estrada e parvamos de vez em quando,
agarrados um ao outro, para apurarmos o ouvido. Mas no
distinguamos qualquer rudo estranho--nada a no ser o

37
marulho cavo das ondas e o crocitar dos corvos na floresta.
Estavam j as luzes acesas quando chegmos  aldeia e jamais
esquecerei o conforto que senti ao ver essa claridade
amarelada que se coava pelas portas e janelas; e isso foi, na
verdade, o melhor auxlio que obtivemos ali, pois no houve
uma s alma que se dispusesse a vir connosco para Almirante
Benbow. Aqueles homens deviam envergonhar se de si prprios;
quanto mais Lhes falvamos da nossa inquietao, mais todos
eles -homens, mulheres e crianas--se apegavam ao abrigo
protector das suas casas. o nome do capito Filinto, se bem
que estranho para mim, era bastante conhecido ali e inspirava
Lhes grande terror. Alm disso, alguns camponeses, que
trabalhavam em campos distantes do stio onde ficava Almirante
Benbow, lembravam-se de terem visto indivduos estranhos na
estrada, que tomaram por contrabandistas, e dos quais tinham
fugido; um deles vira at um pequeno lugre na enseada a que
chamvamos Cova do Gato. E quem quer que tivesse sido
companheiro do capito, apavorava-os tanto como a prpria
morte. Ao fim e ao cabo, o caso  que alguns ainda se
prontificaram a montar a cavalo para nos acompanharem a casa
do Dr. Liversey, que habitava numa direco diferente, mas
ningum quis ajudar-nos a defender a estalagem.
Diz-se que o medo  contagioso e que a discusso dos assuntos,
por sua vez, encoraja os nimos. Por isso, depois de cada um
ter dado a sua opinio, a minha me apresentou a dela. E
declarou que no queria perder o dinheiro que pertencia ao seu
filho rfo.
--Se nenhum de vocs tem coragem--disse ela-Jim e eu temo-la.
Vamos voltar pelo mesmo caminho por onde viemos e bem pouco
teremos de vos agradecer seus poltres. Abriremos aquela mala,
ainda que isso nos custe a vida. o que agradecia  que me
emprestasse esse saco, senhora Crossley, para trazermos nele o
dinheiro que nos pertence.

38

Como era natural, eu disse que queria ir com minha me e, como
era natural tambm, todos protestaram em altos brados contra a
nossa temeridade; todavia, nem um s homem quis ir connosco.
Tudo quanto fizeram foi dar-me uma pistola carregada, para o
caso de sermos atacados, com a promessa de que teriam os
cavalos selados, para a hiptese de sermos perseguidos no
regresso; entretanto, um rapaz iria a casa do mdico pedir o
auxlio da fora armada.
o meu corao batia desordenadamente quando os dois partimos,
na noite frgida, para essa perigosa aventura. A Lua-cheia
comeara a erguer-se e aparecia, avermelhada, por trs dos
farrapos de nuvens, o que nos fez apressar o passo, pois era
evidente que, antes de chegarmos a casa, o luar tornaria tudo
to claro como de dia, e ficaramos assim expostos aos olhares
de qualquer espio. Deslizmos ao longo das sebes, sem rudo,
cautelosamente, sem vermos nem ouvirmos nada que aumentasse o
nosso terror, at que, com grande alvio, fechmos atrs de
ns a porta de Almirante Benbow.
Corri logo o ferrolho e ficmos um momento parados e
arquejantes no escuro, sozinhos, naquela casa com o corpo do
capito morto. Depois a minha me foi buscar um candeeiro ao
balco e, de mos dadas. avanmos na sala. o morto estava
como o deixramos, de costas, de olhos abertos e um brao
estendido.
--Desce os estores, Jim--disse minha me, em voz baixa --,
pode passar algum e ver-nos l de fora. E agora--continuou,
depois de eu Lhe ter obedecido-temos de Lhe tirar a chave
disto, mas como vai ser  que eu no sei!--disse, dando um
suspiro.
Pus-me logo de joelhos. No cho, junto  mo do cadver,
estava um pedao de papel, todo preto de um lado. No tinha
dvidas de que era a marca negra; apanhei-o e, do outro lado,
pude ler, numa letra boa e ntida, esta breve mensagem: "o
prazo  at s dez da noite . "

39
--Me, o prazo era at s dez horas! --disse eu. No momento em
que proferia estas palavras, o nosso velho relgio comeou a
dar horas. Aquele barulho inesperado assustou-nos
violentamente, mas as novas que nos deu foram boas: eram s
seis horas.
--Ento, Jim, essa chave?!--proferiu minha me.
Apalpei-lhe as algibeiras, uma aps outra. Algumas moedas, um
dedal, linha e agulhas grossas, um rolo de tabaco mordido numa
ponta, a sua faca de cabo curvo, uma bssola de algibeira e um
isqueiro, foi tudo o que consegui encontrar; comeava a
desesperar.
--Talvez a traga ao pescoo--sugeriu minha me.
Dominando a repugnncia, rasguei-lhe a camisa at ao pescoo e
a, bem segura, encontrei a chave, presa a um pedao de fio
alcatroado, que cortei com a sua faca. Este triunfo fez
renascer em ns a esperana. Subimos as escadas sem demora e
fomos ao pequeno quarto onde ele dormia e onde estava a sua
mala desde o dia em que ali chegara.
Por fora, era semelhante a qualquer outra mala de marinheiro,
com a inicial "B , gravada na tampa a ferro em brasa e os

cantos amachucados e quebrados pelo uso rude e prolongado.
--D-me a chave!--pediu minha me.
E, apesar de a fechadura estar perra, conseguiu dar-Lhe volta
e levantar a tampa num abrir e fechar de olhos.
De l de dentro saiu um cheiro forte a tabaco e alcatro, mas
ao de cima nada vimos, a no ser um fato completo, muito bom,
cuidadosamente escovado e dobrado. Minha me disse que nunca
fora usado. Por baixo, comeava a miscelnea--um quadrante, um
copo de estanho, vrios rolos de tabaco, dois pares de lindas
pistolas, uma barra de prata, um velho relgio espanhol, e
outras bugigangas de pequeno valor e de fabrico estrangeiro,
um par de bssolas montadas de cobre e cinco ou seis curiosas
conchas da ndia ocidental. Muitas vezes penso quanto tempo
ter ele andado com aquelas

4()

conchas, durante a sua vida vagabunda, criminosa e
aventureira.
Entretanto, nada de valor tnhamos ainda encontrado, a no ser
a prata e as bugigangas, mas nada disso nos interessava. Por
baixo estava um velho capote de marinheiro, embranquecido pelo
sal marinho de muitas viagens. Minha me puxou-o com
impacincia para fora e diante dos nossos olhos apareceram
ento as ltimas coisas que havia na mala: um embrulho de
oleado que parecia ter l dentro papis, e um saco de lona, de
onde saiu, quando se Lhe tocou, um tinido de moedas.
--Hei-de mostrar a esses patifes que sou uma mulher
honesta--pronunciou minha me.--Vou tirar o que ele nos devia
e nem mais um real. Segura a no saco da senhora Crossley.
E tirando algumas moedas de dentro do saco do marinheiro,
comeou a cont-las e a met-las no saco que eu segurava, at
perfazer a dvida do capito.
A tarefa era, porm, difcil e demorada, pois havia ali
dinheiro de todos os pases e de todos os tamanhos-dobres,
luses de ouro, guinus, onas e no sei que mais, tudo
misturado. os guinus, que minha me sabia contar melhor, eram
precisamente os mais escassos.
Devamos ir em meio quando, de sbito, pus a mo sobre o brao
de minha me; no ar silencioso e frio acabava de perceber um
rudo que me ps o corao em sobressalto --o tap-tap do
bordo do cego tacteando na estrada gelada. o som foi-se
aproximando cada vez mais, enquanto ns sustnhamos a
respirao. Depois bateu violentamente  porta da estalagem e
a seguir ouvimos girar a aldraba e ranger a fechadura, como se
o miservel estivesse experimentando entrar. Fez-se, em
seguida, demorado silnio, tanto c dentro, como l fora. Por
fim, o tactear do pau recomeou e, para nossa indescritvel
alegria, foi-se afastando e desvanecendo lentamente, at
deixar de se ouvir

--Me--murmurei--, peguemos nisto tudo e vamo-nos embora.
Eu estava certo de que o facto de a porta estar fechada se
tornara suspeito e ia atrair sobre ns todo aquele enxame de
moscardos; s quem nunca tivesse visto esse terrvel cego 
que no podia avaliar quanto eu me congratulava por ter
aferrolhado a porta.
Minha me, porm, por muito apavorada que estivesse no

concordava em retirar dali uma s fraco a mais do que Lhe
era devido, mas recusava-se, tambm, obstinadamente, a
contentar-se com menos.
--Ainda no so sete horas--dizia ela, aferrada  sua ideia.
Sabia quais eram os seus direitos e queria obt-los. E
discutia ainda comigo, quando um silvo, baixo e prolongado,
soou a distncia, no alto da colina. Isto para ns era mais do
que suficiente.
--Vou levar o que tenho --disse ela, dando um salto.
--E eu levo isto para completar a conta--pronunciei, pegando
no embrulho de oleado.
Acto contnuo, descemos ambos a escada, deixando a luz ao p
da mala vazia, e abrimos a porta, batendo em retirada. Era
tempo. A bruma dissipara-se rapidamente; l no alto, a Lua
brilhava com intensa claridade, iluminando tudo; apenas no
fundo do vale e em redor da porta da estalagem havia ainda um
tnue vu obscuro, ocultando os primeiros passos da nossa
fuga. Mas para l do vale, a menos de metade do caminho da
aldeia, tnhamos de marchar a descoberto, em pleno luar. Isso,
porm, ainda no era tudo; aos nossos ouvidos chegava j o
rudo de muitos passos em correria e, ao olharmos para trs,
na direco de onde vinha esse rudo, vimos uma luz agitar-se
de um lado para o outro, avanando rapidamente, sinal de que
um deles trazia uma lanterna.
--Meu filho--murmurou de repente minha me.-Pega no dinheiro e
foge. Sinto que vou desfalecer.
Pensei que para ns dois era o fim. E amaldioei a

42

cobardia dos nossos vizinhos e censurei a minha pobre me pela
sua honestidade e a sua ambio, pela sua temeridade anterior
e a sua fraqueza nesse momento! Felizmente estvamos j na
pequena ponte; minha me cambaleava; ajudei-a a atingir a
margem do rio; uma vez a, deixou tombar a cabea no meu
ombro, soltando um suspiro. Ignoro como tive foras para fazer
o que fiz e receio t-lo feito desajeitadamente, mas consegui
arrast-la para debaixo da arcada da ponte. No pude lev-la
para mais longe, pois a ponte era to baixa que s se
conseguia passar andando de rastos. Assim, tivemos de ficar
ali os dois escondidos, a minha me quase inteiramente a
descoberto, e to perto da estalagem que podamos ouvir o que
l se dizia.
Captulo cinco

o FIM Do CEGo

At certo ponto, a minha curiosidade foi mais forte do que o
meu terror, porque no pude ficar onde estava e voltei,
rastejando, para a ribanceira, de onde podia dominar o troo
da estrada em frente da nossa porta, escondendo a cabea por
trs de um tufo de giestas. Mal acabara de me acomodar ali,
comearam a chegar os meus inimigos. Eram uns sete ou oito e
vinham em correria louca, precedidos pelo homem da lanterna.
Na estrada ressoavam os seus passos desordenados. Trs corriam
de mos dadas e, mesmo atravs da neblina, percebi que o do
meio era o cego. Em breve a sua voz me demonstrou que no me
enganara.

--Arrombem a porta!--gritou ele.
--Est bem, senhor! --responderam dois ou trs.
Lanaram-se com mpeto para a Almirante Benbow, seguidos do
homem da lanterna. Vi-os depois parar, falando em voz baixa
uns com os outros, como se tivessem ficado surpreendidos por
encontrarem a porta aberta. Essa pausa, porm, foi breve,
porque o cego tornou a dar as suas ordens. A voz dele
ouvia-se, estrondosa, cada vez mais alta, como se ardesse em
nsia e raiva.
--Entrem! entrem! entrem! --incitava ele, censurando-os pela
demora.
Quatro ou cinco obedeceram imediatamente, enquanto dois se
deixavam ficar na estrada com o cego fantasmagrico. Houve um
momento de silncio e a seguir ouviu-se um grito de surpresa e
uma voz bradando dentro de casa:
--Bill est morto!
Mas o cego injuriou-os outra vez pela lentido.
--Revistem-no, corja de madraos! -- berrou. -E os outros vo
l acima e tragam a mala.

44

o estrondo dos seus ps era tal ao subir a velha escada, que a
casa deve ter estremecido. Pouco depois, novas exclamaes de
espanto se ouviram; a Janela do quarto do capito foi aberta
violentamente com um encontro e um tinido de vidros partidos,
e a cabea e os ombros de um homem apareceram  luz da Lua,
interpelando o cego que estava em baixo, na estrada.
--Pew--gritou ele--, esteve aqui algum antes de ns.
Remexeram a mala de alto a baixo.
--As coisas esto l?--rugiu Pew.
--o dinheiro est.
o cego mandou ao diabo o dinheiro.
--Pergunto pelos papis de Filinto!--berrou.
--No os vemos em parte nenhuma -- replicou o outro.
--E vocs, c em baixo, j revistaram o Bill?-tornou o cego a
gritar.
Dito isto, outro homem, provavelmente o que ficara c em baixo
a inspeccionar o corpo do capito, veio  porta da hospedaria.
--o Bill j foi revistado--disse.--No deixaram nada.
--Foi a gente da estalagem, deve ter sido o rapaz. Por que no
Lhe tirei eu os olhos?! --gritou o cego Pew. --Ainda no h
muito tempo eles estavam c, tinham a porta fechada quando
tentei abri-la. Procurem-nos, vejam se os encontram.
--At deixaram a luz acesa...--disse o da janela.
--Procurem-nos! Procurem-nos! Revistem a casa toda!--tornou
Pew, batendo com o pau na estrada.
Depois disto seguiu-se um grande rebulio na nossa velha
hospedaria, passos pesados de um lado para o outro, mveis
revolvidos, pontaps nas portas, ao ponto de se repercutirem
nas rochas, at que os homens tornaram a sair para a estrada,
uns atrs dos outros, declarando que no nos encontravam fosse
onde fosse. Precisamente nessa ocasio, o mesmo silvo que nos
alarmara, a mim e

4
a minha me, quando contvamos o dinheiro do capito morto,
mais uma vez se ouviu claramente na noite, mas agora repetido

duas vezes. Eu julgara que aquilo fosse o sinal do cego
chamando a quadrilha para o assalto; agora porm, verificava
que aquele som vinha do lado da montanha, na direco da
aldeia, e que, pelo efeito produzido nos bandoleiros, era o
aviso da aproximao de um perigo.
-- o Dirk novamente--disse um.--Duas vezes... Temos de nos
pr a andar, camaradas!
--Querem ento fugir, seus poltres !--gritou Pew.-o Dirk  um
doido e um cobardo, no faam caso! os outros ho-de estar
por a, no podem andar longe; vocs so capazes de estar a
olhar para eles sem os ver. Mexam-se e procurem-nos, ces !
oh, maldita sorte a minha! Se eu tivesse vista...
Este apelo pareceu produzir algum efeito, porque dois ou trs
homens comearam a busca, mas de m vontade, pareceu-me, e
mais com o sentido no perigo que corriam, enquanto os outros
ficavam na estrada, indecisos.
--Idiotas! Tm alguns milhes ao alcance das mos e ficam para
a de braos cruzados. Se os encontrarem, sero ricos como
reis; sabem que eles esto aqui perto e no do um passo.
Nenhum de vocs se atreveu a defrontar o Bill, s me atrevi eu
que sou cego! E por causa de vocs, vou perder uma ocasio
nica! Vou continuar a arrastar-me como um msero mendigo, que
implora uma pinga de rum, quando podia andar de carruagem! Se
tivessem um bocadinho de sangue nas veias, apanhavam essa
gente.
--Contenta-te, Pew, com os dobres que apanhmos!--resmungou
um.
--Eles devem ter escondido essa preciosidade -disse
outro.--Pega l os georges *, Pew, e no estejas para a a
bramar!

* Moedas inglesas

Bramar era o termo e por isso a clera de Pew subiu ainda
mais, acabando por domin-lo completamente; comeou a
distribuir bordoada  esquerda e  direita, s cegas, mas o
certo  que o pau malhou os costados de alguns.
Por sua vez, os outros insultavam-no, ameaavam-no em termos
horrveis e em vo tentavam agarrar-lhe o pau e arrancar-lho
das mos.
Esta zaragata foi a nossa salvao; enquanto eles continuavam
a sua bulha, chegou at ns, do lado da aldeia, vindo do topo
da colina, o rudo do galope de cavalos. Quase ao mesmo tempo,
ouviu-se um tiro de pistola que vinha da beira-mar. Era,
certamente, o ltimo sinal de perigo, porque houve confuso
entre os bandidos, que desataram a correr em todas as
direces, uns ao longo da enseada, outros pela montanha, de
tal maneira que meio minuto depois nem sinal deles ficou, a
no ser o Pew. Tinham-no deixado s, ou fosse apenas por medo
ou para se vingarem das suas injrias e pancadas. Para ali
ficara, tacteando a estrada de um lado para o outro, num
frenesim, chamando pelos companheiros, s apalpadelas. Por
fim, tomou por caminho errado e correu alguns passos, passando
prximo do stio onde eu estava, em direco  aldeia
gritando:
--Johnny, Co Negro, Dirk!--chamava ainda por outros nomes. --
Vocs no vo abandonar o velho Pew! No pode ser... o velho
Pew!

No mesmo instante ouviu-se mais perto o tropel dos cavalos e
quatro ou cinco cavaleiros aparecerem, iluminados pelo luar,
descendo a vertente a todo o galope.
Foi ento que Pew compreendeu o seu engano; deu uma volta,
soltando um grande grito, e correu direito  encosta, por onde
rolou. Num segundo, porm, ps-se de p e, num mpeto, fez
outra arremetida, mas agora completamente desnorteado, de tal
modo que se meteu debaixo das patas do cavalo que vinha na
dianteira.
o cavaleiro tentou ainda salv-lo, mas debalde. Pew,
debaixo da montada, soltou um grito agudo que perfurou a
noite. Cara de lado, mas depois foi rolando lentamente at
ficar de bruos e no se mexeu mais.
De um salto, pus-me de p e chamei os cavaleiros. Quase a um
tempo, todos fizeram parar os cavalos, horrorizados com o
desastre; e depressa vi quem eram. o que vinha atrs de todos
era o moo que fora da aldeia a casa do Dr. Livesey; os outros
eram guardas da alfndega, que ele encontrara no caminho e com
os quais logo decidira vir em nosso socorro. o inspector Dance
soubera que um lugre fundeara na Cova do Gato, e por isso
decidira vir nessa noite para os nossos lados, circunstncia
a que eu e minha me ficmos a dever a vida .
Pew estava morto e bem morto. Transportmos minha me para a
aldeia e a, com um pouco de gua fria e sais, depressa voltou
a si, mostrando menos terror pelo que se passara do que pesar
por no ter podido completar a conta do seu dinheiro.
Entretanto o inspector afastou-se, o mais rapidamente
possvel, na direco da Cova do Gato; mas os seus homens
tiveram de apear-se e seguir pelo vale, tacteando, conduzindo
os animais e sustendo-os algumas vezes, sempre com medo de
qualquer emboscada; por isso no tiveram grande surpresa
quando, ao chegarem  Cova, verificaram que o lugre j
levantara ferro, embora ainda estivesse perto. o inspector
chamou-o  fala. Respondeu-lhe uma voz, dizendo-Lhe que no se
pusesse  luz da Lua, para no apanhar alguma chumbada; e no
mesmo instante uma bala passava-lhe rente a um brao. Pouco
depois o lugre dobrava o promontrio e desaparecia. Dance
ficou ali algum tempo, "como um peixe fora de gua", segundo
ele prprio disse, e tudo quanto pode fazer foi mandar um
homem a B... avisar a lancha de fiscalizao da costa.
--isto--dizia ele-- o mesmo que nada. Puseram-se ao fresco, e
pronto! o que me consola,  ter
acabado com a raa desse mestre Pew--acrescentava, mais tarde,
depois de ouvir a minha histria.
Voltei com ele a Almirante Benbow e ningum imagina em que
estado estava a casa. At o relgio tinham deitado abaixo na
sua fria de nos caarem, a mim e a minha me. E embora no
tivessem levado nada alm do dinheiro do capito e alguma
prata que tnhamos na gaveta, vi logo que estvamos
arruinados. Dance no compreendia patavina daquela cena.
--Dizes que eles levaram o dinheiro, no ? Mas ento,
Hawkins, que diabo queriam mais!? Mais dinheiro, no?
--No, senhor, creio que no era o dinheiro que
queriam--repliquei--, mas sim outra coisa que eu tenho na
algibeira e, para falar a verdade, gostava de a pr em
segurana.
--Muito bem, meu rapaz, tens razo--disse.--Se quiseres,
encarrego-me eu disso.

--Talvez o doutor Livesey...--comecei.
--Perfeitamente -- interrompeu ele, satisfeito.
-Perfeitamente.  um cavalheiro e um magistrado. E j que mo
fizeste lembrar, posso muito bem ir agora a casa dele, para
Lhe dar parte da morte de mestre Pew. No  que eu tenha a
menor pena dele, mas o povo v as coisas  sua maneira e pode
ficar contra um oficial da alfndega de Sua Majestade. Agora,
Hawkins, se quiseres, posso levar-te comigo.
Agradeci-lhe sinceramente o oferecimento e voltmos para a
povoao, onde os cavalos tinham ficado. Enquanto eu punha
minha me ao corrente do meu intento, os homens foram
montando.
--Dogger-- disse Dance --, como tens um bom cavalo, leva este
pequeno na garupa.
Assim que subi para a sela e me segurei ao cinturo de Dogger,
o inspector deu ordem de marcha e largmos a todo o galope,
pela estrada fora, a caminho da casa do Dr. Livesey.

Captulo seis
os PAPIS Do CAPITo

Todo o caminho cavalgmos energicamente, at que estacmos em
frente da porta do Dr. Livesey. A frontaria da casa estava s
escuras.
Dance disse-me para saltar em terra e bater  porta e Dogger
deu-me um dos estribos para eu descer. Bati. Uma criada abriu
a porta quase em seguida.
--o doutor Livesey est?--perguntei.
--No--respondeu ela.--A tarde veio para casa, mas depois foi
at ao castelo, para jantar e passar o sero com o fidalgo.
--Ento vamos l, rapazes--decidiu Dance.
Desta vez, como a distncia era pequena, no montei e corri,
agarrado ao estribo de couro de Dogger, at aos portes da
moradia, pela alameda despida de folhagem, de onde se avistava
a linha branca das dependncias do castelo, espreitando entre
os grandes e vetustos jardins. Dance apeou-se e, levando-me
consigo, fomos introduzidos na residncia, depois de termos
dito quem ramos.
o criado conduziu-nos por uma galeria coberta de esteiras, ao
fim da qual nos introduziu na vasta biblioteca, guarnecida de
estantes sobre as quais se viam bustos e onde o fidalgo e o
Dr. Livesey estavam sentados, de cachimbo na mo, junto de um
bom lume.
Eu nunca tinha visto o fidalgo to de perto. Era um homem de
estatura elevada, com mais de seis ps de altura, de ombros
largos e bem proporcionado, rosto rude e franco, endurecido e
bronzeado por longas viagens. As suas sobrancelhas, muito
pretas, encrespavam-se facilmente, o que Lhe dava um aspecto
um tanto severo, embora o seu carcter, perspicaz e altivo,
no fosse mau.
--Entre, senhor Dance--convidou ele, imponente e acolhedor
--Boa noite, Dance -- disse o mdico, saudando com a
cabea.--E boa noite a ti, tambm, amigo Jim. Que bom vento os
traz por c?
o inspector, hirto e firme, relatou-lhe a sua histria como se
fosse uma lio e valia a pena ver os dois cavalheiros
inclinados para a frente, a olharem um para o outro,
esquecidos at de fumarem, dominados pela surpresa e pelo

interesse. Ao ouvirem contar de que maneira minha me voltara
 estalagem, o Dr. Livesey deu uma enrgica palmada na perna e
o fidalgo exclamou: "Bravo!", quebrando o comprido cachimbo na
grelha do fogo. Um pouco antes disso, o senhor Trelawney
(assim se chamava o fidalgo) levantara-se do seu lugar e
pusera-se a dar largas passadas na sala, enquanto o doutor,
como se assim ouvisse melhor, tirara a cabeleira empoada,
ficando com um aspecto realmente estranho, ao descobrir-nos o
seu cabelo escuro, cortado rente.
Dance chegou, por fim, ao termo da narrativa.
--Senhor Dance--pronunciou o fidalgo--, o senhor  um homem
digno. Para mim, o facto de ter atropelado esse miservel foi
uma boa aco; esmagou um monstro. E estou a ver que este
pequeno  um valente. Hawkins, fazes favor tocas a campainha?
Quero que o senhor Dance beba uma cerveja.
--E tu, Jim--disse o mdico--,  que tens essa coisa de que
eles andavam  procura, no  verdade?
--Aqui est, senhor doutor--respondi eu, dando-Lhe o embrulho
de oleado.
o mdico contemplou-o como se estivesse ansioso por abri-lo,
mas, em vez disso, meteu-o tranquilamente na algibeira do
casaco. Depois, disse:
--Senhor Trelawney, quando Dance tiver tomado a cerveja tem de
se ir embora, para continuar ao servio de Sua Majestade; mas
eu queria que Jim Hawkins ficasse e fosse dormir a minha casa;
por isso, se estiver de acordo, far o favor de mandar
servir-lhe uma refeio fria e deix-lo cear aqui.

--Como quiser, Livesey --replicou o fidalgo. -Ele merece ainda
mais do que isso.
Trouxeram, pois, um grande empado de pombo, que puseram numa
espcie de aparador, e eu ceei com verdadeira satisfao,
porque estava com uma fome devoradora, enquanto Dance, a
seguir, cumprimentava e se despedia .
--E agora, senhor Trelawney--comeou o mdico.
--E agora, Livesey -- disse o fidalgo, ao mesmo tempo.
--Cada um por sua vez, cada um por sua vez! -continuou, rindo,
o Dr. Livesey.--J deve ter ouvido falar desse Filinto...
--ouvido falar dele!--exclamou o fidalgo.--Se j tenho ouvido
falar dele, diz voc? Era o pirata mais sanguinrio que tem
cruzado os mares. o Barba-Azul, ao p dele, era uma criana.
os Espanhis tinham tal medo dele, que algumas vezes tive
orgulho de ele ser ingls, acredite, doutor! Vi com os meus
olhos as velas dos seus mastarus ao largo da Trindade, e o
cobarde que comandava o navio em que eu ia ps-se na alheta,
doutor, fugiu para o Porto de Espanha.
--ora bem, eu tambm ouvi falar dele, na Inglaterra-proferiu o
mdico.--Mas a questo, agora  esta: ele teria dinheiro?
--Dinheiro! -- exclamou o fidalgo. -- Ento no ouviu a
histria? Ento, que  que esses patifes procuram seno
dinheiro? !Y[]

H !

,
 que ele prprio tambm tivesse as suas dvidas a respeito da
tripulao, o que no passava de uma suposio nossa porque,
como se vai ver, pouco tempo depois provou-se o contrrio.
Trabalhvamos com afinco na mudana da plvora e dos
alojamentos, quando os ltimos dois homens e o Joo Grande
chegaram numa embarcao do porto.
o cozinheiro trepou para bordo com a agilidade de um macaco e,
logo que viu o que se estava fazendo, exclamou:
--Eh l, camaradas! Ento que  isto?
--Estamos a mudar a plvora, compadre--respondeu um.
--Mas para qu, cos diabos?!--gritou Joo Grande.-Por este
andar, perdemos a mar da manha!
--So ordens minhas! --cortou o capito, laconicamente. --Pode
ir l para baixo, meu rapaz. os homens precisam de cear.
--Est bem, est bem, senhor!--respondeu o cozinheiro. E
levando a mo ao topete, desapareceu imediatamente na direco
da cozinha.
-- um belo homem, capito--proferiu o mdico.
-- muito provvel--replicou o capito Smollett.-Cuidado com
isso, rapazes, cuidado!--prosseguiu, dirigindo-se aos homens
que mudavam as munies.
De repente, vendo-me a examinar a colubrina que levvamos a
meia-nau (uma grande pea de nove, de cobre), gritou:
--Vai-te embora da, grumete! Deixa isso! Vai para o p do
cozinheiro e faz alguma coisa!

80

Escapuli-me logo, mas ouvi-o ainda dizer bem alto para o
doutor:
--No meu barco no quero favoritos.
Confesso que eu era inteiramente da opinio do fidalgo e que
detestava o capito com todas as veras da minha   lm
Captulo dez

A VIA(;FM

Passmos toda aquela noite em grande balbrdia, a arrumar
coisas nos seus lugares e a ver chegar barcos cheios de amigos
do fidalgo, o Sr. Blandly e outros, que vinham desejar-lhe uma
boa viagem e um feliz regresso. Em Almirante Benbow nunca
tivramos uma noite assim, e era eu que fazia metade do
trabalho; e sentia-me cansado como um co, quando, um pouco
antes do romper da alva, o contramestre fez soar o apito e os
homens comearam a manobrar o cabrestante. E ainda mesmo que
estivesse duas vezes mais cansado do que estava, no teria
abandonado o convs, to novo e to interessante era tudo para
mim--os comandos rpidos, a nota aguda do apito, os homens
precipitando-se para os seus lugares  luz frouxa das
lanternas de bordo.
--Vamos l, Barbecue, canta-nos qualquer coisa-gritou uma voz.
--Aquela velha--bradou outra.
--Pois sim, camaradas--disse Joo Grande, que ali se
encontrava encostado  muleta e que logo atirou para o ar com
aquelas palavras que eu conhecia to bem:

Quinze homens na mala do morto

E logo toda a tripulao rompeu em coro:

lo-ho-ho, e uma garrafa de rum!

E ao terceiro "ho" ! impeliram as barras do cabrestante 
frente deles como se fossem um s.
A prpria emoo desse momento levou-me, num segundo, at 
velha Almirante Benbow e pareceu-me ouvir a voz do capito,
sibilando no coro. Em breve,

82

porem, a ancora emergia e via-se, suspensa, a gotejar,  proa;
em breve as velas comearam a tomar vento, e a terra e os
barcos a fugir noutra direco; e antes que eu pudesse ir para
baixo, em busca de uma hora de repouso, a Hispaniola iniciava
a sua viagem a caminho da ilha do Tesouro.
No vou descrever essa viagem com pormenores. Foi
admiravelmente feliz. o navio provou que era bom, os homens
que eram marinheiros hbeis e o capito que sabia a fundo do
seu ofcio. Mas antes de chegarmos  ilha do Tesouro,
passaram-se duas ou trs coisas que precisam de ser
conhecidas.
A primeira delas foi Arrow sair ainda pior do que aquilo que o
capito receava. No tinha autoridade nenhuma sobre os homens
e todos faziam com ele o que queriam. Isto, porm, ainda no
era o pior: um ou dois dias depois de estarmos ao largo,
comeou a aparecer na coberta com os olhos toldados, as faces
vermelhas, a lngua entaramelada e outros sinais de
embriaguez. Dia aps dia, aumentava o seu descrdito. As vezes
caa e feria-se. outras vezes ficava o dia inteiro na sua
tarimba e l de longe em longe passava dois ou trs dias quase
sem beber, dado conta do seu trabalho sofrivelmente
pelo menos.
Entretanto, nunca pudemos perceber onde  que ele arranjava a
bebida. Era o mistrio de bordo--que nada fazia decifrar, por
mais que o vigissemos. E quando o Interrogavam cara a cara,
limitava-se a rir, se estava bbedo, e, se o no estava, a
negar solenemente que tivesse provado o que quer que fosse
alm de gua.
Como oficial, era no s intil, como prejudicial,
exercendo uma pssima influncia entre os homens. Por aquele
andar, era evidente que acabaria por se matar sem que ningum
pudesse valer-lhe. Por isso no foi surpresa nem pesar para
ningum quando, numa noite tenebrosa, em que o mar estava
bravo, ele desapareceu de tal maneira que nunca mais se viu.

83
--Foi pela borda fora! --disse o capito. --Evitou-me o
trabalho de p-lo a ferros.
A verdade, porm,  que estvamos sem imediato, e tnhamos de
promover um dos homens. o contramestre, Job Anderson, que era
quem tinha melhores qualidades, passou a servir de imediato,
embora conservasse o ttulo anterior. o Sr. Trelawney conhecia
a vida do mar e os seus conhecimentos tornavam-no muito til,
porque ele prprio, muitas vezes, fazia quartos quando estava

bom tempo. E o timoneiro, Israel Hands, era um velho marujo
experimentado, acautelado e fino, em quem se podia confiar, se
nos vssemos em apuros.
Era o grande confidente de Joo Silver e a simples meno
deste nome leva-me a falar do nosso cozinheiro, Barbecue, como
os homens Lhe chamavam.
A bordo trazia a muleta suspensa por um cordel ao pescoo,
para ter ambas as mos livres quanto possvel. E era digno de
ver-se ele entalar a base da muleta de encontro a um anteparo,
e, apoiado nela, fazer todo o seu trabalho de cozinheiro, ao
sabor dos balanos do navio, to bem como se estivesse em
terra. E mais extraordinrio ainda era v-lo atravessar o
convs com mau tempo. Havia uma corda ou duas, postas por
cima, para ajud-lo a passar nos stios mais largos, s quais
chamavam os brincos do Joo Grande; e ele transportava-se de
um lugar para o outro, ora servindo-se da muleta, ora
arrastando-se ao longo das cordas, com tanta facilidade como
um homem que andasse com as duas pernas. No entanto, alguns
dos que tinham viajado com ele outrora tinham pena de o ver
reduzido quele estado.
--Barbecue no  um homem vulgar--dizia-me o
timoneiro.--Recebeu uma boa instruo na sua mocidade e quando
ele quer fala como um livro aberto. E  valente! Ao p do Joo
Grande, um leo no  nada! J o vi agarrar quatro homens e
dar com as cabeas de uns nas dos outros, e desarmado.
Toda a tripulao o respeitava e Lhe obedecia. Tinha

x

uma maneira particular de falar a cada um e a todos sabia
prestar qualquer servio especial. Para mim era de uma
amabilidade inesgotvel; ficava contente sempre que me via na
cozinha, que ele mantinha limpa e reluzente como uma moeda
nova, com as caarolas penduradas e muito brunidas e a gaiola
do seu papagaio a um canto.
--Anda c, Hawkins--dizia-me--, anda c para a cavaqueira um
bocado com o Joo. Tu s sempre bem-vindo aqui, meu filho.
Senta-te e ouve as novidades. Est ali o Capito Filinto;
chamo Capito Filinto ao meu papagaio, porque era assim que se
chamava o clebre pirata; pois o Capito Filinto tem estado a
predizer um grande xito para a nossa viagem. No  assim,
Capito?
E com grande rapidez o papagaio respondia:
--Peas de oito! Peas de oito! Peas de oito!--de tal maneira
que espantava como ele no perdia o flego, s parando quando
o Joo Lhe atirava o leno para cima da gaiola.
--ora tu sabes, Hawkins--continuava ele--, que este animal
deve ter uns duzentos anos? E a no ser o prprio Diabo, ainda
ningum viu tantas atrocidades como ele. Viajou com England, o
grande pirata, o capito England. Esteve em Madagscar, em
Malabar, em Surino, em Providncia e em Porto Belo. Assistiu
ao salvamento de barcos naufragados, recheados de prata. Foi
nessa ocasio que aprendeu a dizer: "peas de oito! E no 
nada de admirar: eram trezentas e cinquenta mil, Hawkins!
Assistiu  chegada do vice-rei das ndias ao largo de Goa;
estava l. E quando se olha para ele parece que  novo. Mas tu
cheiras a plvora, no  verdade, Capito?
--Ateno! Virar de bordo!--berrou o papagaio.

--Que tal est o figuro, hem?--dizia o cozinheiro,
mostrando-lhe acar, que trazia na algibeira; ento o bicho,
praguejando, atirava-se s bicadas s grades da  aiola.
mostrando ferocidade

X
--Ests a ver?--acrescentava Joo.--Quem mexe em alcatro fica
sujo, meu rapaz. Aqui est este pobre animalzinho inocente a
praguejar desalmadamente sem saber, acredita. Ainda que
estivesse em frente do capelo, praguejava da mesma
maneira...--E Joo passava a mo pelo cabelo, com aquele ar
grave que Lhe era peculiar e que me fazia julg-lo o melhor
dos homens.
Entretanto, o fidalgo e o capito Smollett continuavam a
manter-se  maior distncia um do outro. o fidalgo desprezava
o capito e no o ocultava. o capito, por sua vez, no falava
seno quando o interpelavam, sempre com brevidade e secura,
sem desperdiar uma palavra. Quando o punham entre a espada e
a parede, confessava que Lhe parecia que, de facto, se
enganara acerca da tripulao, que alguns homens eram to
cumpridores como ele desejava e que todos, afinal, se
comportavam perfeitamente bem. Quanto ao navio, estava
francamente encantado com ele.
--Submete-se to bem ao comando como um homem gostaria de ver
obedecer-lhe a prpria esposa.--E acrescentava:--Por ora, tudo
o que eu posso dizer  que ainda no regressmos e que a
viagem no me agrada.
A estas palavras, o fidalgo voltava-lhe as costas e punha-se a
andar de c para l na coberta, furioso.
--Mais um disparate deste homem, e eu estoiro!-dizia.
Tivemos mau tempo, que ps  prova as altas qualidades de
Hispaniola. Todos a bordo se mostravam satisfeitos; alis,
seria preciso ser muito difcil de contentar para que assim
no fosse, pois creio que, desde os tempos em que No
embarcou, jamais alguma tripulao de navio teria sido to bem
tratada. Qualquer pretexto servia para dobrar-se a rao do
grogue; nos dias extraordinrios, havia doce, como, por
exemplo  no dia dos anos de algum, desde que o fidalgo o
soubesse, e no convs havia sempre uma barrica de maas 
disposio de quem quisesse.

8

--Isto nunca d bom resultado--dizia o capito ao Dr.
Livesey.--o governo brando faz o povo rebelde. Esta  a minha
opinio.
Como se vai ver, porm, para algo de bom serviu a barrica das
maas; se no fosse ela nada saberamos e todos teramos
perecido s mos de um traidor.
Eis o que se passou.
Tnhamos manobrado de forma a apanharmos vento de feio para
a ilha que demandvamos--no me  permitido ser mais
explcito--e para ela nos dirigamos a toda a velocidade do
navio, levando um ptimo vigia noite e dia para no-la
assinalar. Pelos nossos clculos, devamos estar no ltimo dia
da nossa extraordinria viagem:  noite ou, o mais tardar, no
dia seguinte, por volta do meio-dia, estaramos  vista da
ilha do Tesouro. amos na direco su-sudoeste, com ptimo

vento fresco e mar calmo. A Hispaniola avanava com firmeza,
mergulhando o gurups em pleno vento com um chuveiro de
salpicos. Levava todas as velas abertas, de baixo a cima; e
todos iam na melhor disposio de esprito, porque estava j
perto o fim da primeira parte da nossa aventura.
o Sol acabava de pr-se, o meu trabalho estava concludo, e ia
para o meu aloj mento quando me lembrei de ir comer uma maa.
Corri pelo convs. os homens de quarto estavam todos na proa,
na esperana de avistarem a ilha. o homem do leme olhava para
a bolina da vela e assobiava baixinho--nico rudo que se
ouvia, alm do espadanar do mar de encontro  proa e aos
costados do navio.
Saltei para dentro da barrica das maas e achei apenas uma
maa que l tinha deixado; sentado ali, no escuro, ouvindo
somente o marulho das guas com o movimento balanceado do
navio, estava quase a deixar-me dormir quando senti um homem
sentar-se pesadamente e com rudo rente  barrica. A barrica
oscilou quando ele se Lhe encostou e eu estava a ponto de
saltar para fora,

87
mas o homem comeou a falar. Era a voz de Silver e ainda eu
no ouvira uma dzia de palavras e j no apareceria a ningum
por nada deste mundo, deixando-me ali ficar, a tremer e a
ouvir, no auge do medo e da curiosidade. Por aquela dzia de
palavras, compreendi que a vida de todos os homens honestos
que iam a bordo estava apenas dependente de mim.

Captulo onze

o QUE EU oUVI NA BARRICA DAS MAAS

--No, eu no--dizia Silver.--Filinto era o capito; eu eu o
quartel-mestre, por ter uma perna de pau. Perdi-a na mesma
altura em que o velho Pew perdeu a vista. Quem ma cortou era
um mestre, um cirurgio de escola, que sabia latim e tudo, mas
foi enforcado como um co, em Corso Castle, e l ficou a secar
ao sol, como os outros. Eram homens de Roberto, afinal, e o
caso deu-se por mudarem os nomes dos seus navios, como o Royal
Fortune, etc. Em meu entender, um navio deve ficar com o nome
com que foi baptizado. Foi assim que o Cassandra nos trouxe
saos e salvos de Malabar, depois de o England prender o
vice-rei das ndias; o mesmo se deu com o Walrus, o velho
barco de Filinto, que eu vi cheio de sangue e carregadinho de
ouro.
--Ah!--exclamou, cheia de admirao, outra voz, que era a do
marujo mais novo que ia a bordo. -o Filinto pertencia 
fina-flor da marinhagem.
--o Davis tambm era um homem valente, pelo que todos
dizem--disse Silver. --Nunca viajei com ele; primeiro andei
com o England e depois com Filinto, e  toda a minha histria.
E agora, aqui para ns, deixa-me dizer: com o England, ajuntei
novecentas libras e, com o Filinto, duas mil. Para um simples
marujo j no  nada mau; tudo limpinho, no banco. No  s
arranj-lo,  poup-lo, tambm, fica tu sabendo. onde param
hoje os homens do England? No sei. onde esto os de Filinto?
A maior parte deles est aqui a bordo, muito contentes por at
terem doce, quando antes muitos pediam esmola. o velho Pew,

que perdeu a vista e devia ter tido juzo, gastava duzentas
libras por ano, como um lorde do Parlamento. onde est ele
hoje? Est morto, debaixo dos torres; e--pelas minhas
tbias!--h dois

X
anos que ele andava na misria. Pedia, roubava, cortava
pescoos e assim mesmo andava na ltima, com todos os diabos!
--Afinal de contas, de nada Lhe serviu -- disse o marinheiro
jovem.
--Para os parvos no h nada que sirva, podes ter a certeza
dessa, absolutamente nada!--gritou Silver.-Agora, ouve c; s
novo,  certo, mas s esperto que nem o mais pintado. Vi-o
assim que te pus os olhos em cima e vou falar-te como a um
homem.
Pode imaginar-se o que senti quando ouvi aquele abominvel
mariola dirigindo a outro as mesmas palavras de elogio que
costumava dizer-me a mim. Parece-me que, se fosse capaz,
tinha-o matado atravs da barrica. Entretanto, ele prosseguia,
sem sonhar, sequer, que estava a ser ouvido.
--Em geral o que se d com os cavaleiros da fortuna  isto:
levam uma vida dura e arriscam-se a ser enforcados, mas comem
e bebem como galos de combate, e quando acabam um cruzeiro so
centenas de libras, em vez de uns reais, que tm nos bolsos. A
maioria mete-se na aguardente e pe-se  boa vida... e volta
para o mar s com a camisa. ora  isto que eu no fao. Ponho
tudo o que posso de parte, um pouco aqui, outro ali, sem por
nunca em demasia, para no levantar suspeitas. Repara tu que
tenho cinquenta anos; quando voltar desta viagem, vou ser um
verdadeiro homem de bem. J  tempo disso, dirs tu. Sim, mas
eu tenho vivido sempre bem; nunca deixei de satisfazer os meus
desejos, tenho dormido sempre em boa cama e tenho comido
regaladamente, menos quando andava no mar. E como  que eu
comecei? No convs, como tu!
--Est bem--disse o outro--, mas todo esse dinheiro, agora,
foi-se, no ? Depois disto voc no pode aparecer em Brstol.
--Ento onde  que julgas que o tenho?--interro ou Silver, com
um risinho divertido.

--Em Brstol, nos bancos--respondeu-lhe o companheiro.
--Estava, estava!--articulou o cozinheiro--Estava l quando
levantmos ferro. Mas a esta hora j a minha velha patroa o
tem todo com ela. Trespassou-se o Telescpio com arrendamento,
clientela e tudo o que l havia; e a velhota ps-se ao fresco,
para ir ter comigo. Se no fizesse cimes aos camaradas,
dizia-te onde, porque tenho confiana em ti.
--E tem confiana na sua patroa?
--os cavaleiros da fortuna, em geral, confiam pouco uns nos
outros, e tm toda a razo para isso, podes crer. Mas sabes
que eu tenho c o meu processo. Quando um camarada d uma
escorregadela, e creio que h quem me conhea, no costuma
ficar no mesmo mundo com o velho Joo. Havia quem tivesse medo
do Pew e quem tivesse medo do Filinto; mas o prprio Filinto
tinha medo de mim. Tinha medo, e era destemido. A tripulao
do Filinto era das mais endurecidas que andavam ao de cima das
ondas; o prprio Diabo teria medo de ir para o mar com esses
homens. ora muito bem, sabes que no sou fanfarro e tu
prprio j viste que fao boa camaradagem; pois quando eu era

quartel-mestre, digo-te que no podia chamar-se cordeiros aos
velhos piratas do Filinto. Portanto, no barco do velho Joo
podes estar descansado.
--Pois eu digo-lhe--replicou o rapaz--que antes de falar
consigo, Joo, este negcio no me cheirava grande coisa, mas
agora estou de alma e corao com isto .
--Tu s um rico moo, e s esperto--volveu-lhe Silver,
apertando-lhe a mo com tanto entusiasmo que a barrica
estremeceu toda.--s a proa mas fina de cavaleiro da fortuna
que tenho visto.
Foi naquela ocasio que eu comecei a compreender o significado
dos termos que eles usavam. Cavaleiro da fortuna queria dizer
unicamente um pirata vulgar, nem mais, nem menos, e a cena que eu acabava de surpreender
era o ltimo acto para a corrupo de um dos tripulantes
honestos, o ltimo, talvez, dos que havia a bordo. Em breve,
porm, fiquei sem dvidas a tal respeito, porque a um pequeno
assobio de Silver uma terceira personagem surgiu e sentou-se,
tomando parte na conversa.
--Aqui o Dick  dos nossos--disse Silver.
--Isso j eu sabia que Dick era dos nossos--replicou a voz do
timoneiro Israel Hands. --o Dick no  tolo.
Mascava tabaco. Deu-lhe uma volta na boca e cuspiu.
--Mas houve c--prosseguiu ele--preciso de saber uma coisa,
Barbecue; ainda temos de continuar por muito tempo como se
isto fosse um pacfico barco vivandeiro? J vou estando farto
do capito Smollett; est a fazer-me sombra de mais, com mil
troves! Quero ir para o camarote dele; quero as suas
conservas, os seus vinhos e o resto!
--Israel--pronunciou Silver--, a tua cabea nunca deu grande
coisa,  verdade, mas acho que s capaz de ouvir, porque tens
as orelhas bem grandes. Por agora, digo-te que continuas a
dormir a vante, a levar vida regrada, a falar mansinho, e a
deixares-te de vinhos, at eu dar o sinal; e ficas-te com
isto, meu filho.
--E eu digo menos disso?--rosnou o timoneiro.-o que pergunto
: at quando? Foi s isso que eu disse.
--At quando? Com um raio! --berrou Silver. -Pois se queres
sab-lo, digo-te j at quando. At o momento em que no
precise mais deles. o capito Smollett  um marinheiro de
primeira, que dirige o rico barco em que vamos. H esse
fidalgo e o doutor com um mapa, ou l o que , que no sei
onde pra e tu tambm no, pois no? ora muito bem, a minha
ideia  que o fidalgo e o mdico encontrem a coisa e nos
ajudem a p-la a bordo, com todos os diabos! Depois, veremos.
Se eu tivesse confiana em vocs todos, filhos

92
atravessados de holandeses, deixava o capito Smollett
conduzir-nos de regresso at meio caminho sem Lhe tocar.
--Mas acho que aqui a bordo todos somos marinheiros--disse o
moo Dick.
--Isso pensas tu, que aqui todos somos homens do
mar!--explicou Silver.--Sim, ns podemos seguir a rota, mas
quem  que a marca? S isso  que vocs sabem alardear, desde
o primeiro ao ltimo. Se eu pudesse fazer o que penso, no
regresso o capito Smollett levava-nos s at passarem as
maiores dificuldades, pelo menos. Assim com certeza que no

tnhamos clculos errados, nem asneiras. Mas eu sei como vocs
so. Logo que o presente esteja a bordo dou cabo deles na ilha
e  uma pena. Mas vocs no se sentem bem enquanto no esto a
cair de bbedos. At me faz nojo, e revoltam-se-me as tripas
por ter de navegar com gente assim !
--Tens tudo ao teu dispor, Joo Grande--exclamou Israel.--Quem
te contraria?
--Imaginas quantos barcos de alto bordo j tenho visto 
deriva? E a rapaziada valente que tenho visto a secar ao sol
na Doca das Execues?-- ritol  Silver. --E tudo isso sempre
por causa das pressas. Ests a ouvir-me? Parece-me que tenho
visto algumas coisas no mar! Se seguires o bom rumo e te
chegares a barlavento, irs de carrinho. Mas isso no  para
ti ! Conheo-te bem. Queres uma golada de rum amanha e,
depois, forca.
--Todos sabiam j que eras uma espcie de sbio, Joo; mas h
outros que podiam dirigir e governar to bem como tu--disse
Israel.--Gostavam de divertir-se o seu bocado, l isso
gostavam. No eram assim orgulhosos e secos, no, mas
regalavam-se e eram todos uns ricos companheiros da pardia.
--Eram?--fez Silver. --Ento v l onde  que eles chegaram. o
Pew era dessa raa, morreu a pedir

94

esmola. o Filinto tambm era, foi-se, queimado em rum, em
Savannah. Eram uns ricos companheiros, l isso eram, mas o que
 feito deles?
--E quando deitarmos a mo aos outros--interrompeu Dick.--,
que fazemos deles?
--Este  c dos meus!--exclamou o cozinheiro, em tom
admirativo. --A isto  que eu chamo ter caco. Muito bem, qual
 a tua opinio? Largamo-los a numa terra deserta? Era o que
o England fazia. ou cortamo-los aos bocados, como se fossem
porcos,  moda do Filinto ou do Billy Bones?
--Billy era homem para isso--articulou Israel. -"S os mortos
no mordem", dizia ele. Tambm j morreu; j sabe, agora, o
que  e o que no  a esse respeito; se algum dia houve um
marujo temvel, era Billy.
--Dizes muito bem -- pronunciou Silver. -- Era temvel e
prestava-se para isso. Mas, repara, eu sou condescendente, sou
o que se chama um perfeito cavalheiro, dirs tu. Mas agora a
srio: o dever acima de tudo, rapazes! Apresento o meu voto:
morte! Quando eu tiver as rdeas na mo, j no preciso de
nenhum desses marinheiros de gua doce que mandam agora, e que
aparecem quando menos se espera, como o Diabo nas rezas. Por
ora, suportam-se, mas quando chegar a altura prpria,  dar
cabo deles.
--s um homem, Joo!--gritou o timoneiro.
--Hs-de ver, Israel, e depois me dirs--replicou Silver.--S
quero uma coisa,  que deixem o Trelawney por minha conta.
Deito-lhe as mos ao gasganete e separo-lhe aquela cabea de
bezerro do corpo. Dick!-acrescentou, interrompendo-se--, como
s bom rapaz, levanta-te e d-me a uma maa para refrescar as
goelas.
Imagine-se o meu terror! A minha vontade era dar um salto para
fora da barrica e fugir, mas faltaram-me as foras e a
confiana nas pernas e no corao. Senti Dick levantar-se e

pareceu-me que algum o detinha; em seguida a voz de Hands
exclamou:

95
--ora deixa l estar as maas quietas! No bebas gua chilra,
Joo. Vamos mas  beber uma golada de rum.
--Dick--proferiu Silver--tenho confiana em ti. Ainda devo ter
uma poro dele no barril. Aqui tens a chave; enche um pichel
e tr-lo.
Apesar de eu estar to aterrado, no pude deixar de pensar que
devia ter sido daquele modo que Arrow alcanava a bebida que
deu cabo dele.
Dick no se demorou muito e, enquanto esteve ausente, Israel
falou ao ouvido do cozinheiro. No pude apanhar mais do que
uma ou duas palavras, mas assim mesmo de grande importncia;
alm de outros fragmentos que tinham o mesmo sentido, o que eu
ouvi, no conjunto, era: "No h mais nenhum do nosso lado."
Por conseguinte ainda havia homens fiis a bordo.
Quando o Dick voltou, todos pegaram no pichel e todos beberam
dele, cada qual por sua vez, dizendo um: "A nossa sade!"
outro: "Pelo velho Filinto!" E Silver, numa espcie de
cantoria: "Por todos ns e pela nossa empresa, cheia de bons
resultados e de riqueza!"
Naquele mesmo instante, um claro forte inundou-me dentro da
barrica; olhei para cima e vi a Lua, l no alto, que prateava
o topo do mastro de mezena e enchia de um brilho leitoso a
bolina do traquete. Quase ao mesmo tempo a voz do gajeiro
anunciou:
--Terra  vista!

Um grande movimento de passos ia pelo convs; ouvia o rudo
precipitado de gente que se arremessava para fora do camarote
da popa e que corria de vante. Num instante, saltei da minha
barrica, meti-me por trs da vela do traquete, dei uma volta
na direco da r e acabei por aparecer em pleno convs, a
tempo de me juntar com Hunter e o Dr. Livesey, na confuso que
ia na proa, a barlavento.
Todo o pessoal de bordo se tinha juntado ali. Com a Lua,
aparecera, quase ao mesmo tempo, um vu de nevoeiro. Ao longe,
para sudoeste, avistavam-se duas colinas, separadas uma da
outra cerca de duas milhas e por trs de uma delas elevava-se
uma terceira, mais alta, cujo cume estava ainda submerso no
nevoeiro. A configurao das trs era pontiaguda e cnica.
Via tudo como se estivesse a sonhar, porque no me refizera
ainda do medo horrvel por que passara apenas um ou dois
minutos antes. ouvi a voz do capito Smollett dando ordens. A
Hispaniola chegou-se mais para o vento, passando a navegar
para leste da ilha.
--E agora, rapazes -- proferiu o capito quando a manobra
terminou--, algum de vocs j viu a terra que temos  nossa
frente?
--Vi eu, capito--- disse Silver. --At meti gua l, num
navio mercante, em que ia como cozinheiro.
--Creio que o ancoradouro fica ao sul, por trs de uma ilhota,
no ?--inquiriu o capito.
--, sim, senhor. Chamam-lhe a ilha do Esqueleto. Parece que
foi em tempos um reduto importante de piratas. Um dos homens
desse navio sabia os nomes todos da ilha. A essa colina ao

norte chamavam o Mastro do Traquete; h trs colinas em linha,
na direco do sul:

97
Traquete, Mastro Grande e Mastro de Mezena. Mas  principal,
essa grande, coberta de nuvens, chamavam, geralmente,
Telescpio, porque tinham ali uma vigia quando estavam
fundeados e dali podiam vigiar os seus barcos perfeitamente,
meu capito.
--Eu tenho aqui uma carta--disse o capito Smolleet.--Veja se
 este o local.
os olhos de Joo Grande fulguraram como brasas quando pegou na
carta; mas, assim que olhei para o papel, percebi que ia ficar
desapontado. No era aquele o mapa que ns encontrramos na
mala de Billy Bones, mas uma cpia exacta, completa em
tudo--nomes, alturas e sondagens--, exceptuando apenas as
cruzes a vermelho e as notas manuscritas. Por maior que
tivesse sido a sua decepo, Silver teve a serenidade bastante
para dissimul-la.
--Sim, senhor--pronunciou ele --,  aqui neste ponto, de
certeza. E que bem desenhado que isso est! o que me intriga 
quem o teria feito! os piratas acho que eram ignorantes de
mais para isso. olha! Aqui est o ancoradouro do capito Kidd,
como Lhe chamava o tal meu camarada. H aqui uma corrente
forte, que vem do sul e segue para norte pela costa ocidental.
o senhor fez muito bem--continuou ele--em mandar orar e
manter-se a barlavento da ilha. Pelo menos se faz teno de
entrar e querenar, nestas guas no h a melhor lugar para
isso.
--obrigado--respondeu o capito Smollett.--Se for preciso, eu
depois chamo-o. Pode ir-se embora.
Eu estava pasmado da audcia com que Joo Grande revelava o
seu conhecimento da ilha, e fiquei simplesmente aterrorizado
quando o vi encaminhar-se para mim. Tinha a certeza de que ele
no sabia que eu surpreendera o seu concilibulo na barrica
das maas, mas a sua crueldade e duplicidade e o poder que
tinha inspiravam-me tal horror que mal pude disfarar um
estremecimento de pavor quando ele me ps a mo num brao.

44
--Ah!--proferiu--, isto aqui  um stio esplndido, esta ilha:
um lugar ptimo para um rapaz ir a terra. Podes tomar banho,
trepar s rvores, caar cabras, e at andar l no cimo das
colinas, como se fosses tambm uma cabra. olha, isto at me
faz sentir outra vez rapaz. Acho que vou esquecer-me de que
tenho uma perna de pau, l isso vou. Que bom  ser-se novo`e
ter-se os dez dedos dos ps! Quando fores a terra dar uma
volta, no te esqueas de o dizer ao velho Joo, que ele
arranja-te um farnel para levares.
E, batendo-me amigavelmente no ombro, afastou-se a coxear e
foi l para baixo.
o capito Smollett, o fidalgo e o Dr. Livesey estavam reunidos
 r, na coberta, a conversar e, eu, por mais ansioso que
estivesse de contar-lhes a minha histria, no me atrevia a
interromp-los declaradamente. Enquanto quebrava a cabea 
procura de uma desculpa qualquer, o Dr. Livesey chamou-me para
junto dele. Deixara o cachimbo l em baixo e, como era escravo
do tabaco, queria que eu Lho fosse buscar. Porm, assim que me

aproximei o bastante para Lhe falar sem ser ouvido desfechei
imediatamente:
--Senhor doutor, preciso de falar-lhe. Leve o capito e o
fidalgo l para baixo para a cabina e depois arranje uma
desculpa qualquer. Sei coisas terrveis.
o semblante do mdico alterou-se ligeiramente, mas dominou-se
logo em seguida.
--obrigado, Jim--disse, bem alto--, era s isso que eu queria
saber--acrescentou, como se acabasse de fazer-me uma pergunta.
Dito isto, deu meia volta e foi juntar-se aos outros dois.
Conversaram todos um momento e apesar de nenhum se ter
sobressaltado ou elevado a voz ou cochichado, sequer, era
evidente que o Dr. Livesey comunicara o meu pedido, porque
logo a seguir ouvi o capito a dar ordem a Job Anderson para
chamar os homens ao convs

--Meus rapazes--comeou o capito--, vou dizer-lhes uma coisa.
A terra que temos  vista  aquela que demandvamos. o senhor
Trelawney, que  um homem generoso, como todos sabemos, acaba
de me fazer umas perguntas a vosso respeito e eu tive a
satisfao de Lhe responder que aqui a bordo todos tm
cumprido o seu dever, tanto o pessoal de baixo como o de cima,
sem ser preciso estimul-los a fazer melhor. Por isso, ele, e
eu e o doutor vamos l abaixo  cabina beber  sade e  boa
sorte de vocs todos e vocs vo ter grogue para beberem 
nossa sade e  nossa boa sorte. Digo-lhes que acho isto uma
ideia excelente. E se vocs pensam como eu, vou dar um viva, 
boa maneira dos homens do mar, pelo cavalheiro que teve esta
ideia.
Um clamor de vivas ecoou de todos os lados, to caloroso e
cordial que eu mal podia crer que aqueles mesmos homens
maquinassem contra a nossa existncia.
--Viva tambm o capito Smollett!--bradou Joo Grande, quando
se extinguiu o primeiro coro de aclamaes .
Todos corresponderam com entusiasmo. E no auge deste viva, os
trs homens retiraram-se para baixo e pouco depois mandavam
dizer que Jim Hawkins era preciso na cabina.
Fui encontrar os trs sentados em torno da mesa, com uma
garrafa de vinho de Espanha e passas de uva na sua frente. o
mdico fumava continuamente, com a cabeleira pousada nas
pernas, o que nele era um sinal de agitao, como eu sabia
bem. A janela da popa ia aberta. Estava uma noite quente e a
Lua refulgia na esteira do navio.
--Vamos l a ver, Hawkins--disse o fidalgo-o que  que tens
para dizer-nos. Fala.
Fiz o que me ordenavam e, abreviando tanto quanto pude, narrei
todos os pormenores da conversa de Silver. Ningum me
interrompeu, nem nenhum dos trs fez um movimento, mas os seus
olhos conservaram-se fitos no meu rosto desde o princpio ao
fim.

--Jim, senta-te--disse-me o Dr. Livesey.
E fizeram-me sentar  mesa, ao lado deles, deram-me um copo de
vinho, encheram-me as mos de passas de uva e todos os trs,
cada um por sua vez, me cumprimentaram e beberam  minha sade
e pela minha boa sorte, elogiando a minha coragem.
--Agora, capito--pronunciou o fidalgo--, vejo que o senhor
tinha razo e que eu estava enganado. Confesso que sou um asno

e aguardo as suas ordens.
--o senhor no  mais asno do que eu--replicou o
capito.--Nunca vi tripulao nenhuma, pensando em
amotinar-se, que no deixe transparecer qualquer sinal a um
homem que saiba ver. Este apanha-o e previne-se. Mas desta vez
enganei-me bem.
--Capito--interveio o mdico--, d-me licena,  obra de
Silver.  um homem invulgar.
--Pois . Mas onde me parece que ele ficaria invulgarmente
bem, era pendurado no alto de uma verga-volveu o capito.
--Mas isto  s falar, no resolve coisa nenhuma. A meu ver h
trs ou quatro pontos, que vou mencionar, se o senhor
Trelawney me permite.
--o senhor  o capito.  a si que pertence falar-respondeu o
Sr. Trelawney solemente.
Smollett comeou:
--Primeiro: temos de andar para a frente, porque no podemos
voltar para trs; se eu desse ordem para isso, revoltavam-se
imediatamente. Segundo: temos tempo diante de ns, pelo menos
at encontrarmos o tesouro. Terceiro: h tripulantes fiis.
ora ns temos de chegar a vias de facto mais tarde ou mais
cedo; portanto, acho que devemos agarrar a ocasio pelos
cabelos, como  costume dizer-se, e sair  estacada quando
eles menos o esperarem. Creio que podemos contar com os seus
criados, no  verdade, senhor Trelawney ?
--Como comigo mesmo--declarou o fidalgo.
o capito fez o clculo:--Trs juntamente connosco, so sete, contando aqui com
Hawkins. E agora quantos sero os homens fiis?
--Provavelmente s os que o senhor Trelawney arranjou antes de
ter contratado Silver--disse o mdico.
--Nem isso--replicou o fidalgo.--Hands era um dos meus.
--E eu julgava que podamos ter confiana em
Hands--acrescentou o capito.
--E pensar que esses homens so todos ingleses!-bradou o
fidalgo. -- A minha vontade era estoirar o navio!
--Bem, meus senhores--prosseguiu o capito--, o que eu posso
dizer  bem pouco. Temos de deixar estar as coisas como esto
e manter-nos alerta.  um bocado difcil, concordo. Era mais
agradvel sair-se j a terreiro. Mas no h outro remdio at
sabermos com quem podemos contar. Aguardar e aproveitar o
vento  o que acho melhor.
--Aqui o Jim pode ajudar-nos melhor do que ningum--opinou o
doutor. --os homens no desconfiam dele e o Jim  um rapaz
expedito.
--E eu, Hawkins--acrescentou o fidalgo--, tenho em ti a maior
confiana.
Comeava a sentir bem a responsabilidade de tal situao,
porque me considerava inteiramente fraco; assim mesmo, porm,
por um estranho conjunto de circunstncias, foi por meu
intermdio que nos salvmos. Entretanto, a falar a verdade, de
vinte e seis homens s havia sete em que podamos confiar, e
desses sete um era ainda garoto. Portanto, do nosso lado havia
apenas seis homens contra os dezanove que eles tinham.

Terceira Parte

A MINHA AVENTURA EM TERRA

Captulo treze

CoMo PRINCIPIEI A MINHA AVENTURA
EM TERRA

Na manha seguinte, quando cheguei ao convs, o aspecto da ilha
mudara por completo. Apesar de a brisa ter faltado
inteiramente, avanramos muito durante a noite e agora
estvamos suportando a calmaria a cerca de meia milha a
sudeste da costa oriental. Uma grande parte das terras era
coberta pela cor escura das florestas, mas nas partes baixas
essa monotonia era quebrada por largas tarjas amarelas de
areia e por inmeras rvores altas da famlia dos pinheiros,
que se elevavam muito acima das outras--umas solitrias,
outras em grupos. A cor geral, porm, era uniforme e triste.
As colinas sobrepunham-se  vegetao em pirmides de rocha
escalvada. Tudo ali tinha uma forma estranha e o Telescpio, o
ponto mais alto da ilha, com trezentos ou quatrocentos ps
mais do que as outras montanhas, era, igualmente, da mais
estranha configurao, subindo a pique quase de todos os
lados, para aparecer subitamente cortado no topo, como um
pedestal para assentar uma esttua .
os embornais da  ispaniola despejavam-se no mar opulento. As
escotas puxavam pelos moites, o leme movia-se de um lado para
o outro e o navio todo rangia, sussurrava e agitava-se. Eu
agarrava-me com fora a um dos estais e o mundo rodava
vertiginosamente na frente dos meus olhos; porque embora eu
fosse um bom marinheiro quando navegvamos, aquela quietude
parada, vendo-me a baloiar como uma garrafa, foi coisa que
nunca pude suportar sem me sentir desfalecer, sobretudo de
manha, com o estmago vazio.
Fosse por isso, fosse pelo aspecto da ilha, com os seus
bosques escuros e melanclicos e as suas agrestes

l
pirmides de pedra, vendo e ouvindo a ressaca a espumar e a
rugir na encosta alcantilada, apesar do brilho intenso e
quente do Sol e de as aves andarem a pescar, gritando  nossa
volta, a despeito de pensar que devia sentir-me alegre, como
qualquer pessoa que chega a terra depois de uma longa
travessia--o meu corao, para assim dizer, cara-me aos ps.
E desde essa primeira viso da ilha do Tesouro, passei a
abomin-la.
Tnhamos pela frente uma dura manha de trabalho, porque no
havia sinais de vento e tnhamos de lanar as lanchas  gua,
devidamente tripuladas, e rebocar o navio a trs ou quatro
milhas do extremo da ilha, contorn-la e subir o estreito que
conduzia  enseada, por trs da ilha do Esqueleto. ofereci-me
para ir num dos botes, onde, afinal, nada tinha que fazer. o
calor era sufocante e os homens praguejavam furiosamente no
trabalho. Anderson, que comandava a embarcao onde eu ia, em
vez de manter a tripulao em ordem, era o pior e vociferava
alto e bom som.
--o que vale  que isto no  para sempre!--resmungava, ele
com uma imprecao.
Para mim, isto era muito mau sinal, porque at quele dia os
homens tinham desempenhado as suas obrigaes com satisfao e
boa vontade; a simples vista da ilha fizera afrouxar os cabos

da disciplina.
Durante toda a rota, Joo Grande permaneceu junto do timoneiro
e dirigiu o navio. Conhecia o caminho como os seus dedos e
embora o homem que ia  sonda encontrasse em toda a parte mais
gua do que a que estava indicada na carta, Joo no hesitou
uma nica vez.
--No mar baixa h aqui uma corrente forte--disse ele--, de
maneira que esta passagem parece que foi aberta  enxada.
Chegmos justamente ao local onde havia uma ancora na carta, a
cerca de um tero de milha de uma e outra mar em, com terra
firme a um lado e a ilha do Esqueleto a outro. o fundo era de
areia branquinha. Ao mergulhar, a nossa ncora fez levantar
nuvens de aves, que evolucionaram, aos gritos, sobre os
arvoredos. Em menos de um minuto, porm, tornaram a baixar e
tudo ficou silencioso outra vez.
o local estava inteiramente rodeado de terra, metido entre
bosques, porque as rvores chegavam at  beira das mars
altas, as margens eram extremamente baixas e planas e em redor
os cimos das colinas erguiam-se distantes, aqui e ali, numa
espcie de anfiteatro. Dois riachos, ou antes, dois brejos,
vinham desaguar a este stio, a que podia chamar-se um tanque;
e a folhagem que circundava esta parte da costa tinha uma
espcie de brilho envenenador. Do navio no se viam sinais de
qualquer casa ou paliada, por se encontrarem submersas entre
as rvores; e se no fosse a carta que trazamos connosco,
poderamos julgar que ramos os primeiros que ali ancoravam
desde que a ilha emergira dos oceanos.
No havia um sopro de aragem, nem um rudo, alm do mugido da
ressaca de encontro aos rochedos, a meia milha de distncia,
ao longo das margens. Pairava ali o cheiro peculiar das coisas
estagnadas ---de folhas ressequidas e troncos de rvore
apodrecidos. E notei que o doutor fungava e torcia o nariz,
como quem mastiga um ovo estragado.
--A respeito do tesouro no digo nada--afirmou ele--, mas
aposto a minha cabeleira em como aqui h febres.
Se a conduta dos homens das lanchas fora alarmante, quando
voltaram para bordo tornou-se verdadeiramente ameaadora.
Andavam pelo convs rosnando em conversas uns com os outros. A
mais ligeira ordem era recebida com olhar taciturno e
obedecida com negligncia e m vontade. os prprios
tripulantes fiis foram contagiados, porque no havia um homem
a bordo que admoestasse outro. Era evidente que a revolta
pairava sobre ns como uma nuvem de tempestade.

e no ramos ns somente, os do grupo da cabina, que nos
apercebamos do perigo. Joo Grande trabalhava arduamente, de
grupo em grupo, estafando-se a dar bons conselhos, e nenhum
homem demonstraria melhor exemplo. Excedia-se completamente em
boa vontade e cortesia e todo ele era sorrisos para ns. Logo
que se dava uma ordem, num instante l estava o Joo na sua
muleta, com o mais acolhedor < muito bem! muito bem!" do
mundo; e quando no tinha nada que fazer, cantava cantigas
sobre cantigas, como a querer disfarar o descontentamento dos
restantes.
E de todos os acontecimentos sombrios daquela sombria tarde a
ansiedade evidente de Joo Grande era ainda pior.
Tivemos uma reunio de conselho na cabina.
--Senhor Trelawney--pronunciou o capito--, se eu me arriscar

a dar outra ordem, o navio todo cai-nos em cima. J viu como
isto est? obtenho sempre respostas desabridas. ora bem, se me
der por achado, os ces vo atirar-se de todos os lados; se
no der, o Silver perceber que h seja o que for, e a coisa
rebenta. E por agora temos somente um homem com quem podemos
contar .
--Quem ?--perguntou o capelo.
-- Silver--volveu o capito. --Est to ansioso como o senhor
e como eu por manter isto seguro.  uma luta surda, mas ele
mete-os todos na ordem assim que tiver ocasio para isso. Acho
que devemos proporcionar-lhe essa ocasio e deixar ir os
homens a terra uma tarde. Se forem todos, poderemos defender o
navio. Se no for nenhum, ento fechamo-nos na cabina e que
Deus nos defenda. Se forem alguns, pode crer que Silver h-de
traze-los para bordo mansos como cordeiros.
Assim se resolveu. Deram-se pistolas carregadas a todos os
homens de confiana; Hunter, Joyce e Redruth foram postos a
par do nosso segredo e receberam a notcia com menos surpresa
e com muito melhor nimo do
que espervamos. Depois, o capito subiu ao convs e falou 
tripulao.
--Meu rapazes--disse--, tivemos um dia de grande trabalho e
estamos extenuados. Um giro em terra no faz mal a ningum; as
lanchas esto ainda na gua e todos os que quiserem podem
meter-se nelas e ir de tarde a terra. Meia hora antes do pr
do Sol, mando disparar um tiro de pea.
Julgo que aqueles imbecis pensavam que mal chegassem a terra
iriam logo dar com o nariz no tesouro, porque no mesmo
instante deixaram de estar de m catadura e soltaram tais
exclamaes que despertaram o eco das colinas distantes e
fizeram as aves levantar voo uma vez mais, dando gritos agudos
em volta do ancoradouro.
o capito era perspicaz de mais para se deixar ficar onde
estava. Rapidamente desapareceu da vista deles, deixando
Silver organizar a excurso, no que fez muito bem. Se tem
ficado no convs, no poderia aparentar muito mais tempo como
pretendia, que ignorava a situao. Silver  que era o
comandante e tinha s suas ordens uma tripulao rebelde e
poderosa. os marinheiros leais--e em breve eu ia ter a prova
de que os havia-eram decerto os mais timoratos, pois a verdade
 que todos, mais ou menos, tinham de ser desafectos, seguindo
o exemplo dos cabecilhas; somente alguns deles, no fundo boas
pessoas, no podiam ser arrastados para muito longe. Uma coisa
 ser indolente e cobarde e outra apoderar-se de um navio e
matar homens inocentes.
Entretanto, a excurso organizou-se. Ficavam a bordo seis
homens e os treze restantes, incluindo Silver, comearam a
embarcar.
Foi ento que me veio  cabea a primeira das ideias
disparatadas que tanto contriburam para nos salvar a vida. Se
Silver deixara seis homens a bordo, era evidente que o nosso
grupo no podia assenhorear-se do navio e defend-lo; e desde
que eram apenas seis que ficavam, era igualmente evidente que
o grupo da cabina no carecia, presentemente, da minha assistncia. E pensei logo em ir a
terra. Num momento saltei a amurada, agarrei-me s escotas de
vante do barco mais prximo e quase no mesmo instante ele
largou.

Ningum deu por mim, a no ser o remador da proa, que disse:
--s tu, Jim? Baixa a cabea.
Mas de outro barco, Silver relanceou um olhar penetrante e deu
um brado, para saber se era eu. E a partir desse momento,
comecei a arrepender-me do que fizera.
As embarcaes corriam velozmente para a praia; o barco onde
eu ia, porm, tomara impulso e tornara-se imediatamente o mais
rpido e era o melhor manobrado, ganhando dianteira; quando
passou rente s rvores da margem, agarrei um tronco, dei um
salto e mergulhei na moita mais prxima, enquanto Silver e os
restantes ficavam uns cem metros para trs.
--Jim! Jim!--ouviu-o eu gritar.
 claro que no fiz caso; de cabea baixa, avanava, aos
saltos, correndo sempre a frente, at no poder mais .

Captulo catorze

o PRIMEIRo REcoNrRo

Eu estava to satisfeito por ter escapado do Joo Grande, que
comeava a sentir deleite e olhar com certo interesse a terra
estranha em que me encontrava.
Atravessara um paul repleto de salgueiros, juncos vergados e
rvores pantanosas singulares e desconhecidas e encontrava-me
na extremidade de uma vasta clareira de areia ondulante, tendo
aproximadamente uma milha de comprimento, onde havia alguns
pinheiros e numerosas rvores contorcidas, que no se
diferenavam dos carvalhos no tamanho, mas cuja folhagem era
clara, como a dos salgueiros. Do outro lado da clareira
elevava-se uma das colinas, com dois cumes escarpados e
extravagantes, que cintilavam vivamente ao sol.
Experimentava, pela primeira vez, o prazer dos exploradores. A
ilha era desabitada; os meus camaradas de bordo tinham ficado
para trs, e comigo, alm das aves e dos animais silenciosos,
no havia vivalma. Circulei de um lado para o outro por entre
as rvores. Aqui e ali, havia plantas em flor que eu
desconhecia; num ou noutro stio avistei serpentes e uma delas
ergueu a cabea de uns pedregulhos e atirou-me um silvo que se
assemelhava ao de um pio rodopiando. Por um momento pensei
que se tratava de um inimigo terrvel e que aquele rudo era o
da famosa cobra cascavel.
Depois cheguei a um grande bosque, formado por aquelas rvores
que lembravam carvalhos--que mais tarde soube chamarem-se
carvalhos de verde perene--e que desciam ao longo da areia
como saras, de ramos curiosamente entrelaados e folhagem
compacta. que formava tneis. o bosque estendia-se desde o
topo at ao sop de uma das dunas, propagando-se e tornando-se
mais alto  medida que avanava, at alcanar a margem
da costa, pntano cheio de canaviais, atravs do qual o riacho
mais prximo ia desaguar no ancoradouro. o pntano fumegava ao
sol ardente e o perfil do Telescpio tremulava por entre a
neblina.
De sbito, no meio dos juncos houve uma espcie de tumulto: um
pato bravo voou, soltando um grasnido, seguido por outros, e
em breve sobre toda a superfcie do paul planava uma grande
nuvem de aves num alarido de gritos e de crculos no ar.
Presumi, logo, que alguns dos meus companheiros de bordo
estivessem bordejando perto das margens do pntano. E no me

enganei, porque depressa ouvi o som grave e longnquo de uma
voz humana, o qual,  medida que eu apurava o ouvido,
aumentava seguramente, tornando-se mais forte e mais prximo .
Enchi-me de medo e atirei-me de bruos para debaixo do
carvalho mais prximo; ali acaapado, eu era todo ouvidos,
calado como um rato.
Uma outra voz respondeu. Ento, a primeira voz, que eu agora
reconhecia ser a de Silver, uma vez mais pegou na histria e
durante algum tempo ouviu-se como um murmrio, somente
interrompido de ora em quando pela outra voz. Pelo tom, deviam
estar falando acaloradamente, quase com ira; porm, aos meus
ouvidos no chegou uma nica palavra distinta.
Por fim, os interlocutores pareceram fazer uma pausa e talvez
se tivessem sentado; porque no s deixaram de fazer
restolhada ali perto, como as prprias aves comearam a
aquietar-se gradualmente, at voltarem para os seus lugares no
brejo.
Comecei, ento, a sentir que negligenciara as minhas
obrigaes; j que eu fora to temerrio que viera para terra
com aqueles doidos, o menos que podia fazer era escutar as
suas entrevistas; tinha o dever bvio e simples de me arrastar
para perto deles o mais que pudesse, sob a proteco favorvel
das plantas rasteiras.
Podia dizer a direco perfeitamente exacta em que estavam
falando, no s pelo som das vozes, como pelo comportamento do
bando das aves, que voavam alarmadas por cima dos intrusos.
Arrastando-me de gatas, avancei para eles decididamente, mas
com lentido; at que, metendo a cabea por uma abertura da
folhagem, pude ver bem, l em baixo, um pequeno fosso verde
junto ao brejo, onde, sentado rente s rvores, estava Joo
Silver com um outro tripulante, conversando frente a frente.
o sol dava-lhes em cheio. Silver pusera o chapu no cho, ao
seu lado, e a sua grande cara lisa e alourada toda luzidia por
causa do calor, erguia-se para o outro, numa espcie de apelo.
--Camarada -- dizia ele --,  porque te estimo como a ouro em
p, podes crer! Se eu no te estimasse tanto, pensas que
estava aqui a avisar-te? Tudo est feito e tu no podes tirar
nem pr;  para salvar-te a cabea que estou a falar-te, e se
algum desses selvagens o soubesse, o que seria de mim, Tom,
sim, o que seria de mim?
--Silver--pronunciou o outro, e eu reparei que ele tinha o
rosto vermelho e que falava com voz rouca, comparvel  de um
corvo, a vibrar como uma fibra--, j tens idade e s honesto,
ou, pelo menos, assim te julgam; tambm tens dinheiro, que a
maior parte dos pobres marinheiros no tem, e s valente, se
no estou enganado. E queres-me convencer de que vais
deixar-te levar por essa corja de bandalhos? No! E to certo
como  Deus estar a ver-me, antes queria perder uma das mos.
Se eu faltasse ao meu dever...
Um rudo sbito interrompeu-o abruptamente. Acabava de achar
ali um homem honesto, e quase ao mesmo tempo sabia da
existncia de outro. Ao longe, para l do pntano, elevara-se
bruscamente um uivo de clera
logo seguido de outro--e depois um grito horrvel e profundo.
os rochedos do Telescpio repetiram-no vrias vezes num eco; e
simultaneamente o bando inteiro
das aves aquticas tornou a levantar-se, escurecendo o cu,
num turbilho. Por fim um grande silnio campeou de novo e

apenas o sussurro das aves, que voltavam a descer, e das vagas
distantes encapeladas perturbavam a languidez da tarde. No meu
crebro, porm
repercutia-se ainda aquele grito de morte.
Ao ouvir o rudo, Tom dera um salto, como um cavalo acicatado,
mas Silver nem pestanejara. Deixou-se ficar onde estava, mal
encostado  muleta, contemplando o companheiro como cobra
prxima a lanar-se sobre a presa.
--Joo!--disse o marinheiro, estendendo a mo.
--Tira l as mos!--gritou Silver, dando um grande salto para
trs, com a agilidade e a segurana de um bom ginasta.
--Pois tiro as mos, se quiseres, Joo Silver--articulou o
outro. -- a tua conscincia enegrecida que te faz ter medo de
mim. Mas, em nome do cu, dize-me, o que  isto?
--Isto?--volveu Silver, a sorrir-se, mas mais precavido do que
nunca. No seu rosto largo os olhos no eram mais do que
cabeas de alfinetes, mas cintilavam como um estilhao de
vidro. --Isto? Deve ter sido o Alan.
A estas palavras o olhar do pobre Tom dardejou heroicamente .
--Alan!--exclamou ele.--Que a sua alma esteja em paz! Era um
verdadeiro marinheiro! E tu, Joo Silver, embora tenhas sido
meu camarada muito tempo, nunca mais tornars a se-lo. Se
tiver de morrer como um co, morro cumprindo o meu dever.
Mataste o Alan no  verdade? Pois mata-me a mim tambm se
puderes. Desafio-te !
Dizendo isto, o valente rapaz voltou as costas ao cozinheiro e
ps-se a andar, a caminho da praia. No deveria, porm, ir
muito longe. Dando um grito, Joo agarrou-se ao tronco de uma
rvore, sacou a muleta
debaixo do sovaco e arremessou pelo ar aquele estranho
projctil, que atingiu de ponta, o infeliz Tom, com espantosa
violncia, justamente entre os ombros, ao meio das costas. A
vtima agitou as mos no espao, abriu a boca, como se o ar
Lhe faltasse, e baqueou.
Se estava ou no muito maltratado, ningum, jamais, poderia
diz-lo. A julgar pelo estrondo, devia ter quebrado as costas
no cho. Agil como um smio, mesmo sem perna nem muleta,
Silver estava sobre ele no mesmo instante e por duas vezes
cravou a faca at ao punho naquele corpo indefeso. Do meu
esconderijo ouvi-o a resfolegar, enquanto desferia os golpes.
No sei bem o que  desmaiar, mas sei que, nos momentos que se
seguiram a isto, o mundo todo flutuou numa vertigem  minha
frente, girando em confuso: Silver e as aves, o topo elevado
do altaneiro Telescpio, passavam num rodopio, de cabea para
baixo, na frente dos meus olhos, com todas as espcies de
sinos e vozes distantes a martelarem-me os ouvidos.
Quando voltei a mim, o monstro tinha-se levantado. Na sua
frente, Tom jazia imvel na relva; o assassino, porm, com a
mais perfeita indiferena, limpava a faca tinta de sangue um
monte de erva. Coisa alguma ali se modificara; o sol
continuava a brilhar implacavelmente no pntano fumegante e no
pinculo da montanha e eu mal podia crer que acabara de
cometer-se ali um assassnio e que uma vida humana fora
ceifada barbaramente pouco antes, em frente dos meus olhos.
Joo levava agora a mo ao bolso e, sacando um apito, tirou
dele alguns sons modulados, que foram ondulando no ar quente.
Decerto que eu no podia dizer o que significava aquele sinal,
mas ele despertou instantaneamente os meus terrores. Iam

chegar mais homens; podiam descobrir-me. Da tripulao honesta
dois estavam j liquidados; depois de Tom e Alan, no seria eu
a seguir?
Comecei logo a desenlear-me dos ramos e tornando
a pr-me de bruos fui recuando, com a rapidez e o silnio
que me eram possveis, na direco da parte menos densa do
bosque. Assim que o consegui, chegaram-me aos ouvidos palavras
de regozijo trocadas entre o velho bandoleiro e os seus
companheiros, e esse sinal de perigo deu-me asas. E to pronto
me vi fora do arvoredo, corri como nunca correra at ento,
quase sem cuidar da direco em que ia, contanto que fosse
para bem longe dos assassinos. A medida que corria, o terror
aumentava em mim, at converter-se uma espcie de frenesim.
E, de facto, algum poderia estar em maior perigo do que eu?
Quando o tiro de pea soasse, como havia de atrever-me a
descer para as lanchas, juntamente com esses homens
diablicos, que cheiravam ainda a sangue? o primeiro que desse
comigo no me torceria o pescoo como a um tordo? A minha
ausncia no seria para eles um indcio do meu alarme e,
portanto, a prova fatal de que eu sabia o que se passava? Tudo
estava acabado, pensava eu. Adeus  ispaniola, adeus fidalgo
adeus doutor e capito! No havia outro recurso para mim seno
morrer  fome ou s mos dos sediciosos.
Durante este tempo, como j disse, continuava a correr e, sem
dar por isso, descera para o sop da pequena colina de dois
cumes e entrara numa parte da ilha onde os carvalhos perenes
cresciam mais afastados e se assemelhavam mais s rvores das
florestas no seu porte e nas suas dimenses. Por entre eles
havia alguns pinheiros dispersos, com uns cinquenta a setenta
ps de altura. o ar era tambm mais fresco do que l em baixo,
junto ao pntano.
E eis que um novo susto me paralisou aqui de terror, com o
corao a bater desordenadamente.
Captulo quinze

o HoMEM DA ILHA

Do flanco da colina, que aqui era alcantilada e pedregosa,
deslocara-se um monte de cascalho, que se despenhou
fragorosamente por entre as rvores. Instintivamente os meus
olhos viraram-se nessa direco e vi um vulto saltar com
grande rapidez de trs do tronco de um pinheiro. Se era um
urso, um homem ou um macaco, no podia diz-lo com segurana.
Pareceu-me negro e hirsuto e nada mais pude perceber.
Sentia-me paralisado pelo terror desta nova apario.
Desta vez parecia-me ter o caminho cortado por dois lados:
atrs de mim os assassinos,  minha frente aquele emboscado
inclassificvel. Compreendi logo que preferia os perigos j
conhecidos queles que desconhecia. o prprio Silver
parecia-me menos terrvel comparado quele ser dos bosques, e,
dando uma volta e olhando penetrantemente por cima do ombro
para trs de mim, comecei a retroceder na direco dos barcos.
o vulto reapareceu no mesmo instante e, descrevendo um largo
crculo, comeou a pr-se  minha frente. Eu estava
cansadssimo; mas ainda que estivesse fresco como ao
levantar-me da cama, vi que me era impossvel competir em
rapidez com tal adversrio. Deslizava de tronco para tronco
como um gamo, correndo com duas pernas, como um homem, mas de

uma maneira como nunca vira correr nenhum homem, quase
dobrado. E no levou muito tempo para eu ter a certeza de que
era um homem.
Comecei a recordar o que ouvira sobre canibais. Estive a ponto
de gritar por socorro. Mas o facto de ele no passar de um
mero homem, embora selvagem, tranquilizou-me um tanto e, em
proporo, o medo de Silver principiou a recrudescer. Todavia
mantinha-me quieto, idealizando um meio qualquer de escapar-me; e enquanto
reflectia, a lembrana da minha pistola atravessou-me a mente.
Assim que me ocorreu que no estava indefeso, a coragem
chamejou de novo no meu corao. Resoluto, virei-me para o
homem da ilha e avancei ousadamente .
Naquela altura, ocultou-se atrs de outro tronco de rvore;
mas ele devia estar a observar-me bem, porque assim que
comecei a mover-me na sua direco, tornou a aparecer e deu um
passo para mim. Hesitou, ento, voltou atrs, tornou a andar
para a frente e, por fim, perante a minha estupefaco, caiu
de joelhos e levantou as mos postas, numa splica.
Ao ver isto, estaquei.
--Quem  voc?--inquiri.
--Ben Gunn --respondeu ele, numa voz rouca e desajeitada, que
lembrava uma fechadura ferrugenta.-Sou o infeliz Ben Gunn; h
trs anos que no falo com uma alma crista.
Via agora que era branco como eu, e que as suas feies eram
mesmo agradveis. A pele, que andava descoberta, estava
queimada do sol; os prprios lbios estavam enegrecidos e os
olhos claros sobressaam estranhamente naquele rosto to
escuro. Pelos andrajos que trazia era o maior de todos os
pedintes que tenho visto ou imaginado. Estava coberto de
bocados de velha lona de velas e de farrapos de roupa de
marujos; e esta extraordinria manta de retalhos conservava-se
presa por um sistema de ligaes das mais variadas e
desconchavadas; botes de lato, pedaos de madeira e
presilhas de tiras de couro alcatroadas. Na cintura trazia um
velho cinto de cabedal com fivela de cobre, nica pea inteira
do seu vesturio.
--Trs anos!--exclamei eu.--Teve algum naufrgio?
--No, camarada--respondeu-me--, fui abandonado.
Eu sabia o que aquilo queria dizer. J tinha ouvido contar que
havia um castigo horrvel, muito comum entre os piratas, que
consiste em desembarcar o ru, com um pouco de plvora e de
chumbo, numa ilha deserta e distante .
--H trs anos que fui abandonado--continuou ele.-Tenho-me
sustentado de carne de cabra, de frutos e de ostras. Digo-lhe
que um homem pode sempre fazer pela vida, esteja onde estiver.
Mas estou ansioso por comer como toda a gente, meu amigo. Por
acaso no tem a um bocado de queijo, no? Deixe l; tenho
sonhado muitas noites com queijo, quase sempre curado. Depois,
quando acordo,  que vejo onde estou.
--Se eu puder voltar para bordo--prometi--, trago-lhe queijo 
farta.
Em todo este tempo, estivera apalpando o tecido do meu casaco,
enquanto me afagava as mos e contemplava as minhas botas; e,
nos intervalos da conversa, demonstrava um prazer infantil com
a presena de um seu semelhante. Mas, ao ouvir as minhas
ltimas palavras, levantou a cabea vivamente, num misto de
sobressalto e de argcia.

--Se puder voltar para bordo, disse?--perguntou.-E quem Lho
impede?
--Voc no, acho eu--foi a minha resposta.
--E com toda a razo--exclamou ele. --Agora, camarada,
diga-me, como se chama?
--Jim--repliquei.
--Jim, Jim--articulou, parecendo ter ficado satisfeito.--olhe,
Jim, tenho levado uma vida to rude, to grosseira, que se Lhe
contasse voc at tinha vergonha. Imagina, por exemplo, que
tive uma me piedosa e crente?
--Acho que no  nada de extraordinrio--repliquei .
--Pois no. Mas  que a minha me era extremamente religiosa.
E eu era um rapaz crente e educado, e recitava o catecismo to depressa que as palavras ligavam-se umas
s outras. E veja ao que cheguei, Jim. Comecei por jogar ao
belindre nas lajes das campas. Foi por a que principiei, mas
depois fui mais longe; e tanto a minha me me avisou e tudo me
predisse, aquela santa! No entanto, foi a Divina Providncia
que aqui me ps. Tenho pensado muito nisto, aqui, na solido
desta ilha, e voltei a ser religioso. Garanto-lhe que nunca
h-de apanhar-me a beber uma pinga de rum, nem que seja s um
dedal dele, mesmo que por acaso o tenha  mo. Sei que estou a
caminho da regenerao. E depois Jim--acrescentou, olhando em
volta e baixando tanto a voz que ficou num murmrio--, eu sou
rico.
Nessa ocasio tive a certeza de que o desgraado endoidecera
naquela solido e a minha fisionomia deve t-lo demonstrado,
porque ele voltou a repetir com veemncia .
--Sou rico! Rico! E afiano-lhe que hei-de fazer de si um
homem, Jim! Jim, abenoe a sua estrela por ter sido a primeira
pessoa que me encontrou!
Aps estas palavras, o seu rosto tornou-se bruscamente sombrio
e sobre a minha mo senti os seus dedos crisparem-se como
garras, ao mesmo tempo que erguia o indicador ameaadoramente
 frente dos seus olhos.
--Mas dize-me a verdade, Jim, no s do barco de Filinto pois
no?--indagou.
Ao ouvir estas palavras, tive uma inspirao feliz. Pareceu-me
que encontrara um aliado e respondi-lhe imediatamente:
--No, no  o barco de Filinto; Filinto morreu. Mas vou
dizer-lhe a verdade, como me pede: a bordo h homens de
Filinto para desgraa de ns todos.
--Mas no est um... com uma... perna s, pois no?--inquiriu
ofegante.
--Silver?--perguntei.
--Ah! Silver! Era o seu nome, era.
-- o cozinheiro. Ele  que  o cabea de motim.
Segurava-me ainda pelo pulso e ao ouvir isto apertou-me com
violncia.
--Se foste mandado por esse Joo Grande...--articulou. --Sei
que sou um miservel, mas imaginas, sequer, onde vieste parar?
Tomei logo a resoluo de responder, contando-lhe toda a
histria da nossa viagem e qual a situao em que nos
encontrvamos. ouviu-me com profundo interesse e quando
terminei bateu-me na cabea, amigavelmente:
--s um bom rapaz, Jim--disse.--E vocs todos esto num grande
aperto, no  verdade? Puseste a tua esperana em Ben Gunn.
Muito bem, Ben Cunn  homem que a merece. Em teu entender, o

fidalgo sabe ser generoso, no caso de o ajudarem, de mais a
mais vendo-se em embaraos, como dizes?
Afirmei-lhe que o fidalgo era o mais generoso dos homens.
--Vamos a ver uma coisa, Jim -- replicou Ben Gunn.--Espero que
no me dem um lugar de porteiro, nem libr, ou outra coisa
assim; isso no me interessa. o que eu pretendo  o seguinte:
ele seria capaz de me dar... vamos l, mil libras do dinheiro
que j pertence a algum?
--Tenho a certeza disso -- respondi. -- Todos mesmo, tero a
sua parte.
--E seria capaz de me levar a bordo?--ajuntou ele, com finura.
--Decerto--volvi eu.--o fidalgo  um cavalheiro. Alm disso,
se nos virmos livres dos outros, vamos precisar da sua ajuda
no trabalho de bordo, quando regressarmos.
--oxal seja como dizes!
Pareceu ter ficado muito mais tranquilo.
--Agora vou dizer-te uma coisa--prosseguiu. -Vou contar-te
tudo por alto. Eu pertencia ao navio de Filinto quando ele
enterrou o tesouro, ele e mais seis
seis marujos possantes. Estiveram em terra perto de uma
semana e ns ficmos ao largo, no velho Walrus. Um belo dia
chegou o sinal do costume e Filinto apareceu-nos sozinho num
barquito, com a cabea enrolada num leno azul. Era ao nascer
do Sol. Branco como um morto, ele olhava em volta do
talha-mar. Ele vinha ali, mas os outros seis tinham morrido e
estavam enterrados. Como arranjou aquilo, nunca nenhum de ns
a bordo pde sab-lo. Fosse luta, assassnio ou morte sbita,
o certo  que ele ficara contra seis. Billy Bones era o
imediato; Joo Grande o quartel-mestre; perguntaram-lhe onde
estava o tesouro. "Eh!--respondeu ele.--Vocs podem ir a
terra, se quiserem, e deixarem-se l ficar, mas o barco esse,
com um raio, pe-se a andar!" Foi o que ele disse.
"ora, h trs anos atrs, estava eu noutro navio e passvamos
 vista desta ilha. "Eh rapazes--disse eu--, o tesouro de
Filinto est aqui; vamos a terra em busca dele." Isto no
agradou ao capito; mas os meus companheiros concordaram todos
e desembarcmos. Andmos dez dias  procura e quantos mais
dias passavam mais eles se voltavam contra mim, at que uma
bela manha foram todos para bordo. "Quanto a ti, Benjamim
Gunn", disseram-me, "aqui tens um arcabuz, uma p e um
enxado. Podes aqui ficar e descobrir o tesouro de Filinto
para ti mesmo."
"Pois  verdade, Jim, h trs anos que estou aqui e desde
aquele dia at hoje nunca mais soube o que era comida de
gente. Eu agora, ouve c, olha bem para mim. Tenho jeito de
ser marinheiro? Pois no, dizes tu? Nem o fui nunca, digo-te
eu.
Depois piscou o olho e beliscou-me com fora.
--Agora repete estas palavras l ao teu fidalgo,
Jim--continuou.--Ele nunca foi marinheiro,  o que vais
dizer-lhe. Durante trs anos foi o senhor desta ilha, de dia e
de noite, quer chovesse, quer fizesse sol; devia, talvez, ter
pensado algumas vezes, numa orao, dirs tu, outras vezes
pensaria na velha me. lembrando-se se

I

ainda ser viva, dize-lhe assim; mas a maior parte do tempo de

Gunn, hs-de dizer, a maior parte do seu tempo passava-o a
pensar noutra coisa. E ds-lhe um aperto, assim como eu fao.
Beliscou-me outra vez, do modo mais confidencial.
--Depois--continuou--, dizes-lhe mais isto:  unn  um bom
homem, e tem muito mais confiana (muito mais, v bem!) num
cavalheiro de nascimento do que num desses cavaleiros da
fortuna, apesar de ele prprio tambm o ter sido.
--Est bem--respondi--, no entendi nem uma palavra do que
esteve a dizer, mas isso tanto faz. o que eu quero  saber
como hei-de ir para bordo.
--Pois isso  que  o pior, com certeza. ora eu tenho ali um
barco, que eu me mo fiz. Tenho-o sempre debaixo da rocha
branca. No pior dos casos podemos tentar a coisa de noite.
ol!--interrompeu-se--, que vem a ser isto?
Conquanto houvesse ainda uma ou duas horas de sol, todos os
ecos da ilha despertaram e rugiram com uma descarga de canho.
--A luta comeou!--exclamei eu.--Siga-me.
Comecei a correr na direco do ancoradouro, esquecendo todos
os temores, enquanto o desterrado, com as suas peles de cabra,
corria ligeiro ao meu lado.
--A esquerda,  esquerda! --disse ele. -- Mete  tua esquerda,
camarada Jim! Mete-te debaixo das rvores! Foi aqui que matei
a primeira cabra. Elas agora j no vm por aqui. Fugiram
todas para as montanhas com medo de Benjamim Gunn. Ah! Aqui
est o cemitrio. Vs a esses montes de terra? De vez em
quando vinha aqui orar, quando calculava que devia ser
domingo. Isto no era bem uma capela, mas parecia-me ainda
mais solene. Hs-de estar a dizer que Ben Gunn no precisava
de nada, nem de pastor, nem mesmo de uma Bblia, ou de uma
bandeira.
Enquanto eu corria, ele ia falando, sem sequer esperar nem
receber qualquer resposta.
Depois de um bom intervalo, ao tiro de canho seguiu-se uma
descarga de fuzilaria.
Houve outra pausa e a seguir, a menos de um quarto de milha 
minha frente, vi a Union Jack flutuar no ar por cima do
arvoredo.

Quarta Parte

A PALI( ADA
Captulo dezasseis

o DoUToR CoNTINUA A NARRATIVA: coMo o NAVIO FoT ARANnoNAno

Era perto da uma e meia--trs badaladas, na fraseologia
martima -- quando os dois botes largaram do Hispaniola e
foram a terra. o capito, o fidalgo e eu estvamos conversando
sobre estas coisas todas na cabina. Houvesse uma aragem e
cairamos sobre os seis revoltosos que tinham ficado a bordo
connosco, largvamos a amarra e fazamo-nos ao mar. Mas vento
no havia e para maior transtorno Hunter veio dar-nos a
notcia de que Jim Hawkins se atirara para uma das lanchas e
fora para terra com os outros.
No nos passava sequer pela cabea duvidar de Jim Hawkins, mas
temamos pela sua segurana. Com homens da fora daqueles,
afigurava-se-nos que s por acaso tornaramos a ver o garoto.
Corremos ao convs. o breu borbulhava nas junturas; o fedor do

local fazia-me nuseas; aquele ancoradouro abominvel
cheirava-me a febre e disenteria. os seis patifes estavam a
resmungar todos sob uma vela, no castelo da proa; vamos os
barcos amarrados na margem mais ou menos onde o rio corria, e
um homem sentado em cada um. ouvamos um deles a assobiar o
Lillibullero.
Esperar era um sacrifcio e resolveu-se que Hunter e eu
fssemos a terra, no escaler, procurar informaes. As lanchas
tinham seguido para a direita; mas Hunter e eu remmos
direitos  paliada que se via na carta. os dois homens que
haviam ficado de guarda s lanchas pareceram sobressaltar-se 
nossa apario; o Lillibullero extinguiu-se repentinamente e
vi que a parelha discutia entre si o que havia de fazer.
Tivessem eles ido advertir Silver e tudo se teria tornado
diferente; mas deviam ter recebido ordens terminantes, penso
eu, porque resolveram deixar-se estar onde estavam e voltar outra vez ao
Lillibullero. A costa, ali, abaulava-se ligeiramente e
manobrei no sentido de pr entre ns e eles essa salincia, de
maneira que mesmo antes de chegarmos a terra tnhamos perdido
as lanchas de vista. Saltei em terra e pus-me a andar o mais
depressa que pude, com um grande leno de seda debaixo do
chapu, para me resguardar do calor, e um par de pistolas
prontas  primeira voz.
Ainda no tinha andado cem metros, quando cheguei  paliada.
Quase no cimo de um cmoro brotava uma nascente de gua
lmpida. Em torno dele e da nascente haviam construdo uma
espcie de casa com troncos de rvore, solidamente fixados,
suficiente para conter uns quarenta homens em caso de
necessidade e provida, por todos os lados, de buracos para
meter arcabuzes. A volta disto tinham aberto uma larga
clareira, completando a fortificao com uma estacada de seis
ps de altura, sem porta nem abertura, demasiadamente forte
para ser derrubada sem tempo nem trabalho e aberta de mais
para resguardar os sitiantes. Quem estivesse na cabana
mantinha o predomnio--estava protegido e atirava sobre os
outros como se fossem perdizes. Tudo o que precisavam era de
boa vigilncia e mantimentos, porque, a no ser absolutamente
de surpresa, podiam defender o local contra um regimento.
o que, porm, me encantou particularmente foi a nascente.
Porque, embora na cmara da Hispaniola levssemos armas e
munies, mantimentos e vinhos excelentes, havia uma coisa com
que nos descuidramos --no tnhamos gua. Pensava eu nisto
quando reboou pela ilha o grito mortal de um homem em agonia.
No era novato nestas coisas e conhecia bem a morte
violenta--servi Sua Alteza Real o duque de Cumberland e eu
mesmo fui ferido em Fontenoy --, mas o meu pulso bateu
agitado.
"Deram cabo de Jim Hawkins" foi o meu primeiro pensamento .
Para alguma coisa serve ter sido soldado, mas ainda  melhor
ser-se mdico. Na nossa profisso no h tempo para delongas.
Por isso tomei uma resoluo imediata e sem perda de tempo
voltei  praia e saltei para bordo do escaler.
Por felicidade, Hunter era um bom remador. Cortmos a gua num
voo e depressa nos afastmos e subi  escuna.
Fui encontrar todos inquietos, como era natural. o fidalgo
estava sentado, branco e como a cal, pensando na desgraa em
que nos metera (a santa alma!) e um dos seis homens do castelo

da proa pouco melhor estava.
--H aqui um homem novato no ofcio--disse o capito Smollett,
meneando a cabea na direco dele. --Quando ouviu o grito, ia
desmaiando, doutor. Mais outra volta no leme e esse homem
vira-se para ns.
Transmiti o meu plano ao capito e estabelecemos todos os
pormenores da sua execuo.
Pusemos o velho Redruth no corredor, entre a cmara e o
castelo da proa, com trs ou quatro arcabuzes carregados e com
um colcho para se proteger. Hunter conduziu a embarcao para
debaixo da portinhola da popa e Joyce e eu pusemo-nos a
carreg-la de caixas de plvora, mosquetes, sacos de bolacha,
barris de carne de porco, uma barrica de conhaque e a minha
preciosa caixa de farmcia.
Entretanto, o fidalgo e o capito continuavam na ponte. o
ltimo chamou pelo timoneiro, que era o principal homem de
bordo.
--Senhor Hands--disse--, tem na sua frente dois homens, com um
par de pistolas cada um. Se um dos seis faz qualquer gesto, 
homem morto.
Ficaram vacilantes um bom bocado e depois de um rpido acordo
meteram todos pela escotilha da proa, tencionando, sem dvida,
atacar-nos pela retaguarda. Mas quando deram com Redruth, que
os aguardava no corredor estreito, retrocederam imediatamente
e uma cabea surgiu outra vez no convs.
--Para baixo, co!--bradou o capito.
E a cabea sumiu-se de novo. os seis cobardes no nos
apareceram por algum tempo.
Entretanto, Joyce e eu tnhamos carregado o escaler o mais
possvel com o que apanhvamos a jeito, escapulimo-nos pela
canhoneira e rummos para terra, remando o mais que podamos.
Esta segunda excurso ps de atalaia os homens que vigiavam a
margem. o Lillibullero parou bruscamente outra vez; e antes
que tivssemos ultrapassado a pequena ponta de areia que os
ocultava  nossa vista, um deles precipitou-se para terra e
desapareceu. Passou-me pela cabea alterar o plano e
destruir-lhes as embarcaes, mas receei que Silver e os
outros estivessem por ali e que, por querer muito, acabasse
por perder tudo.
Depressa chegmos a terra, no mesmo local em que estivramos
antes, e pusemo-nos a levar as provises para a cabana da
estacada. Fizemos os trs a primeira caminhada, muito
carregados, e atirmos com as nossas cargas por cima da
paliada. Depois, deixando Joyce a guard-las ( certo que era
apenas um homem, mas acompanhado por meia dzia de arcabuzes),
Hunter e eu voltmos ao escaler e tornmos com a carga. Assim
fizemos, sem sequer pararmos para respirar, at transportarmos
todo o carregamento. os dois serviais tomaram posies no
abrigo, e eu, remando quanto podia, voltei para a Hispaniola.
o facto de nos termos arriscado a levar um segundo barco
carregado parecia mais perigoso do que era na realidade. Eles
tinham sobre ns a vantagem do nmero, sem dvida, mas ns
tnhamos a vantagem das armas. Nem um s dos homens que
estavam em terra tinha um mosquete e, antes de eles poderem
alcanar-nos  pistola, estvamos certos de que ramos capazes
de dar uma boa conta a meia dzia, pelo menos.
o fidalgo esperava-me  r, totalmente recomposto do desnimo
que sofrera. Colheu rapidamente a amarra

e desatmos a carregar novamente o barco para defesa das
nossas vidas. Carne de porco, plvora e biscoitos
levando apenas um arcabuz e um sabre para cada um de ns: o
fidalgo eu, Redruth e o capito. o resto das armas e da
plvora, atirmos ns pela borda fora. A duas braas e meia de
profundidade vamos o ao brilhante a refulgir ao sol, sobre o
fundo lmpido da areia.
A mar comeava a baixar e o navio arfava na ncora. ouvia-se
um murmrio de vozes a chamar na direco das lanchas e,
embora isso nos tranquilizasse quanto a Joyce e Hunter, que se
encontravam a este, advertia-nos de que devamos afastar-nos.
Redruth abandonou o seu posto no corredor estreito e saltou
para o barco, depois contornmos a r do navio, para o capito
Smollett descer.
--Eh l, homens!--bradou ele.--Esto a ouvir-me?
Da proa no veio resposta.
--Abrao Gray,  contigo que estou falando!
Continuou a no se ouvir nada.
--Gray!--tornou Smollett a chamar, um pouco mais alto.--Vou
abandonar o navio e dou-te ordem para seguires o teu
comandante. Sei que no fundo s um homem de bem e at me
atrevo a dizer que nenhum de vocs  to mau como quer fazer
crer. Tenho o relgio na mo; dou-te trinta segundos para
vires reunir-te a mim.
Houve uma pausa.
--Anda, rapaz--continuou o capito.--No leves tanto tempo
agarrado aos estais! Cada segundo que passa, arrisco a minha
vida e a das pessoas que ali esto.
Houve uma luta brusca, ouviram-se pancadas e de repente Abrao
Gray apareceu com uma das faces anavalhada correndo para o
capito, como o co que acode ao assobio.
--Estou consigo, meu comandante!
Em seguida, ele e o capito saltaram para a nossa embarcao e
ns afastmo-nos rapidamente.
Estvamos longe do navio, mas no estvamos ainda em terra, na
paliada.
Captulo dezassete

CoNTINUAo Do RELATo Do MDlCo:
A IJLTIMA VIAGEM Do ESCALER

Esta quinta viagem foi completamente diferente de todas as
outras. Em primeiro lugar, uma casca de noz, to pequena como
a embarcao em que amos, estava carregada de mais. Cinco
adultos, trs deles--Trelawney, Redruth e o capito--demasiado
corpolentos, j eram muito mais do que ela podia levar.
Acrescente-se a isto a plvora, a carne de porco e os sacos do
po. A r, a borda ia rente  gua, que chegou a entrar
algumas vezes, e ainda no tnhamos navegado cem metros j eu
levava o traseiro das calas e as abas do casaco como uma
sopa.
o capito mandou-nos equilibrar a carga e a embarcao ficou
um pouco melhor. At tnhamos medo de respirar.
Em segundo lugar, a vazante provocava o refluxo forte da
corrente que corria a oeste da baa e ao sul desaguava no mar,
pelos canais em que entrramos de manha. E claro que a
agitao das vagas era um perigo para a nossa embarcao
excessivamente carregada; mas o pior de tudo, ainda, era

estarmos a desviar-nos da rota devida, para longe do local
onde devamos acostar, por trs do pequeno cabo. Se
deixssemos a corrente levar-nos, amos parar  costa, perto
das lanchas, onde os piratas podiam aparecer de um momento
para o outro.
--No consigo aproar  estacada, capito--disse eu.
Ele e Redruth, frescos de foras, iam aos remos, enquanto eu
governava o leme.
--A corrente vai levar-nos para baixo--acrescentei.-No pode
remar um pouco mais forte, capito?
--No, porque o barco afunda-se--respondeu ele.
--o que tem  de sust-lo, doutor; veja se o segura, at
ganhar rumo.
Tentei a experincia e verifiquei que a corrente continuava a
arrastar-nos para oeste, por mais que eu procurasse meter a
proa para leste, justamente em ngulo recto com a direco que
tnhamos de seguir.
--Por este andar nunca mais chegamos a terra -proferi .
--Se este  o nico rumo que podemos tomar,  por ele mesmo
que temos de ir--volveu-me o capito.-o que  preciso 
resistir  corrente. Bem v, doutor-prosseguiu--, que se nos
deixssemos levar para sotavento do lugar a que queremos
aproar, mal sabemos onde alcanaramos terra, alm de que
podamos ser abordados pelas lanchas; para onde quer que seja
que a corrente nos obrigue a ir, ela h-de afrouxar, e depois
podemos voltar para trs ao longo da margem.
--J h menos corrente--disse Gray, que ia  proa.-Pode
afrouxar um pouco.
--obrigado, meu rapaz--respondi, como se nada tivesse havido;
todos tnhamos resolvido trat-lo como um dos nossos.
De sbito, o capito tornou a falar e pareceu-me que a voz se
Lhe alterara um pouco.
--o canho!--articulou ele.
--Esquecemo-nos disso--repliquei. Tinha a certeza de que ele
estava a pensar num bombardeamento da fortificao. --No
podem traz-lo para terra, mas, se o fizerem, no conseguem
arrast-lo pelo arvoredo.
--olhe para a r, doutor--ajuntou o capito.
Tnhamo-nos esquecido inteiramente da pea de nove de longo
alcance. Com horror, vimos que junto dela estavam os cinco
patifes que deixramos a bordo, retirando-lhe a capa, como
eles chamam ao encerado forte que a reveste durante as
viagens. No mesmo instante veio-me  ideia que deixramos l
as cargas e a plvora do canho e que uma machadada na caixa
onde estavam era o bastante para os malvados se apoderarem delas.
--Israel era o artilheiro de Filinto -- rouquejou Gray.
Apesar do risco que corramos, meti a proa do barco em
direco ao desembarcadouro. Nessa altura j conseguramos
afastar-nos do curso da corrente, e pude tomar a direco
desejada, ao ritmo necessariamente rpido das nossas remadas,
podendo assim conduzir firmemente o barco direito  meta
demandada. o pior  que, tomando este rumo, passmos a
apresentar o flanco, em vez da r,  Hispaniola, oferecendo-lhe um bom alvo.
Ento ouvi, to bem como se visse esse bandido brio de Israel
Hands, deixar cair uma das cargas na coberta.
--Quem  o melhor atirador?--perguntou o capito.
--o senhor Trelawney no tem rival.

--Senhor Trelawney, quer fazer-me o favor de pr dali para
fora um daqueles homens?--pediu o capito.-Se for possvel,
Hands.
Impassvel como ao, o Sr. Trelawney verificou o fulminante da
sua arma.
--Agora maneje a arma o mais levemente possvel, fidalgo, ou
mete o barco a pique!--gritou o capito.-Todos a equilibrar o
escaler quando ele disparar!
o fidalgo apontou a arma, cessmos de remar e inclinmo-nos
todos para o lado oposto, a fim de manter o equilbrio, e tudo
foi to maravilhosamente executado que nem uma gota de gua
entrou a bordo.
Entretanto, os bandidos haviam rodado a pea sobre o reparo e
Hands, que estava mesmo atrs dela, com o soquete, era, por
conseguinte, o mais exposto. Todavia, no tivemos sorte;
justamente quanto Trelawney atirou, ele abaixou-se, a bala
assobiou por cima dele e foi um dos outros que caiu.
Ao  rito que ele deu responderam no somente a voz dos seus
companheiros de bordo, mas tambm vrias vozes vindas de
terra, e, olhando naquela direco, vi os outros piratas a
sair em tropel do meio das rvores e precipitarem-se para os
seus lugares nas embarcaes.
--A vm as lanchas, capito!--disse eu.
--Dmos-lhes passagem--exclamou ele.--Agora no podemos estar
com medo de ir ao fundo. Se no chegamos a terra, est tudo
perdido.
--S uma lancha  que a vem--acrescentei. -A tripulao da
outra, naturalmente, est a rodear-nos por terra para nos
cortar a retirada.
--Tem muito que correr--tornou-me o capito.-Bem sabe que
Joyce est em terra. No so eles que me preocupam,  a pea.
Quando vir a mecha, diga-nos, senhor Trelawney; vamos todos
parar  gua.
Neste meio tempo tnhamos avanado, num bom andamento para um
barco to carregado, e pouca gua entrara. Estvamos j muito
perto; mais trinta ou quarenta remadas e estaramos na praia,
porque a vazante pusera a descoberto uma estreita ponta de
areia, que entrava por um macio de rvores. J no tnhamos
que temer a lancha: o pequeno promontrio ocultava-a dos
nossos olhos. A corrente da vazante, que to cruelmente nos
atrasara, estava agora a recompensar-nos, demorando os
assaltantes. o nico perigo era o canho.
--Se eu me atrevesse--disse o capito--, parvamos e
atirvamos ao ar outro homem.
Era bem claro, porm, que nada os faria demorar a descarga.
Mal tinham olhado para o camarada tombado, conquanto ele no
estivesse morto, pois eu via-o a tentar arrastar-se.
--Ateno!--gritou o fidalgo.
--Firmes!--bradou o capito imediatamente como um eco.
Ele e Redruth manobraram para trs com tal violncia, que a
popa mergulhou na gua. A detonao ouviu-se no mesmo
instante. Foi a que Jim ouviu primeiro, porque a da arma do fidalgo no podia chegar-lhe aos ouvidos.
Nenhum de ns soube precisamente quando o projctil passou;
julgo que passou sobre as nossas cabeas e que foi a
deslocao de ar produzida por ele que contribuiu para o nosso
desastre.
Fosse como fosse, a embarcao submergiu-se  r, docemente, a

uns trs ps de gua, comigo e com o capito de p, em frente
um do outro. os outros trs mergulharam completamente, e
voltaram acima, encharcados e arquejantes.
Felizmente o mal no foi grande. No se perderam vidas e
pudemos correr para terra sos e salvos. As nossas provises 
que tinham ido todas ao fundo e, para maior transtorno, de
cinco armas apenas duas estavam em condies de servir: a
minha, que eu tinha arrancado dos joelhos e segurara acima da
cabea, numa espcie de instinto, e a do capito, que ele
levava ao ombro, pela bandoleira, e que, como homem sensato
que era, ps ao alto o mais que pode. As outras trs foram ao
fundo com o barco.
Para aumentar a nossa inquietao comemos a ouvir vozes
perto de ns, por entre o arvoredo, ao longo da margem. No
tnhamos apenas o perigo de nos impedirem de chegar 
paliada, meio estropiados como estvamos; preocupava-nos
ainda o receio de Hunter e Joyce, se fossem atacados por meia
dzia deles, no conseguirem resistir. Sabamos que Hunter era
resoluto e firme, mas Joyce era muito duvidoso--corts e
amvel como criado, hbil para escovar as roupas do amo, no
fora precisamente talhado para homem de armas.
Com tudo isto a ocupar-nos a cabea, internmo-nos em terra o
mais depressa que pudemos, deixando atrs de ns o pobre
escaler com uma boa metade dos nossos mantimentos e das nossas
munies.

Captulo dezoito

CoNTINUA A NARRATIVA Do MDICo: FIM Do PRIMEIRo DIA DF T IJTA

Atravessmos a faixa de arvoredo que nos separava da enseada o
mais depressa que pudemos; a cada passo que dvamos, as vozes
dos bandoleiros, soavam mais perto de ns. Dentro de pouco
tempo ouvamos j os passos deles a correrem e o estalar das
ramadas partidas ao atravessarem a mata.
Comecei a ver que estava iminente uma refrega e verifiquei a
minha arma.
--Capito--disse--, Trelawney  o melhor atirador. D-lhe a
sua arma; a dele inutilizou-se.
Trocaram as espingardas e Trelawney, silencioso e impassvel
como sempre desde o incio das hostilidades
deteve-se um momento para certificar-se do estado da arma. No
mesmo instante reparei que Gray estava desarmado e estendi-lhe
a minha faca de mato. E foi uma satisfao para ns ver como
ele cuspiu nas mos, franziu as sobrancelhas e brandiu a
lamina no ar. Via-se bem que o nosso novo aliado valia tudo o
que parecia com todas as fibras do seu corpo.
Avanmos mais quarenta passos, chegmos  extremidade do
bosque e vimos a paliada na nossa frente. Atingamos mais ou
menos o meio do cercado, pelo sul quando, quase
simultaneamente, nos apareceram, a sudoeste, sete rebeldes,
com Job Anderson, o contramestre,  frente, fazendo grande
alarido.
Estacaram como se fossem retroceder; e antes que eles se
refizessem, eu e o fidalgo, ao mesmo tempo que Hunter e Joyce
da estacada, tivemos tempo de fazer fogo. os quatro tiros
partiram dispersos, mas fizeram a sua obrigao: um dos
inimigos caiu e o resto girou sem hesitao e sumiu se por

entre as rvores.
Depois de tornar a carregar as armas, descemos ao extremo da
paliada, para ver o inimigo abatido. Estava morto e bem
morto, com uma bala no corao.
Comemos a sentir-nos contentes com o bom xito obtido
quando, precisamente naquele momento, um tiro de pistola soou
na mata, uma bala passou-me rente aos ouvidos, assobiando, e o
pobre Tom Redruth vacilou e caiu no cho, ao comprido. Tanto o
fidalgo como eu replicmos com outro tiro, mas, como no
vamos nada para alvejar,  provvel que apenas tivssemos
gasto plvora. Voltmos a carregar as armas e fomos dar
ateno ao infeliz Tom. o capito e Gray j o tinham examinado
e eu, num relance, vi logo que estava perdido.
Creio que a prontido com que respondemos ao tiro dos
sediciosos os dispersou uma vez mais, porque conseguimos iar
o pobre couteiro por cima da estacada sem sermos incomodados e
lev-lo, gemendo e sangrando, para a barraca de troncos de rvore.
o desditoso velho no teve nunca uma palavra de surpresa, de
lamento, de medo ou mesmo de aquiescncia, desde o comeo das nossas vicissitudes at ao momento em
que o depusemos na cabana de troncos, para morrer. Estivera
por trs do colcho na galeria de bordo; cumprira todas as
ordens em silncio, rigorosa
mente; era vinte anos mais velho do que ns e era ele agora, o
velho e prestimoso servidor que ia ali morrer, ensombrado de
tristeza.
o fidalgo cara de joelhos ao lado dele e beijava-lhe a mo,
chorando como uma criana.
--Vou-me embora, doutor?--perguntou ele.
--Meu valente Tom--volvi eu--, vai voltar para Deus, sim.
--Mas primeiro gostava de Lhes ter dado um tiro-replicou ele.
--Tom, dize que me perdoas, sim?--murmurava o fidalgo.

--E no ser uma falta de respeito, meu fidalgo? No entanto,
seja assim, men!
Aps um instante de silncio, disse que gostaria que algum
rezasse uma orao.
-- costume--acrescentou com f.
Pouco depois, sem proferir mais uma palavra, partiu.
Entretanto o capito, cujo volume dos bolsos e do peito me
enchia de espanto, punha c fora uma grande poro de coisas
vrias: pavilhes britnicos, uma Bblia, um rolo de corda
grossa, uma pena, tinta, o dirio de bordo e algumas libras de
tabaco. Encontrara um comprido abeto, que jazia derrubado e
sem ramos no cercado, e com a ajuda de Hunter pusera-o ao alto
num dos extremos da cabana, onde os troncos se cruzavam,
formando ngulo. Em seguida subiu ao tecto e por suas prparias
mos prendeu o pavilho.
Isto pareceu dar-lhe grande satisfao. Voltou  barraca e
ps-se a mexer nas provises, como se nada mais existisse. Mas
tinha os olhos em Tom, porque, quando ele expirou, pegou
noutra bandeira e foi estender-lha respeitosamente por cima.
--No se aflija, fidalgo -- disse, apertando-lhe a mo.
--Morreu no seu posto; caiu cumprindo o seu dever para com o
seu comandante e o seu amo. Pode no ser agradvel, mas  um
facto.
A seguir, tomou-me de parte.

--Doutor Livesey--disse-me--, dentro de quantas semanas o
senhor e o fidalgo esperam auxlio?
Respondi-lhe que no era questo de umas semanas mas sim de
meses; se no estivssemos de regresso no fim de Agosto,
Blandly mandaria procurar-nos, nem mais cedo, nem mais tarde.
--Pois bem--replicou o capito, coando a cabea --, mesmo
prevenindo tudo rigorosamente e com todos os favores da
Providncia, devo dizer-lhe que vamos ver-nos em muitos maus
lenis.
--Porque diz isso?--inquiri.
--Foi uma pena termos perdido o segundo carrega mento,  s o
que sei dizer-lhe--respondeu.--A respeito de munies, ainda a
coisa vai. As raes  que so pequenas, muito pequenas, mesmo
to pequenas doutor, que talvez fosse bom termos ficado sem
mais essa boa.
E apontou para o cadver que estava sob a bandeira.
Naquele momento um tiro de pea soou e, assobiando com fragor,
o projctil passou por cima do tecto e foi cair na floresta,
muito longe de ns.
--oh!--fez o capito.--Barafustem por a! J no devem ter
muita plvora, rapazes.
A segunda tentativa, a pontaria j foi melhor, e a bala caiu
rente  estacada, levantando uma nuvem de areia, mas sem
causar nenhum dano.
--Capito--disse o fidalgo--, do navio  completamente
impossvel ver-se a barraca. Deve ser a bandeira que est a
servir-lhes de alvo. No seria de bom aviso retir-la?
--Arriar o meu pavilho?!--exclamou o comandante.--No,
senhor, nunca!
Assim que proferiu estas palavras, percebi que todos ns
estvamos de acordo com ele. Porque aquilo no era somente um
sinal de intrepidez e de pundonor de um homem do mar, era,
tambm, uma boa maneira de mostrar aos nossos inimigos que
desprezvamos o seu canhoneio.
Toda a tarde as descargas continuaram. Bala aps bala,
passavam por cima, caam perto ou faziam levantar a areia do
cercado; mas tinham de atirar to alto, que o projctil caa
enfraquecido e enterrava-se na areia macia. Tambm no
temamos o ricochete; uma vez ou outra ainda os projcteis
perfuraram o tecto e sumiram-se pelo cho, mas depressa nos
habitumos  gracinha e no Lhe demos mais importncia do que
a um jogo de crquete.
--Ainda esto a fazer uma coisa bem feita com isto-observou o
capito. --As rvores que esto na nossa frente devem ficar
limpas.
E acrescentou:
--A mar, j est a vazar h um bom bocado; as nossas
provises, agora, j devem estar a descoberto. Peo
voluntrios para irem buscar a carne de porco.
Gray e Hunter foram os primeiros a avanar. Bem armados,
saram furtivamente da estacada, mas inutilmente: os
amotinados tinham sido mais arrojados do que espervamos ou
tinham confiado mais do que supnhamos no bombardeio de
Israel. Quatro ou cinco deles haviam-se encarregado de
acarretar as nossas provises para uma das lanchas, que ali
estava prxima, manobrando s com um remo para a manter contra
a corrente. A r, Silver comandava e cada homem estava agora
munido de um arcabuz, vindo de algum depsito secreto que eles

tinham.
o capito sentou-se, pegou no dirio e comeou a escrever.
"Alexandre Smollett, comandante; David Livesey, mdico de
bordo; Abrao Gray, carpinteiro-ajudante; Joo Trelawney,
proprietrio; Joo Hunter e Ricardo Joyce, serviais do
proprietrio, trabalhadores rurais-todos quantos da tripulao
do navio se conservaram fiis--, com provises para dez dias
de pequenas raes chegaram a terra nesta data e hastearam o
pavilho britnico na cabana de troncos de rvore, na ilha do
Tesouro. Toms Redruth, criado do proprietrio, campons
varado por um tiro dos rebeldes; Jim Hawkins, grumete . . . "
Naquele mesmo instante estava eu pensando com espanto no
desaparecimento do pobre Jim Hawkins.
ouviu-se um chamamento do lado de terra.
--Esto a chamar-nos--advertiu Hunter, que estava de guarda.
os brados aproximavam-se.
--Doutor! Fidalgo! Capito! ol, Hunter!  voc?
Corri ento para a porta a tempo de ver Jim Hawkins, so e
salvo, que marinhava pela estacada.
Captulo dezanove

RELATo RESUMIDo DE JIM HAWKINS.
A GUARNIo DA ESTACADA

Logo que Ben Gunn avistou o pavilho, parou e deteve-me por um
brao.
--os teus amigos esto ali, com toda a certeza -disse .
--o mais certo  serem os rebeldes--respondi-lhe.
--Qual! Num lugar destes, onde no aparece mais ningum seno
cavaleiros da fortuna, o que Silver iava era o Jolly Roger *,
no tenhas dvidas. No, so os teus amigos. Tambm j houve
pancadaria e acho que os teus amigos levaram a melhor; vieram
para terra e meteram-se na velha estacada que Filinto fez h
um par de anos. Ah! Aquele Filinto era um homem com cabea.
Tirando o rum, nunca ningum mandou nele. Nem tinha medo de
ningum; s do Silver, que era todo polido.
--Est bem--disse eu--, a ser assim, mais razo h para eu ir
sem demora juntar-me aos meus amigos.
--No, camarada--retorquiu Ben--, no vais assim. Tu s bom
moo, ou estou enganado, mas no passas de uma criana,
digo-te eu. ora Ben Gunn  sabido. Nem por rum eu ia aonde tu
vais; nem mesmo por rum, sem ser o teu fidalgo e sem ouvir a
sua palavra de honra. E no te esqueas das minhas palavras.
"Ele quer uma prova ( o que vais dizer-lhe), uma prova de
confiana", e ds-lhe um belisco.
E pela terceira vez me beliscou, com o mesmo ar de astcia.
--E quando precisarem de Ben Gunn, j sabes onde o encontras,
Jim: precisamente onde hoje me encontras

* Distintivo dos piratas. (N. da T.)

te. Quem for ter com ele h-de levar na mo uma coisa branca e
h-de ir s. E podes explicar: "Ben Gunn l tem as suas
razes."
--Est bem--repliquei.--Creio que entendi. Voc tem qualquer
proposta a fazer e quer ver o fidalgo ou o doutor e
encontra-se onde eu hoje o achei, no  isso?
--E agora as horas?--ajuntou ele.--Pode ser a do meio-dia s

seis.
--Pronto--respondi.--J posso ir?
--E no te esqueces?--inquiriu ansiosamente. -Quer uma prova
de confiana e tem razes para isso,  o que vais dizer. Isto
aqui entre ns  o principal. Est bem--acrescentou,
continuando a segurar-me--, acho que podes ir, Jim. olha, Jim,
se te calhar a ver Silver, no vais trair Ben Gunn, pois no?
Nem por nada deste mundo, hem? No, est bem. olha, Jim, se
esses piratas se instalam a em terra, nem tu sabes o que para
a vai logo de manha...
Uma estrondosa detonao interrompeu-o e uma bala de canho
veio por entre as rvores a escach-las e cravou-se na areia,
a menos de cem metros do lugar onde estvamos a falar. Sem
perder um momento, cada um desatou a correr em direces
diferentes.
Durante uma boa hora as detonaes sucederam-se, abalando a
ilha, e as balas continuaram a estrondear pelo arvoredo. De
esconderijo em esconderijo, eu ia avanando, perseguido
sempre, pelo menos assim me parecia, por aqueles tiros
pavorosos. J para o fim do bombardeamento, se bem que eu no
ousasse ainda aventurar-me na direco da estacada, onde os
projcteis caam mais amide, l ganhei coragem outra vez e
depois de uma longa volta por leste rastejei por baixo das
rvores da beira-mar.
o Sol acabava de pr-se, a brisa martima murmurava e plangia
no arvoredo, encrespando a superfcie pardacenta da enseada; a
baixa-mar prolongava-se at longe, deixando a descoberto
grandes extenses de areia; e
depois daquele dia de calor o ar refrescava-me, entrando-me
pelo casaco.
A  ispaniola continuava onde ancorara. Vi ento que o Jolly
Roger, a bandeira da pirataria, trapejava no alto dum mastro.
No momento em que eu olhava, vi outro claro vermelho e
ouviu-se outra detonao, que os ecos repetiram
clamorosamente, e uma vez mais um projctil silvou nos ares.
Foi a ltima do canhoneio.
Fiquei algum tempo a ver a agitao que se sucedeu ao ataque.
Alguns homens espedaavam qualquer coisa  machadada, na praia
que ficava prxima da estacada; descobri depois que era o
pobre escaler. Ao longe, perto da embocadura do rio, uma
grande fogueira fulgurava por entre as rvores e entre este
ponto e o navio via-se uma lancha que levava e trazia os
homens, que eu vira to taciturnos e que remavam agora
soltando aclamaes, como se fossem garotos. Nas suas vozes,
porm, havia o que quer que fosse que lembrava o rum.
Por fim, pensei que podia voltar para a paliada.
Encontrava-me bastante afastado, na parte baixa e arenosa que
fecha o ancoradouro a leste e que na mar baixa se junta 
ilha do Esqueleto. Pondo-me de p, via agora, a alguma
distncia da ponta de areia, um rochedo alto e branco, de uma
brancura muito especial, que se elevava por entre as moitas
baixas. Lembrei-me que aquele devia ser o rochedo branco de
que Ben Gunn me falara. Se um dia precisasse de um barco, j
sabia onde havia de ir procur-lo.
Depois contornei o bosque at atingir a retaguarda da
estacada, que ficava do lado da terra, e em breve era
acolhido, calorosamente, pelos meus amigos.
Contei logo a minha histria e comecei a olhar  minha volta.

A barraca era feita de troncos de pinheiros irregulares--o
tecto, as paredes e o cho. Este, em diversos pontos, estava
apenas um p ou p e meio acima da areia. Na porta havia um
alpendre e debaixo dele o veio de gua corria para uma lagoa
artificial, muito
singular -- um grande caldeiro de ferro, dos que se usam a
bordo, sem fundo, enterrado no meio da areia, ou, como o
capito dizia, "afundado at aos bordos".
Na barraca pouco mais tinham deixado do que o vigamento; mas a
um canto havia uma laje a servir de lareira, e um velho cesto
de ferro, todo ferrugento, para meter o lume.
os taludes do cmoro e o interior da estacada tinham sido
limpos de troncos para construir a barraca, e pelos cotos
podia-se ver que o arvoredo arrasado era belo e grandioso. A
maior parte da verdura fora arrancada ou enterrada em monte,
depois da remoo das rvores; somente nos stios por onde o
regato corria da caldeira havia uma grossa camada de musgo,
fetos e pequenos tufos de ervas rasteiras, que continuavam a
verdejar no meio da areia. Muito cerrado em volta da
estacada-para a defesa, diziam--, o arvoredo crescia, alto e
denso. Do lado da terra tudo eram abetos, mas do lado do mar
havia  mistura muitos carvalhos perenes.
o ventinho frio da noite, a que j me referi, assobiava por
todas as frinchas da construo tosca e polvilhava o cho com
uma chuva contnua de areia fina. Havia areia nos nossos
olhos, nos dentes, na comida, a danar na gua, no fundo da
caldeira, em toda a parte, enfim. A nossa chamin era um
buraco quadrangular, no tecto; porm, s uma pequena parte do
fumo  que encontrava sada por ali, porque o resto remoinhava
pela casa e punha-nos os olhos a arder, enevoados.
A juntar a isto, Gray, o nosso novo aliado, tinha a cara
ligada, por causa do golpe recebido quando se escapara dos
rebeldes, e o desventurado Tom Redruth, ainda insepulto, jazia
encostado  parede, rgido e insensvel, sob a bandeira do
Reino Unido.
Se nos deixssemos ficar inactivos, depressa nos sentiramos
mal; o capito Smollett, porm, no era homem para isso.
Chamou-nos a todos e dividiu-nos em dois
grupos. o mdico, Gray e eu, para um; o fidalgo, Hun
ter e Joyce, para outro. Apesar de todos estarem cansados,
dois foram em busca de lenha para queimar; outros dois foram
abrir uma cova para sepultar Redruth; o doutor foi nomeado
cozinheiro; eu fui de sentinela para a porta, e o prprio
capito ia de uns para os outros, animando-os e dando uma
ajuda onde quer que fosse preciso.
De tempos a tempos o doutor vinha  porta tomar ar e dar algum
descanso aos olhos, que quase Lhe saam das rbitas, e quando
ali vinha tinha sempre uma palavra para mim.
--Este Smollett -- disse ele uma das vezes - melhor do que
eu. E quando digo isto, alguma coisa quero dizer, Jim.
Doutra vez esteve um bocado calado. Depois, inclinou a cabea
para um lado e ps-se a olhar para mim.
--Esse Ben Gunn  um homem?--perguntou.
--No sei, senhor doutor. E no tenho a certeza se estar bom
da cabea.
--Todo ele nos faz ter dvidas a tal respeito--volveu o
mdico. -- Um homem que passou trs anos numa ilha deserta a
roer as unhas, Jim, no pode estar como tu ou como eu. No 

prprio da natureza humana. No me disseste que anda a sonhar
com queijo?
--Sim, senhor, com queijo--respondi.
--Muito bem, Jim--disse--, v l tu como  bom ter o paladar
delicado. J tens visto a minha tabaqueira, no  verdade? Mas
nunca me viste tirar de l nem uma pitada, pela simples razo
de que na minha tabaqueira trago um bocado de queijo parmeso,
um queijo feito na Itlia, muito nutritivo. Pois bem,  para
Ben Gunn!
Antes da ceia enterrmos o velho Tom na areia e ficmos de p
em volta dele, de cabea descoberta.
Tnhamos apanhado uma boa poro de lenha, mas no era tanta
como o capito queria; ao v-la, abanou a cabea e disse-nos
que de manhzinha teramos de ir buscar mais. E depois de
comermos a nossa carne de porco e de cada um ter recebido um
bom copo de grogue, os trs chefes foram reunir-se a um canto, para discutir
a situao em que estvamos.
Era evidente que procuravam o que haviam de fazer, porque os
mantimentos eram poucos e muito antes de virem socorros
seramos eliminados pela fome. Chegaram  concluso de que a
nica esperana que nos restava era ir abatendo os piratas at
eles arriarem a bandeira ou fugirem com a Hispaniola. De
dezanove, j estavam reduzidos a quinze, dois outros estavam
feridos e um, pelo menos--o que fora alvejado ao p da pea--,
gravemente ferido, se  que no fora morto. De cada vez que
tivssemos uma refrega com eles, teramos o maior cuidado em
preservar as nossas vidas. Alm disso, tnhamos dois bons
aliados--o rum e o clima.
No que respeita ao primeiro, embora estivssemos a uma meia
milha de distncia, ouvamo-los a berrar e a cantar pela noite
adiante; quanto ao segundo, o mdico apostava a sua cabeleira
em como, acampados no pntano e desprovidos de remdios,
metade estava de papo para o ar antes de uma semana.
--Por isso--acrescentou--, se no formos todos metralhados
antes, podem eles dar-se por felizes se se escaparem com a
escuna. Sempre  um navio e podem voltar  rapina, creio eu.
--Ser o primeiro navio que perco -- articulou o capito
Smollett.
Eu estava a morrer de cansao, como pode calcular-se; por
isso, quando comecei a dormir, depois de dar algumas voltas,
ca como um cepo.
E j todos estavam a p e haviam tomado o primeiro almoo e
aumentado a pilha de lenha para o dobro, quando um rebulio e
um estrpito de vozes me fez acordar.
--A bandeira de parlamentrio!--ouvi algum dizer. E quase
imediatamente a seguir, num grito de surpresa:-- o prprio
Silver!
Ao ouvir isto dei um salto e, esfregando os olhos, corri a
espreitar num dos buracos que havia na parede.
Captulo  vinte

A EMBAIXADA DE SILVER

Fora da estacada estavam dois homens e um deles agitava um
pano branco. o outro era nem mais nem menos do que Silver em
pessoa, placidamente de p.
Era ainda bastante cedo e a manha estava fria como eu nunca

vi; parecia que a friagem nos trespassava at  medula. o cu
mostrava-se brilhante e sem nuvens e as copas das rvores
cintilavam ao sol num tom rseo. Mas no stio em que Silver se
encontrava com o seu lugar-tenente havia ainda sombra, e, at
aos joelhos, os dois homens estavam submersos num vapor
espesso e branco, que durante a noite se desprendera do musgo.
o frio, juntamente com aquela evaporao, abonava muito mal a
favor da ilha. Era, simplesmente, um local hmido e insalubre,
cheio de febres.
--Todos c dentro! --disse o capito. --Aposto dobrado contra
singelo em como isto  um embuste.
Depois intimou o pirata.
--Quem vem l? Pare, ou fao fogo.
-- a bandeira de parlamentrio! --gritou Silver.
o capito estava no alpendre, acautelando-se contra qualquer
bala traioeira que intentassem atirar-lhe. Voltou-se para ns
e disse:
--A ronda do doutor a postos! Doutor Livesey, se faz favor, v
para o norte; Jim a leste e Gray a oeste. Segunda roada,
carreguem todos os mosquetes. Depressa e cuidado!
Depois voltou-se outra vez para os rebeldes.
--E o que querem vocs com essa bandeira de
parlamentrio?--bradou.
Desta vez, foi o outro que respondeu:
--o capito Silver vem aqui abord-los para estabelecer
condies.

--o capito Silver! No o conheo. Quem ?--exclamou o
comandante.
E ouvimo-lo acrescentar consigo mesmo:
--Capito, hem?! Por minha vida! Aqui est uma promoo !
Foi o prprio Joo Grande que respondeu:
--Sou eu. Estes pobres rapazes elegeram-me capito, depois da
sua desero, senhor comandante --e acentuou com nfase a
palavra desero. -- Estamos prontos a submeter-nos se quiser
chegar a um acordo e no houver impedimento. S o que peo 
que me d a sua palavra, capito Smollett, de que me deixa
sair desta estacada so e salvo e me d um minuto para me pr
fora do alcance de qualquer tiro que seja disparado.
--olhe, rapaz--pronunciou o capito Smollett--, no tenho o
menor desejo de falar consigo. Mas se voc quer falar comigo,
pode entrar,  tudo o que Lhe posso dizer. Se houver algum
traidor,  do seu lado e que o Senhor o acompanhe.
-- o bastante, capito--respondeu Joo Grande, cheio de
contentamento. --Uma palavra sua  o suficiente. Sei o que 
ser cavalheiro, pode estar descansado.
Vimos ento o homem que trazia a bandeira de parlamentrio
tentar deter Silver, o que era para admirar, vendo-se a
resposta cavalheiresca que o capito dera. Mas Silver deu uma
gargalhada e bateu-lhe nas costas, como se a ideia de ter medo
fosse absurda. Depois avanou para a paliada, iou-se sobre a
muleta e com admirvel vigor e percia passou por cima da
cerca e deixou-se cair do outro lado com segurana.
Devo confessar que eu me sentia to atrado pelo que se estava
passando que para bem pouco servia como sentinela;
efectivamente desertei logo do meu posto de leste e rastejei
para trs do capito, que se sentara na soleira, com os
cotovelos fincados nos joelhos, a cabea entre as mos e os

olhos fixos na gua que borbulhava a

  sair da caldeira de ferro enterrada na areia. E, baixinho,
assobiava o Vinde c, Rapazes e Moas Solteiras.
Foi com penoso esforo que Silver trepou pelo cmoro. o
declive do terreno, os grossos cotos das rvores e a areia
escorregadia faziam dele e da muleta uma espcie de navio sem
velas. Mas l foi subindo, em silncio, at que por fim chegou
em frente do capito, a quem saudou da maneira mais galharda.
Tinha-se vestido com o melhor que tinha: um grande casaco
azul, coberto de botes de cobre, que Lhe chegava at aos
joelhos, e um bonito chapu agaloado, que trazia descado para
trs.
--ora c estamos, meu rapaz --disse o capito, levantando a
cabea.-- melhor sentar-se.
--Ento no me deixa ir l para dentro, capito?-Lastimou-se
Joo Grande. --Est uma manha muito fria, para se ficar c
fora sentado na areia.
--olhe, Silver--respondeu o capito--, se tivesse querido ser
um homem honrado, podia estar agora sentado ao seu fogo. Isto
 obra sua. ou voc  o meu cozinheiro, e portanto tratado
como tal, ou  o capito Silver, desordeiro e pirata vulgar,
digno de ser enforcado.
--Est bem, est bem, capito--retorquiu o cozinheiro,
sentando-se na areia conforme pde. --S o que tem  de me
ajudar a levantar. Esto aqui lindamente instalados. olha, ali
est o Jim! Desejo-te um belo dia, Jim. Senhor doutor, os meus
respeitos. ora vocs esto aqui todos juntos, como uma famlia
feliz, para assim dizer.
--Se tem a dizer alguma coisa, o melhor  falar-interrompeu o
capito.
--Tem razo, capito Smollett--replicou Silver.-o dever acima
de tudo, est certo. ora, vamos l ver: um dos vossos teve uma
excelente ideia a noite passada. No nego que foi uma
excelente ideia. Algum do seu lado teve a habilidade de fazer
um trabalho limpinho; to-pouco nego que os meus foram
atingidos; podiam ter
sido todos, podia ser eu prprio.  por isso que aqui estou a
propor condies. Mas note bem, capito, que isso no acontece
segunda vez, com um raio! Vamos estar de olho alena e pr
ponto no rum. Naturalmente pensa que andamos todos a dormir.
Mas olhe que eu estava sem vinho e cansado como um co e se
tenho acordado um segundo mais cedo tinha-os apanhado com a
boca na botija, ah, isso tinha! o homem no estava ainda morto
quando cheguei ao p dele.
--E depois?--interrogou o capito Smollett com toda a calma.
Tudo o que Silver acabava de dizer era chins para ele, mas
nada nele o deixava perceber. Eu, porm, comeava a
inclinar-me para um pensamento. Vieram-me  memria as ltimas
palavras de Ben Gunn e compreendi que ele fora pagar a visita
dos piratas enquanto estavam todos a cair de bbedos em volta
da fogueira, deduzindo cheio de alegria, que passvamos a ter
s catorze adversrios a enfrentar.
--Depois  o seguinte--pronunciou Silver--, queremos o tal
tesouro e havemos de apanh-lo,  o que nos interessa. Vocs o
que precisam  de salvar a vida, acho eu. ora muito bem. os
senhores tm um mapa, no tm?
-- muito possvel--replicou o capito.

--L isso tm, que eu bem sei--volveu Joo Grande--, no vale
a pena disfarar, porque no ganha nada com isso. o que eu
tenho a dizer  que precisamos desse mapa. E pronto, c por
mim no Lhes quero mal nenhum.
--Isso no  comigo, rapaz--interrompeu o capito.--Sabemos
exactamente o que tencionam fazer e no temos nada com isso,
porque sabemos que nada podem fazer.
E o capito olhou para ele serenamente e comeou a encher o
seu cachimbo.
--Se o Abrao Gray...--atirou Silver.
--Basta!--exclamou Smollett.--Gray no me disse nada, nem eu
Lhe perguntei; antes queria v-lo a si e a
ele em chamas, juntamente com esta ilha que o mar expeliu. E
por aqui me fico, meu rapaz.
Esta pontinha de chiste pareceu acalmar Silver. Comeara a
emproar-se, mas agora voltava a mostrar-se mais acomodatcio.
--Perfeitamente--disse.--No serei eu quem estabelea o que os
cavalheiros ho-de considerar ou no como seu dever, conforme
os casos. E j que o capito vai fumar o seu cachimbo, se me
d licena eu fao o mesmo.
E encheu o cachimbo e acendeu-o. Durante um bom bocado, os
dois homens estiveram fumando, ora olhando-se de frente, ora
parando de fumar, ora inclinando-se um pouco para cuspir.
Tornava-se divertido v-los.
--Pois a coisa est nisto--resumiu Silver.--os senhores
do-nos o mapa, para chegarmos ao tesouro, e deixam-se de
atirar sobre os pobres marinheiros e de queimar-lhes as
cabeas enquanto esto a dormir. Se fizerem como digo,
dou-lhes a escolher o seguinte: ou os senhores, vo para bordo
connosco, depois de o tesouro embarcado, e eu tomo o
compromisso, sob a minha palavra de honra, de os desembarcar
sos e salvos onde quer que seja; ou, se isto no Lhe agradar,
por alguns dos meus homens serem violentos e terem velhas
contas a ajustar, podem perfeitamente ficar aqui. Repartimos
as provises com vocs, irmamente e comprometo-me a falar ao
primeiro navio que avistar e a mand-lo vir c busc-los. o
senhor agora dir. Melhor do que isto no sei o que seja.
E elevando a voz:
--Espero que todos quantos esto nesta fortificao tenham
tomado boa conta das minhas palavras, porque o que disse a um,
disse a todos.
o capito Smollett levantou-se do seu lugar e sacudiu a cinza
do cachimbo, batendo com ele na palma da mo esquerda.
--J disse tudo?--inquiriu.
-- a minha ltima palavra--respondeu Joo Grande.--Se recusa,
nada mais espere de mim seno balas.
--Muito bem--articulou o capito. --Agora oua-me. Se vocs
aqui vierem, um a um, desarmados, comprometo-me a p-los a
ferros e a lev-los para Inglaterra, para serem julgados. Se
no quiserem, chamo-me Alexandre Smollett, tenho hasteado o
pavilho do meu soberano e mando-os a todos para casa do
diabo. Vocs no podem descobrir o tesouro, nem podem pr o
navio a navegar, entre vocs no h um s capaz de o dirigir.
Nem podem bater-se connosco: Gray passou-se para o nosso lado,
 um a menos. o gado saiu-lhe mosqueiro, mestre Silver; como
v, est num beco sem sada. Sou eu que Lho digo, e so estas
as ltimas palavras de tolerncia que me ouve, porque, em nome
do cu, a primeira vez que torne a encontr-lo, meto-lhe uma

bala na cabea. E agora ponha-se a andar daqui para fora e
depressa !
o rosto de Silver transtornara-se; os olhos saltavam-Lhe das
rbitas, enfurecidos. Sacudiu o tabaco do cachimbo .
--Ajude-me a levantar!--berrou ele.
--No conte comigo--respondeu o capito.
--Quem me ajuda a levantar?--rugiu Silver.
Entre ns ningum se mexeu. Bramindo as mais torpes
imprecaes, foi-se rojando pela areia at conseguir
agarrar-se ao alpendre e poder erguer-se outra vez e apoiar-se
 muleta. Ento, cuspiu na fonte.
--Aqui est o que eu penso de vocs--trovejou.-Antes de uma
hora vou queim-los todos aqui, como um ponche de rum.
Riam-se, com mil raios! Riam-se! Daqui a menos de uma hora
ho-de rir-se mas  no outro mundo. E os que morrerem, ho-de
ser os mais felizes!
E com uma praga horrvel l se foi a coxear e a enterrar-se na
areia, at que, depois de quatro ou cinco tentativas,
conseguiu transpor a estacada, ajudado pelo homem da bandeira,
desaParecendo, a seguir, entre as rvores.

Captulo vinte e um

o ATAQUE

Logo que Silver desapareceu, o capito, que no tirara os
olhos de cima dele, voltou a entrar na barraca e no encontrou
nenhum de ns no seu posto seno Gray. Foi a primeira vez que
o vimos zangado.
--Aos seus postos!--gritou severamente.
E assim que todos saltmos para os nossos lugares, disse:
--Gray, vou tomar nota do teu nome no livro de bordo;
cumpriste o teu dever como um marinheiro. Senhor Trelawney,
estou muito admirado consigo. Doutor, julgava que o senhor
envergava a farda real; se foi assim que serviu em Fontenoy,
mais valia ter-se metido na cama .
Todos os que pertenciam  ronda do mdico tinham voltado a
ocupar as aberturas de observao e os restantes puseram-se a
carregar os mosquetes de reserva, todos de cara vermelha, como
 fcil de calcular, e a sentir mosquitos nos ouvidos,
enquanto a admoestao vibrava.
Em silncio, o capito contemplou-nos um bocado. Depois
pronunciou:
--Meus amigos, pus o Silver pior do que uma barata e bati-lhe
o p, e antes de uma hora, como ele disse, vamos ser atacados.
No  preciso repetir que estamos em inferioridade numrica,
mas vamos combater protegidos, e com disciplina, assim penso.
No tenho a menor dvida de que podemos bat-los, se
quisermos.
Depois passou tudo em revista e verificou que tudo estava em
ordem, como ele dizia.
Nos dois lados mais pequenos da casa, a leste e oeste, havia
apenas duas aberturas; do lado sul, onde estava o alpendre,
havia outras duas e do lado norte cinco.

tnhamos vinte arcabuzes para ns sete, quatro pilhas de
lenha, que pareciam mesas, uma ao meio de cada um dos lados, e
em cima de cada uma havia munies e quatro armas carregadas,

para estarem  mo dos defensores. Ao meio, estavam as facas e
sabres em fila.
--Apaguem o lume --ordenou o comandante --, o frio j passou e
escusamos de estar com os olhos cheios de fumo.
o cesto de ferro foi levado pelo prprio Sr. Trelawney l para
fora e o brasido atabafado na areia.
--Hawkins no almoou ainda. Hawkins, vai buscar a tua comida,
volta para o teu lugar e vai comendo-prosseguiu o capito
Smollett. --Despacha-te, rapaz, que daqui a pouco j gastas o
que comeres. Hunter, traz aguardente para todos.
E enquanto isto se passava, na sua mente o capito completava
o plano de defesa.
--Doutor, o senhor toma conta da porta--resumiu ele.
--observe, mas no se exponha; mantenha-se da parte de dentro
e faa fogo pelo alpendre. Hunter, tome conta do leste. Joyce,
ponha-se aqui a oeste, meu rapaz. Senhor Trelawney, o senhor 
o melhor atirador; portanto, o senhor e Gray guarnecem o lado
norte, que  o maior, e ficam com cinco aberturas  vossa
guarda; deste lado  que est o perigo. Se eles conseguem
chegar aqui e atingir-nos pelas nossas prprias defesas, ento
 que as coisas vo mal. Hawkins, tanto tu, como eu, no
valemos grande coisa a fazer fogo; ns ficamos para carregar
as armas e para dar ajuda.
o frio passara, de facto, como o capito dissera. Assim que o
sol se abriu sobre as rvores que nos rodeavam, caiu com toda
a fora na clareira e absorveu num momento os vapores que dela
subiam. Em breve a areia escaldava e a resina derretia-se nos
troncos de rvore da barraca. Tirmos os casacos. Abrimos as
camisas no pescoo e arregamos as mangas
at aos ombros. E assim nos deixmos ficar, cada um no seu
posto, numa febre de calor e de ansiedade.
Decorreu uma hora.
--Diabos os levem! --proferiu o capito. --Isto  to
enervante como a calmaria! Gray, v l se vem vento.
Justamente naquele momento chegaram os primeiros indcios do
ataque.
--Por favor, comandante--disse Joyce--, se eu vir algum fao
fogo?
--J Lhe disse que sim--bradou o capito.
--Muito obrigado, comandante -- retorquiu Joyce com a mesma
cortesia inaltervel.
Por um bocado nada houve, mas aquela observao pusera-nos
todos alerta, de olhos e ouvidos atentos-os mosqueteiros nos
seus lugares, de armas aperradas, o capito no meio da casa,
com a boca contrada e os sobrolhos franzidos. Assim passaram
alguns segundos. Subitamente, Joyce assestou o mosquete e
desfechou. Ainda a detonao no se extinguira e j da parte
de fora Lhe respondia uma carga delas, de pontos diferentes,
tiro sobre tiro, de todos os lados do cercado. os tiros
acertaram vrias vezes na casa, mas nenhuma bala entrou; e
assim que a fumarada se dissipou, a estacada e os bosques em
redor tornaram a parecer to tranquilos e despovoados como
antes. Nem o ondular dum ramo, nem o brilho do cano duma arma
atraioavam a presena dos nossos inimigos.
--Acertou no homem?--inquiriu o capito.
--No, senhor -- respondeu Joyce --, creio que no.
-- importante dizer a verdade--murmurou o capito
Smollett.--Carrega a tua arma, Hawkins. Quantos homens

estariam do seu lado doutor?
--Sei-o exactamente--disse o Dr. Livesey.--Deste lado vieram
trs tiros. Vi os trs clares, dois muito pertinho e um mais
para oeste.
--Trs!--repetiu o capito.--E do seu lado quantos eram,
senhor Trelawney?
Esta resposta no era fcil de dar. Do lado do norte tinham
vindo muitos tiros. Sete, pelas contas do fidalgo, oito ou
nove, segundo o que Gray dizia. De este e de oeste, somente um
tiro isolado partira. Era evidente, portanto, que o ataque ia
desenvolver-se ao norte e que dos outros lados apenas seramos
incomodados com uma ameaa de hostilidades. Mas o capito
Smollett no alterou as suas disposies. Se os bandoleiros
conseguissem penetrar na paliada, argumentava ele,
apoderar-se-iam de qualquer abertura desguarnecida e
apanhavam-nos como ratos no nosso prprio reduto.
No tivemos muito tempo para pensar. De repente, um grupo de
piratas, em grande algazarra, saltou dos bosques e correu em
direco  estacada. No mesmo instante, abriram fogo do
arvoredo e uma bala de arcabuz atravessou a porta num silvo e
veio fazer em bocados o mosquete do doutor. os assaltantes
treparam pela cerca como um bando de macacos. o fidalgo e Gray
dispararam repetidas vezes; caram trs homens: um em frente,
dentro do cercado, e dois  retaguarda, pela parte de fora. Um
desses, porm, evidentemente que ficara mais amedrontado do
que ferido porque se ps de p num instante e desapareceu
rapidamente por entre as rvores. Dois foram mortos, um
pusera-se em fuga, quatro haviam penetrado nas nossas defesas,
enquanto sete ou oito, ao abrigo das rvores e decerto munidos
de vrios mosquetes, faziam fogo cerrado e s cegas sobre o
reduto.
os quatro que tinham conseguido entrar avanaram direitos 
fortificao, gritando, ao mesmo tempo que corriam, e os que
estavam por entre as rvores estimulavam-nos, gritando tambm.
Disparmos vrios tiros, mas a nossa precipitao era tanta
que nem um s produziu efeito. Num momento, os quatro piratas
invadiram o recinto e abateram-se sobre ns.
A cabea de Job Anderson, o contramestre, apareceu na abertura
do meio.
--A eles! Todos a eles! Todos!--rugiu, numa voz de trovo.
No mesmo momento, outro pirata agarrou o mosquete de Hunter
pelo cano e arrancou-lho das mos, meteu-o pela abertura e com
uma pancada espantosa atirou ao cho, sem sentidos, o pobre
homem. Entretanto, um terceiro, que correra, desarmado, em
volta da casa, apareceu, de sbito,  entrada da porta e caiu
sobre o mdico empunhando um cutelo.
A nossa posio modificara-se completamente. H pouco ramos
ns que fazamos fogo, protegidos, sobre um inimigo
descoberto; agora ramos ns que estvamos a descoberto e sem
poder responder com um s tiro.
A barraca estava cheia de fumo e a isso devemos a nossa
relativa salvao. Gritos e confuso, clares e detonaes de
pistolas e um vozear forte ressoavam nos seus ouvidos.
--Para fora, amigos, para fora e combatam-nos a
descoberto!--bradou o capito.--Aos sabres.
Do monte dos sabres arrebatei um e algum, que, ao mesmo
tempo, tirava outro, fez-me um golpe nas falanges, que eu mal
senti. Arremessei-me para fora da porta,  luz clara do Sol.

Algum, que eu no sabia quem era, vinha mesmo atrs de mim.
Na minha frente o doutor perseguia o seu atacante pela colina
abaixo e vi-o dar-lhe uma grande cutilada na cara e atir-lo
de costas ao cho.
--A roda da casa, rapazes! A roda da casa!--gritou o capito.
E mesmo no meio do tumulto percebi que a voz dele se havia
modificado.
Maquinalmente obedeci, voltei para leste, e, de sabre em
riste, virei a esquina da casa. Nesse mesmo instante dei de
cara com Anderson. Soltou um bramido e levantou o cutelo acima
da cabea, que cintilou ao sol. No
tive sequer tempo de ter medo, mas, antes que ele
descarregasse o golpe, saltei para um lado num abrir e fechar
de olhos e atrapalhando os ps na areia macia rolei
precipitadamente pelo declive.
Quando me atirei pela porta fora, os outros rebeldes tinham j
atacado a paliada, no intento de darem cabo de ns. Um deles,
com um barrete vermelho na cabea e a faca presa nos dentes,
atingira mesmo o cimo da estacada e passava-lhe uma perna por
cima, para transp-la. ora tudo isto se passara to
rapidamente, que, quando pude firmar de novo os ps, todos
estavam ainda na mesma posio: o homem de barrete vermelho
escarranchado no alto da paliada e a cabea dum outro a
assomar por cima da cerca. E durante esse breve espao de
tempo o combate terminara e a vitria era nossa.
Gray, seguindo-me de perto, havia prostrado o gordo
contramestre antes de ele ter tempo de refazer-se do fracasso.
outro fora atingido com um tiro junto duma das aberturas,
precisamente quando disparava para dentro da barraca, e Jazia
agora agonizante, empunhando ainda a pistola a fumegar. o
doutor, como eu vira, com um s golpe pusera um terceiro fora
de aco. Dos quatro que tinham escalado a paliada, apenas um
escapara sem apanhar a sua conta e, deixando a faca no campo,
trepava agora para sair, cheio de medo de deixar ali a vida.
--Fogo! Faam fogo da casa!--gritou o doutor.-E vocs,
rapazes, recolham ao abrigo.
Mas ningum atendeu as suas palavras, da barraca no foi
disparado um s tiro e o ltimo assaltante escapuliu-se 
vontade e desapareceu nos bosques com os outros. Em trs
segundos, nada mais havia do grupo atacante do que os cinco
que tinham sido abatidos, quatro do lado de dentro e um do
lado de fora da paliada.
o mdico, Gray e eu corremos apressadamente para o abrigo. oS
sobreviventes depressa estariam de regresso aos lugares onde
tinham deixado os mosquetes e o fogo podia recomear de um
momento para o outro.
fi
Na barraca o fumo dissipara-se j um tanto e num relance vimos
por que preo nos ficara a vitria. Hunter continuava sem
sentidos junto do seu posto; Joyce, perto do seu, jazia com
uma bala na cabea, e jamais tornaria a mover-se, enquanto ao
centro, hirto, o fidalgo amparava o capito, to plido um
como o outro.
--o capito est ferido--pronunciou o Sr. Trelawney.
--Fugiram?--indagou Smollett.
--os que puderam--volveu o doutor--, mas cinco deles nunca
mais tornam a fugir.
--Cinco!--exclamou o capito.--Sempre estamos melhor. Cinco

contra trs; agora somos quatro contra nove. Sempre  uma
diferena melhor do que tnhamos ao princpio. ramos sete
contra dezanove, o que era bem pior *.

* os rebeldes depressa ficaram reduzidos a oito, porque aquele
que o Sr Trelawney atingira a bordo da escuna morreu na mesma
noite em consequncia dos ferimentos. A parte fiel, porm, no
o sabia ainda naquela altura.

Quinta Parte

A MINHA AVENTURA No MAR
Captulo vinte e dois

CoMo PRINCIPIEI A MINHA AVENTURA No MAR

os sediciosos no tornaram a aparecer, nem voltou a ouvir-se
mais nenhum tiro vindo da floresta. Tinham levado a sua conta
para esse dia, como dizia o comandante, e pudemos ficar
senhores da situao, com tempo para cuidar dos feridos e do
jantar. o fidalgo   eu fomos cozinhar l para fora, apesar do
perigo, e mesmo a mal sabamos o que fazer porque nos
afligiam os gemidos dos feridos tratados pelo mdico.
Dos oito homens cados no campo da luta, apenas trs
respiravam ainda--o pirata atingido junto da abertura, Hunter
e o capito Smollett, e, destes, os dois primeiros estavam
como mortos. o pirata morreu nas mos do doutor e Hunter no
tornou a recuperar a conscincia, embora Lhe fizssemos tudo
quanto podamos. o seu sofrimento prolongou-se o dia inteiro,
respirando ruidosamente, como o velho pirata em nossa casa, no
auge da apoplexia; tinha os ossos do peito esfacelados pelo
tiro e ao cair fracturara o crnio. A mesma hora da noite
seguinte, sem um gesto nem um gemido, entregou a alma ao
Criador.
Quanto ao capito, os seus ferimentos eram graves de facto,
mas no corria perigo. Nenhum dos seus rgos fora mortalmente
atingido. A bala de Anderson, porque fora ele quem primeiro o
atingira, quebrara-lhe uma omoplata e passara-lhe de raspo
pelo pulmo, mas sem gravidade. o segundo tiro apenas Lhe
dilacerara alguns msculos da perna. o doutor afirmava que ele
se restabeleceria, mas, entretanto, estaria semanas sem poder
andar nem mover o brao e at mesmo deveria evitar falar. o
golpe acidental que eu recebera nos dedos era coisa de somenos
importncia. o Dr. Livesey ps-lhe um penso e ainda por cima
me puxou as orelhas.
Depois do jantar, o fidalgo e o mdico sentaram-se ao lado do
capito para deliberarem e conversarem demoradamente. Passava
j bastante do meio-dia quando o doutor pegou no chapu e nas
pistolas, meteu um sabre no cinto e o mapa no bolso e, com um
mosquete ao ombro, galgou a paliada do lado norte e
desapareceu lestamente entre as rvores.
Gray e eu estvamos sentados ao p um do outro no extremo
oposto da barraca, onde no chegava o rudo das vozes dos
nossos dirigentes a conferenciarem. Gray fumava o seu
cachimbo, mas tirou-o da boca e esqueceu-se dele na mo, to
assombrado ficou ao ver o mdico partir.
--Diabos me levem se o doutor Livesey no est
doido!--exclamou.

--No est, no--disse eu. --Pode ter a certeza que de todos
ns h-de ser ele o ltimo a quem isso acontea.
--Pois sim, camarada--respondeu-me Gray--, no deve estar
maluco; mas, repara bem nas minhas palavras, se ele no est,
ento sou eu que estou.
--Do que tenho a certeza  que o doutor l tem a sua ideia e
se no me engano vai agora avistar-se com Ben Gunn .
Eu tinha razo, como se viu mais tarde. Entretanto a casa
comeava a abrasar de calor; a faixa de areia no interior da
paliada escaldava ao sol do meio-dia e na minha cabea
principiou a germinar outra ideia, que nada tinha de razovel.
Comecei a ter inveja do doutor, passeando  fresca sombra dos
bosques, com os pssaros perto dele e o aroma aprazvel dos
pinheiros, enquanto eu ali estava a esturrar, com a roupa
peganhenta de resina, e tanto sangue em volta de mim e tantos
cadveres cados por ali que o meu desgosto por tudo aquilo
tornou-se quase to forte como o medo.
Durante o tempo em que estive a lavar o cho e a louca do
jantar, este desgosto e esta inveja foram aumentando e tornando-se cada vez mais fortes, at que, por fim,
estando prximo de um saco de po, e no havendo ningum a
observar-me, comecei a preparar-me para me escapar e enchi de
biscoitos as algibeiras do casaco .
Podiam julgar que eu estava maluco e decerto que ia fazer uma
loucura e praticar uma temeridade, mas estava decidido a
faz-lo com todas as precaues que estivessem ao meu alcance.
Se alguma coisa me acontecesse, aqueles biscoitos haviam de
livrar-me, pelo menos, de cair de fraqueza at ao dia
seguinte.
Em seguida apoderei-me de um par de pistolas e munido de uma
bolsa de plvora e de balas considerei-me bem armado e
equipado.
Quanto ao plano que tinha em mente, no era mau de todo. Ia
descer  ponta de areia que separava, a leste, a enseada do
mar largo e procurar a rocha branca que descobrira na vspera
e certificar-me se era a ou no que Ben Gunn escondera o seu
bote, coisa que valia bem a pena fazer-se, como ainda hoje
acho. Tinha, porm, a certeza de que no me deixariam sair do
cercado e por isso o meu plano era despedir-me  francesa e
saltar l para fora quando ningum visse. Este modo de
proceder  que tornava a coisa condenvel. Todavia, eu no
passava de um garoto e estava resolvido a faz-lo.
Enfim, deparou-se-me uma oportunidade admirvel. o fidalgo e
Gray ocupavam-se em tratar do capito, o caminho estava livre;
corri para a estacada como uma seta, escalei-a e introduzi-me
num macio de rvores e, antes que algum desse pela minha
ausncia, estava longe do alcance da voz dos meus
companheiros.
Era esta a minha loucura, pior do que a primeira, porque
deixava apenas dois homens vlidos de guarda  casa; todavia,
tal como a primeira ela contribuiria para a salvao de todos
ns.
Pus-me a andar em direco  costa oriental da ilha, porque
determinara descer  ponta da areia pelo lado do l 7 l
mar, a fim de evitar toda a possibilidade de ser observado do
ancoradouro. A tarde ia j adiantada, contudo ainda havia
calor e muito sol. A medida que eu avanava por entre o alto
arvoredo, ouvia no somente o rumor contnuo das vagas l

longe, como a agitao da folhagem e o contorcer dos ramos, o
que demonstrava que a brisa martima estava mais forte do que
o costume. Em breve comecei a sentir lufadas de ar frio e
poucos passos adiante cheguei  orla do bosque e vi o mar,
azul e cheio de sol, que se estendia at ao horizonte, e a
ressaca a rolar num turbilho de espuma ao longo da praia.
Nunca vi o mar sereno em volta da ilha do Tesouro. o Sol podia
chamejar l no alto, no ar no haver uma vibrao e a
superfcie das guas estar lisa e azul, que, assim mesmo, as
vagas alterosas rolavam pela costa, num trovejar contnuo, de
dia e de noite. Creio que na ilha no havia um ponto onde
algum deixasse de ouvir o seu rumor.
Fui andando, pois, pela beira-mar, com grande satisfao, em
direco ao sul, at que me considerei bastante afastado.
Ento, encobrindo-me com a espessura da mata, avancei
cautelosamente para o recife da ponta de terra.
Por trs de mim ficava o mar e, para a frente, o ancoradouro;
a brisa martima, apesar de bem cedo ter comeado a soprar com
desusada violncia, depressa desapareceu. Sucederam-lhe leves
correntes de ar variveis, vindas do sul e do sudoeste, que
arrastavam consigo grandes bancos de nvoa; a sotavento da
ilha do Esqueleto estendia-se a enseada, plmbea, como quando
nela entrmos pela primeira vez. E naquele espelho intacto, a
Hispaniola reflectia-se totalmente, desde os enxertrios at 
linha de gua, com o pavilho hasteado no mastro.
Ao seu lado via-se uma das lanchas, com Silver, que eu
reconhecia sempre,  escota da r, enquanto dois homens se
debruavam na amurada da popa, um deles ostentando um barrete
vermelho--sem dvida o mariola que algumas horas antes eu vira
a transpor a paliada. Pareceu-me que conversavam e riam,
conquanto,  distncia a que estvamos --mais de uma milha--eu
nada pudesse ouvir do que diziam. Subitamente um grito agudo,
horrvel, que no parecia deste mundo, veio atordoar-me os
sentidos, embora eu no demorasse muito a recordar-me da voz
do Capito Filinto e pudesse, mesmo, reconhecer a ave, pela
sua brilhante plumagem, empoleirada no pulso do dono.
Pouco depois o escaler afastou-se e dirigiu-se para terra, e o
homem do barrete vermelho e o seu companheiro, no navio,
desceram  cabina da popa.
Justamente nesse momento o Sol declinava por trs do
Telescpio e, como a nvoa se amontoava rapidamente, comeou
logo a escurecer. Se eu queria encontrar o barco naquela
noite, no podia perder tempo.
A rocha branca que se via bem acima do matagal estava ainda a
umas centenas de metros de distncia, l em baixo, na ponta da
areia, e eu ainda ia levar um bocado a alcan-la, rastejando
e caminhando de gatas, muitas vezes, por entre as moitas. Era
quase noite quando atingi as suas margens agrestes. L em
baixo havia uma pequenssima cavidade arrelvada, encoberta por
bancos de areia e um espesso macio de arbustos, que davam
pelos joelhos e que ali cresciam  vontade; mesmo no centro da
cova, erguia-se uma tenda de pele de cabra, como as que os
ciganos armam na Inglaterra.
Saltei para o fosso e levantei um dos lados da tenda --ali
estava o bote de Ben Gunn, feito por ele mesmo, como eu nunca
vi outro. Compunha-se toscamente de uns troncos nodosos de
madeira rija, cobertos por uma pele de cabra esticada, tendo o
pelo virado para o lado de dentro. Era extremamente pequeno,

mesmo para mim, e eu mal podia imaginar como  que aquilo
flutuava com um homem dentro. Tinha um assento, o mais baixo
possvel, uma espcie de prancha de apoio  proa e um remo
duplo para o impulsionar.
Nunca, at ento, eu vira um coracle  como os que os antigos
bretes faziam, mas vi-o naquela altura e no me  possvel
dar uma ideia mais clara do bote de Ben Gunn, seno dizendo
que era como o primeiro e pior coracle que os homens fizeram.
Todavia, possua, sem dvida, a vantagem do coracle, porque
era extremamente leve e manejvel.
E agora que encontrara o barquito, no se pense que j achava
bastante o meu passeio. Tivera, entretanto, outra ideia e to
obstinadamente me agarrei a ela, que creio que a levaria por
diante na cara do prprio capito Smollett. Consistia em ir
sorrateiramente, a coberto da noite, largar a Hispaniola 
deriva e deix-la aportar a terra onde Lhe apetecesse. Na
minha ideia, depois da derrota daquela manha, os rebeldes no
ansiavam por mais nada do que levantar ferro e fazerem-se ao
largo, e eu entendia que seria excelente impedir-lho, tanto
mais que eu vira que os vigias de bordo tinham ficado sem uma
embarcao. Podia, pois, faz-lo com pequeno risco.
Sentei-me  espera da escurido e fiz uma boa refeio de
biscoitos. Era uma noite como poucas para o meu fito. o
nevoeiro encobria todo o cu. Assim que os ltimos lampejos do
dia se desvaneceram e extinguiram, um negrume absoluto caiu
sobre a ilha do Tesouro. Quando, por fim, carreguei ao ombro o
coracle e, s apalpadelas, sa, tropeando, do fosso onde
estivera a comer, havia apenas dois pontos visveis em toda a
enseada.
Um era a grande fogueira que ardia em terra, no pntano, ao p
da qual os piratas mal sucedidos se entregavam  bebida. o
outro, uma plida mancha de claridade na escurido, que
indicava a posio do navio fundeado. Virara-se com a
baixa-mar e tinha agora a proa de frente

* Barco de pesca feito de couro. (N. da T.)

7

para mim. As nicas luzes que havia a bordo eram as da cabina
e eu via somente na nvoa o reflexo dos raios fortes que se
escoavam pelas vidraas da popa.
A mar baixara h bastante tempo e tive de patinhar por uma
comprida faixa de areia empapada, onde me enterrei vrias
vezes at ao tornozelo, para poder chegar  beira da gua que
se afastava. A patinhei mais um pouco e, com alguma fora e
jeito, depus o meu coracle na gua.
Captulo vinte e trs

A DERIVA

o coracle, como verifiquei largamente pelo que fiz com ele,
era um verdadeiro barco, perfeitamente seguro para uma pessoa
da minha altura e do meu peso, que flutuava e se adaptava bem
ao mar; todavia era, ao mesmo tempo, a embarcao mais
arrevesada e caprichosa que pode haver para se dirigir.
Imagine-se qualquer coisa que fugia sempre ao rumo que se Lhe
dava e cuja melhor manobra era girar sobre si mesmo e andar 

roda. o prprio Ben Gunn concordava que era "difcil
manej-lo at apanhar-lhe o jeito".
 claro que eu no Lhe conhecia o jeito. A barquinha virava-se
para todas as direces, menos para aquela que eu queria; a
maior parte do tempo seguia de banda e tenho a certeza de que
nunca mais chegaria ao navio se no fosse a corrente. Por
felicidade, remasse eu para onde remasse, a mar ia-me
arrastando sempre para baixo--e l em baixo estava a
Hispaniola, precisamente na direco que eu levava e no era
fcil perd-la.
Primeiro enxerguei-a  minha frente como se fosse um borro
ainda mais negro do que a escurido da noite
depois os mastros e o costado comearam a tomar forma, e, logo
a seguir--visto que quanto mais eu avanava, mais a fora da
corrente aumentava--, achei-me junto da amarra e agarrei-me a
ela.
A amarra estava esticada como a corda de um arco to
vigorosamente o navio puxava pela ncora. Em volta, o mpeto
da corrente, no negrume da noite, espumava e sussurrava como
um regato na montanha. Um golpe da minha faca de marujo e a
Hispaniola iria por ali abaixo ao sabor da mar, num vago
rumor.
At aqui fora a coisa bem; de repente, porm, ocorreu-me que
uma amarra esticada, subitamente cortada, 
to perigosa como um cavalo aos coices. Se eu tivesse a
temeridade de soltar repentinamente a Hispaniola da ncora,
havia todas as possibilidades de o coracle e eu sermos muito
simplesmente cuspidos e arremessados para fora da gua.
Detive-me, portanto, e, se o acaso no me tivesse favorecido
outra vez, teria abandonado o meu intento. Mas a virao leve
que principiara a erguer-se de sudeste e do sul, depois do
cair da noite rodara para sudoeste. Enquanto eu reflectia, uma
aragem mais forte apanhou a Hispaniola e impeliu-a para a
frente; com grande alegria minha, senti a amarra afrouxar nos
meus dedos e, num segundo, a mo com que eu me agarrava a ela
estava dentro de gua.
Decidi-me, ento, e sacando da minha faca abri-a com os dentes
e fui cortando os feixes do cabo, um aps outro, at o barco
ficar preso s por dois. Depois, parei, esperando cortar os
ltimos quando a tenso tornasse a ser aliviada por um novo
golpe de vento.
Durante todo este tempo eu tinha ouvido o som de vozes altas
vindas da cabina; mas, para dizer a verdade, a minha mente
estava de tal modo absorvida por outros pensamentos que mal
pude escutar o que diziam. Todavia, agora que j no tinha
nada que fazer, comecei a prestar mais ateno.
Reconheci uma das vozes a do contramestre Israel Hands, que
outrora fora artilheiro de Filinto. A outra era, sem dvida, a
do homem do barrete vermelho. Ambos estavam a cair de bbedos
e deviam continuar a beber, porque, enquanto eu escutava, um
deles, com um grito de brio, abriu a janela da r e atirou
qualquer objecto que percebi ser uma garrafa vazia. Porm, no
estavam apenas brios; era evidente que zaragateavam
furiosamente. As pragas choviam como granizo e de vez em
quando a coisa explodia a tal ponto que eu pensava que aquilo
ia acabar  pancadaria. Mas a escaramua passava, entretanto,
as vozes regougavam baixo um
bocado, at que vinha novo acesso, que por seu turno passava

outra vez sem outro resultado.
Em terra, via o claro da grande fogueira que ardia num
braseiro por entre as rvores que orlavam a margem. Uma voz
entoava uma lgubre e dolente cano de marinheiros, que
baixava e fazia uma pausa no fim de cada verso e parecia no
ter fim seno quando se acabasse a pacincia do cantador.
ouvira-a durante a viagem mais de uma vez e lembro-me destas
palavras:

Da sua tripulao s um homem vive, Efez-se ao mar com setenta
e cinco.

Achei que era uma cano bem amargamente adaptada ao grupo que
naquela manha sofrera to cruis baixas. Mas afinal, pelo que
vi, todos aqueles bandoleiros eram to endurecidos como o mar
em que andavam.
Por fim, a brisa veio; a escuna guinou e aproximou-se mais, na
escurido; senti o cabo afrouxar outra vez e com um esforo
enrgico e penoso cortei as ltimas fibras .
Ainda que a brisa s ligeiramente actuasse sobre o coracle, eu
seria projectado contra a proa da Hispaniola quase
instantaneamente. Nessa altura, a escuna comeou a virar-se
sobre a parte de trs e a derivar lentamente, levada pela
corrente.
Eu trabalhava agora como um desesperado, porque a expectativa
de cada momento era submergir-me e quando me convenci de que
no podia impelir o coracle para longe dali, comecei a
empurr-lo na direco da r. Por fim, consegui livrar-me do
meu perigoso vizinho e acabava de dar o ltimo impulso ao
coracle quando as minhas mos tocaram numa corda fina, que
pendia da amurada da popa. Agarrei-me a ela imediatamente.
Porque fiz isto, mal posso diz-lo. Primeiro foi por mero
instinto; mas assim que tive a corda presa na mo e a senti
segura, a curiosidade principiou a fazer subir
a outra mo e entendi que devia ir espreitar pela janela da
cabina.
Icei-me a pulso pela corda e quando me julguei prximo o
suficiente, com infinito risco levantei perto de meio corpo e
assim pude abranger o tecto e uma parte do interior da cmara.
Nesta altura, j a escuna e o seu pequeno companheiro haviam
deslizado mansamente na gua e encontrvamo-nos em linha com a
fogueira.
o navio falava, como dizem os marinheiros, ruidosamente,
dominando a espuma das vagas, num espadanar revolto e
incessante, e, enquanto no consegui espreitar pela janela,
no pude compreender porque  que os guardas no deram o
alarme. No entanto, bastou um relance de olhos, e um s me
arrisquei a deitar do meu instvel ponto de observao: Hands
e o seu companheiro apertavam-se numa luta de morte, com as
mos na garganta um do outro.
Desci novamente para o banco do barquito, no que demorei algum
tempo, porque eu estava quase na amurada. Nesse momento nada
mais pude ver do que aquelas duas caras furibundas e
encarniadas, que se confundiam  luz do candeeiro fumarento;
e fechei os olhos para os adaptar melhor  escurido.
A balada interminvel acabara por fim e todo o grupo, apertado
em torno da fogueira, rompera a entoar o coro tantas vezes
ouvido:

Quinze homens na mala do morto... Io-ho-ho, e uma garrafa de
rum! A bebida e o Diabo deram cabo dos outros... Io-ho-ho, e
uma garrafa de rum!

Estava justamente a pensar como, naquele momento, a bebida e o
Diabo faziam a sua obra na cabina da Hispaniola, quando fui
surpreendido por um sbito desvio do coracle. Ao mesmo tempo
deu uma guinada forte e pareceu mudar de rumo. Entretanto, a
sua velocidade aumentara imenso.
Abri logo os olhos. Em volta de mim as ondas amontoavam-se e
rolavam fragorosas, encrespando-se ligeiramente
fosforescentes. A prpria Hispaniola, em cuja esteira eu me
encontrava, remoinhando a alguns metros de distncia, parecia
vacilar no caminho a seguir e vi-Lhe os mastros
arremessarem-se contra a escurido da noite; no havia que
ver, quanto mais eu olhava, mais me convencia de que ela se
virava para o sul.
olhei por cima do ombro e o corao bateu-me de encontro ao
peito: precisamente atrs de mim, estava o claro da fogueira.
A corrente ziguezagueava e arrastava consigo a grande escuna e
o pequeno coracle balanceante; ora aceleradamente, ora num
turbilho mais alto, ora em rumorejos graves, ia deslizando
pelos estreitos, a caminho do mar alto.
Bruscamente, a escuna, adiante de mim, deu uma guinada
violenta, virando-se, talvez, uns vinte graus e quase ao mesmo
tempo dois brados se ouviram a bordo, um a seguir ao outro;
seguiu-se uma tropeada de ps na escada do camarote e percebi
que os dois bbedos tinham, por fim, interrompido a disputa e
despertavam para a compreenso da sua imprudncia.
Espalmei-me no fundo daquele msero esquife e com toda a
devoo encomendei a minha alma ao Criador. No fim dos canais,
tinha a certeza de que iramos precipitar-nos de encontro a
algum banco de cachopos implacveis, onde todas as minhas
atribulaes terminariam de pronto; e posto que eu suportasse,
talvez, a ideia da morte, no podia sofrer a certeza do fim
terrvel que se aproximava.
Assim tive de estar horas, sempre aoitado pelas vagas
alterosas, encharcado por salpicos abundantes e sem deixar de
esperar a morte a cada mergulho. Um cansao amargo me invadiu
gradualmente; um torpor, uma espcie de estupor momentneo se
apoderou da
minha mente no meio do meu terror, at que por fim adormeci no
coracle que o mar embalava rudemente, e sonhei com a minha
casa e a velha Estalagem Almirante Benbow .

Captulo vinte e quatro

A VIAGEM Do CoRACLE

Quando acordei era dia claro e encontrava-me no extremo
sudoeste da ilha do Tesouro. o Sol nascera j, mas estava
ainda escondido por trs da grande massa do Telescpio, que
deste lado descia at quase ao mar em formidveis escarpas.
o cabeo da Bolina e a colina do Mastro de Mezena ficavam
perto de mim; a colina era escalvada e escura e o cabeo,
guarnecido de rochedos abruptos, de quarenta ou cinquenta ps
de altura, tinha um socalco de grandes massas rochosas. Estava
a menos de um quarto de milha da costa e o meu primeiro

pensamento foi remar para terra. Em breve, porm, tive de pr
de parte esta ideia. Por entre as rochas despenhadas, as ondas
rebentavam ameaadoras, e o seu rudo repercutia-se, contnuo,
de segundo a segundo, num chuveiro pesado de salpicos;
compreendi que se me aventurasse a aproximar-me seria
arrastado para a morte na costa abrupta ou que em vo me
extenuaria para vencer o recife.
E ainda no era tudo; rastejando pelas rochas lisas, ou
deixando-se cair no mar com grande estrondo, reparei nuns
enormes monstros viscosos, uma espcie de lesmas de tamanho
incrvel, que num cardume de quarenta ou sessenta faziam as
rochas ecoar com os seus bramidos.
S mais tarde soube que eram lees marinhos *, completamente
inofensivos. Mas,  vista deles, as dificuldades em alcanar a
costa aumentaram, e tudo isso, juntamente com a violncia da
ressaca, era mais do que suficiente para me fazer desolar com
aquele local de aportamento. Senti que seria prefervel deixar-me morrer no
mar a defrontar tantos perigos.
Entretanto pareceu-me que se me deparava um local melhor. Ao
norte do cabeo da Bolina a terra prolongava-se numa grande
distncia, deixando a descoberto, na baixa-mar, uma longa
extenso de areia fulva. Ao norte dessa lngua de areia,
formava-se outro cabo, o cabo da Floresta, como estava
assinalado no mapa, afogado em altos pinheiros verdes, que
vinham descendo at  beira-mar.
Lembrei-me do que Silver dissera, a propsito da corrente que
corre para o norte ao longo de toda a costa ocidental da ilha
do Tesouro; e verificando, pela posio em que me encontrava,
que estava j sob a sua influncia, preferi deixar o cabeo da
Bolina para trs e reservar as minhas foras para alcanar
terra no cabo da Floresta, que me parecia mais acessvel.
o mar crescera um tanto, muito liso. o vento sul soprava
regular e ameno, em harmonia com a corrente e as ondas subiam
e desciam brandamente.
Se assim no fosse, h muito que eu teria soobrado. Assim,
era surpreendente ver como o meu barquinho, to frgil,
galgava as ondas com facilidade e segurana. Muitas vezes,
deitado l no fundo e no podendo fazer outra coisa seno
lanar um olhar por cima da borda, via uma enorme colina azul
erguer-se acima de mim; o coracle dava um salto brusco, como
se oscilasse sobre molas, e precipitava-se do outro lado, no
fundo de duas vagas, leve como um passarinho.
Comecei a ganhar um pouco mais de coragem e levantei-me para
experimentar a minha habilidade no manejo do pangaio. Porm, a
mais leve alterao na distribuio do peso produz
modificaes violentas no comportamento de um coracle. Ainda
bem no tinha eu modificado o movimento do barquito, eis que
ele deixou de balancear suavemente para ir precipitar-se por
uma vertente de gua, to inclinada que me fez girar vertiginosamente e o levou a embicar de encontro a um repuxo de
borrifos no fundo da onda seguinte.
Fiquei todo ensopado e aterrorizado e tornei logo a cair na
posio em que estava e, neste instante, o coracle parece que
encontrou de novo o equilbrio e tornou a levar-me docemente,
como antes, por entre as vagas. Era evidente que no admitia
que o dirigissem e em tal situao, sem poder dar-lhe rumo,
que esperana me restava de alcanar terra?

Comeava a sentir-me terrivelmente assustado, mas, apesar de
tudo, no perdi a cabea. Movendo-me com todo o cuidado, fui
despejando a gua que entrara no coracle com o meu bon de
marujo; depois lanando os olhos, uma vez mais, por cima da
borda, pus-me a observar como ele resvalava to bem por entre
os rolos de gua.
Verifiquei ento, que cada onda, em vez de uma montanha
enorme, lisa e escorregadia, como parece de terra ou da
coberta de um barco, assemelha-se, antes, a qualquer
cordilheira de montes em terra, com seus picos, planaltos e
vales.
Entregue a si mesmo, o coracle virava-se de um lado para o
outro, abria caminho, para assim dizer, por entre as partes
mais baixas, evitava os declives cheios de gua e a crista
elevada e resvaladia das vagas.
--ora bem --disse com os meus botes --, est visto que tenho
de ficar sossegado onde estou para no alterar o equilbrio.
Mas est visto, tambm, que posso pr o pangaio por cima da
borda e de vez em quando, na planura das vagas, dar-lhe um
impulso ou dois para terra.
Se bem o pensei, melhor o fiz. Apoiado nos cotovelos, na mais
incmoda posio, dava-lhe, de quando em quando, uma pancadita
ou duas para vir-lo de frente para terra.
Era um trabalho penoso e lento, mas tornou-se evidente que eu
ganhava terreno; e  medida que me aproximava do cabo da
Floresta, via perfeitamente que no podia alcan-lo--mas
avanara j algumas centenas de metros para leste. Estava, de
facto, muito perto. Via o verde fresco das copas das rvores
agitadas pela brisa e fiquei convencido de que no deixaria de
chegar ao promontrio prximo.
J no era sem tempo, porque comeava agora a ser torturado
pela sede. o calor vivo do Sol, l no alto, os seus reflexos
multiplicados pelas ondas, a gua do mar que me caa em cima e
secava, encortiando-me os lbios com o sal, tudo isso junto
me fazia arder a garganta e doer a cabea. A vista das
rvores, ali  mo, to pertinho, porm, em breve me arrastou
para alm desse ponto e era o mar largo que a seguir ia
encontrar. Mas algo me surgiu  vista, que modificou o curso
dos meus pensamentos.
Mesmo na minha frente, a menos de meia milha de distncia,
deparou-se-me a Hispaniola, de velas abertas. Tive a convico
de que amos esbarrar, mas eu estava to ansioso por gua que
essa ideia no me deixou triste nem alegre; e antes que eu
pudesse chegar a uma concluso, a surpresa apoderou-se
inteiramente da minha mente e nada mais pude fazer do que
esbugalhar os olhos e pasmar.
A Hispaniola levava aberta a vela mestra e as duas bujarronas,
e a linda lona branca resplandecia ao sol como a neve ou como
a prata. Quando a avistei, ia a todo o pano na direco
noroeste e pensei que os homens que iam a bordo queriam rodear
a ilha para regressar ao ancoradouro. Mas agora comeava a
virar cada vez mais a oeste, de tal sorte que presumi que eles
me haviam enxergado e se aproximavam para me apanharem. No
obstante, o navio, por fim, virou contra o vento, como se
fosse impelido ao contrrio, e ali ficou um momento sem
direco, com as velas a tremular.
--Fortes brutos!--disse eu.--Ainda devem estar bbedos como
cachos.

E pensei como o capito Smollett os faria espertar. Entretanto
a escuna fora descaindo e virara de bordo, singrou velozmente
coisa de um minuto e caiu uma vez mais na linha do vento. Isto
repetiu-se diversas vezes. De c para l, ora para cima, ora
para baixo, para o norte, para o sul, este e oeste, a
Hispaniola vogava aos altos e baixos, acabando sempre como
tinha comeado, com um adejo ocioso das velas. Para mim era
ponto assente que ningum ia ao leme. Mas, sendo assim, onde
estavam os homens? Quer estivessem mortos de bbedos, quer
tivessem abandonado o barco, pensei que talvez conseguisse ir
a bordo e pudesse restitu-lo ao capito.
A corrente arrastara de igual modo para o sul o coracle e a
escuna. Quanto  ltima, velejava com tal desordem e
irregularidade e estava tanto tempo parada, que no conseguia
ganhar nenhum avano, mesmo que no o perdesse. Se eu me
atrevesse a sentar-me e a manejar o pangaio, tinha a certeza
de que poderia alcan-la. Esta ideia tinha o seu que de
aventurosa e a lembrana do depsito de gua que havia na proa
da escuna aumentou-me a coragem.
Assim que me levantei, fui borrifado logo por outro chuveiro
de salpicos; porm, desta vez, no desisti, e com toda a
cautela e energia pus-me a remar para a Hispaniola sem
governo. Em dada altura, uma vaga mais pesada obrigou-me a
parar e a despejar gua, sentindo o corao a esvoaar como um
pssaro; mas a pouco e pouco l consegui seguir o rumo que
queria e guiar o meu coracle por entre as ondas, dando-lhe um
impulso s de quando em quando e recebendo na cara uma rajada
de espuma.
Avanava agora rapidamente para a escuna; via luzir o cobre da
cana do leme, que virava dum lado para o outro, mas nas
cobertas nem vivalma. No podia afirm-lo; todavia, parecia-me
que o navio fora abandonado, e, se no o tinham abandonado, os
homens deviam
estar cados com o vinho l em baixo e eu poderia, talvez,
fech-los e fazer do navio o que me apetecesse.
Durante algum tempo o barco manteve-se para mim o pior
possvel--parado. Aproado ao sul, guinava, no entanto, a todo
o momento. De cada vez que descaa as velas enchiam em parte
e, por um instante, o navio tomava vento de novo. J disse que
isto era o pior possvel para mim; abandonado a si mesmo, como
parecia estar, com o velame a disparar como um canho e os
moites a rolar e a bater no convs, mesmo parado continuava a
fugir-me, no s com a velocidade da corrente, mas tambm com
toda a fora da sua declinao que, naturalmente, era grande.
Por fim, l tive um momento de sorte. A brisa abrandou uns
segundos, muito baixa, e, com o impulso gradual da corrente, a
Hispaniola rodou lentamente sobre o seu centro, at que acabou
por apresentar-se de popa para mim, ainda com uma greta da
janela da cabina aberta e o candeeiro em cima da mesa que
continuava a arder em pleno dia. A vela mestra pendia  guisa
de bandeira. Se no fosse a corrente, o barco estaria
perfeitamente imvel.
Neste instante perdi algum avano; mas, redobrando de
esforos, comecei, mais uma vez, a aproximar-me do alvo.
Estava j a uns cem metros dele, quando veio outra vez um
golpe de vento: tombou para o lado de terra e a se foi
novamente, balouando e rasando a gua como uma andorinha.
Tive um movimento de desespero, mas a seguir tive outro de

contentamento. o barco andou de roda, virou-se de flanco para
mim, e continuou a rodar at cobrir metade da distncia que
nos separava, depois, dois teros, e, por fim, trs quartos.
Via as ondas desfeitas em espuma branca sob a sua proa.
Parecia-me imensamente alto, do plano baixssimo em que eu
estava no coracle .
De repente, comecei a compreender. Mal pude raciocinar e mal
tive tempo de agir para me salvar. Encontrava-me no cimo duma
vaga quando vi a escuna avanar sobre a que se Lhe seguia. o
gurups estava por cima da minha cabea. Finquei-me nos ps e
saltei, impelindo o coracle. Com uma das mos agarrei-me ao
pau da bujarrona, ao mesmo tempo que firmava os ps no estai;
enquanto ainda estava pendurado, a arquejar, uma pancada surda
advertiu-me de que a escuna acabava de embater no coracle e de
afund-lo. Isto deixava-me a bordo da Hispaniola sem
possibilidades de fuga.
Captulo vinte e cinco

CoMo ARRIEI A BANDEIRA DoS PIRATAS

Mal me agarrei ao gurups, a bujarrona, que pendia, bateu com
fora e foi cair do outro lado, com uma pancada seca, como um
tiro de pea. Com o estico, a escuna estremeceu at  quilha;
mas logo a seguir, como as outras velas se conservavam
esticadas, aquela agitou-se de novo, voltou para onde estava e
tornou a ficar pendurada.
Estive a ponto de ser atirado ao mar; por isso no perdi
tempo, tornei a rastejar pelo gurups e ca de bruos no
convs.
Encontrava-me a sotavento do castelo da proa, e a vela mestra,
que se conservava aberta, ocultava-me parte da coberta da r.
No se via vivalma. os pavimentos, que no eram esfregados
desde a sublevao, tinham inmeras pegadas, e uma garrafa
vazia, partida pelo gargalo, rolava nos trincanises de c para
l, como se tivesse vida.
De repente a Hispaniola chegou-se ao vento. As velas grandes
rangeram por trs de mim; o leme bateu, igualmente, com fora.
Todo navio estremeceu num esforo enorme e, nesse mesmo
momento, a verga do mastro grande deu uma volta para dentro,
com a escota a gemer nos noites, e descobriu-me o tombadilho
a sotavento.
Eram os dois guardas que estavam l, com certeza: o do barrete
vermelho, de costas, direito como um espeque, de braos
esticados como os de um crucifixo e mostrando os dentes pelos
lbios entreabertos; Israel Hands estava cado de encontro aos
fileretes, com a barba em cima do peito, de mos para a
frente, espalmadas no convs, plido de cera, apesar de
crestado.
Por um bocado, o navio cabriolou de esguelha, como um corcel
fogoso, com as velas a bater ora para um
lado, ora para outro, e a verga cada a oscilar de c para l
at o mastro gemer sob o ltego. De vez em quando, uma nuvem
de borrifos finos invadia, tambm o pavs e o talha-mar
embatia violentamente contra as ondas; o vento forte podia
fazer-se sentir muito mais neste barco grande e aparelhado do
que no coracle, toscamente feito de troncos de rvore, que
estava agora no fundo do mar.
A cada salto da escuna, o homem do barrete encarnado resvalava

de c para l; e o que era impressionante de ver  que nem a
sua atitude, nem o trejeito da sua boca, entremostrando os
dentes, sofriam a menor alterao, apesar da violncia dos
impulsos. Hands, por seu turno, a cada balano parecia
afundar-se ainda mais em si mesmo e colar-se mais ao convs,
os ps a escorregarem para diante e o corpo todo virado para
trs, de maneira que a pouco e pouco a cara dele ia-me ficando
encoberta, at que por fim j no Lhe via nada alm de uma
orelha e de uma ponta das suas.
Ao mesmo tempo, notei que no cho, em volta deles, havia
manchas de sangue enegrecido e comecei a convencer-me de que
se tinham matado um ao outro na fria da bebedeira.
Enquanto eu estava a ver tudo isto, cheio de espanto, num
momento mais calmo em que o navio ficou quieto, Israel Hands
deu uma volta e, com um gemido rouco, endireitou-se e voltou 
posio em que eu o vira primeiro. Esse gemido, que traduzia
sofrimento e fraqueza mortal, e a forma como o maxilar Lhe
pendia golpeado, calaram no meu corao. Porm, recordei-me da
conversa que surpreendera na barrica das maas e deixei de ter
pena.
Fui avanando at chegar ao mastro real.
--Volte para bordo, senhor Hands--disse com ironia.
Relanceou um olhar em volta, pesadamente, mas estava
transtornado em demasia para exprimir surpresa. Tudo o que fez
foi articular uma palavra:
--Aguardente.
Compreendi que no havia tempo a perder e, furtando-me  verga
que, uma vez mais, varria a coberta, corri pela escada da
meia-laranja e entrei na cabina.
Mal pode imaginar-se a confuso que ali fui encontrar. Tudo
quanto estava fechado  chave fora arrombado em busca do mapa.
o cho tinha uma camada de sujidade nos stios em que os
bandoleiros se sentavam para beber ou conferenciar, depois de
tem andado a patinhar nos pntanos que havia em volta do
acampamento deles. os tabiques, todos pintados de claro, com
festes dourados, tinham marcas de mos sujas. Aos cantos,
dzias de garrafas vazias tiniam umas contra as outras com os
balanos do navio. Um dos livros de medicina do doutor jazia
aberto em cima da mesa, com metade das folhas arrancadas,
julgo que para acenderem os cachimbos. E no meio de tudo isto,
o candeeiro continuava a derramar uma claridade fumarenta,
mortia e baa como tinta terrosa.
Desci  garrafeira, os barris tinham-se ido todos e era
prodigioso o nmero de garrafas bebidas e atiradas fora. Com
certeza que desde o comeo da rebelio nunca mais nenhum homem
daqueles deixara de estar brio.
Procurando por ali, encontrei uma garrafa com aguardente para
Hands; para mim, agarrei nuns biscoitos, fruta de conserva, um
grande cacho de uvas e um pedao de queijo. Voltei com isto
para a coberta, pus as minhas provises por trs da roda do
leme, fora do alcance do contramestre, dirigi-me para a proa,
fui ao depsito beber demoradamente, e s depois disto levei a
aguardente a Hands.
Quando ele retirou a garrafa da boca, devia ter bebido uma boa
dose.
--Muito bem!--disse ele.--Com todos os diabos, precisava
disto.
Eu tinha-me sentado no meu canto e comeara a comer.

--Ento est muito arrombado?--perguntei.
Teve um grunhido, ou, para melhor dizer, um ronco. --Se esse
doutor estivesse a bordo, punha-me direito em dois tempos e
trs movimentos; mas no tenho essa sorte e a  que est o
meu mal. Com respeito a este marmanjo, est morto e bem morto
-- acrescentou, apontando para o homem do barrete
vermelho.--Seja como for, no era o que se chama um bom
marujo. E tu, donde diabo vieste?
--olhe--respondi--, vim a bordo para tomar posse deste navio,
senhor Hands, e at nova ordem  favor olhar-me como seu
comandante.
olhou-me com bastante dureza, mas no disse nada. Tinha-lhe
voltado alguma cor s faces, embora ainda parecesse muito mal
e continuasse a escorregar e a agarrar-se ao cho quando o
navio era sacudido.
--A propsito, senhor Hands--continuei --, no posso conservar
este pavilho e vou arri-lo j, com sua licena. Mais vale
nenhum do que este.
Evitando, outra vez, a verga cada, corri s drias do
pavilho, arriei a maldita bandeira negra e atirei-a pela
borda fora.
--Deus salve o rei!--exclamei, agitando o bon no ar.--E acabe
com o capito Silver!
Hands observava-me com olhar penetrante e dissimulado, sempre
de queixo no peito. Por fim, disse-me:
--Capito Hawkins, acho que h-de precisar agora de ir para
terra. Podemos conversar.
--Pois sim--volvi eu--, com todo o gosto, senhor Hands. Diga
l.
E voltei  minha refeio com ptimo apetite.
--Este homem -- principiou ele, fazendo com a cabea um leve
sinal na direco do cadver--chamava-se o'Brien, um belo
irlands. este homem e eu demos pano ao barco na inteno de
voltar para trs. ora ele agora est morto, morto como um pau,
e no sei quem  que h-de fazer andar o navio. Sem te dar
umas luzes, acho que no s homem para isso. Portanto olha
l, vais dar-me de comer e de beber e uma tira de pano ou um
leno velho para ligar a ferida; e eu vou dizer-te como deves
conduzir o navio;  justo, acho eu.
--Vou dizer-lhe uma coisa--respondi.--No quero voltar ao
ancoradouro do capito Kidd. A minha inteno  entrar na
angra do Norte e deixar o barco a quietinho.
--Est combinado--bradou ele.--Apesar de tudo, ainda no sou
assim to mau como isso. Sei ver as coisas, no  verdade?
Perdi a partida, pronto! L isso perdi e agora tens-me na mo.
Queres ir para a angra do Norte? Quem no pode escolher sou
eu. Vou ajudar-te a levar o navio para o cais das Execues,
com mil diabos! Mas vou faz-lo.
Isto pareceu-me sensato. Firmmos o nosso contrato
imediatamente. Em trs minutos eu punha a Hispaniola a navegar
prontamente adiante do vento, ao longo da costa da ilha do
Tesouro, com todas as esperanas de dobrar a ponta do norte
ainda antes do meio-dia e de chegar  angra do Norte antes da
preia-mar, onde podamos varar a embarcao com segurana e
aguardar que a vazante nos permitisse desembarcar.
Amarrei ento a cana do leme e fui l abaixo,  minha mala,
buscar um leno de seda fina, da minha me. Com a minha ajuda,
Hands ligou o grande golpe sangrento que recebera na coxa e,

depois de ter comido alguma coisa e de ter engolido mais um ou
dois tragos de aguardente, comeou a refazer-se a olhos
vistos, ps-se mais direito, a falar mais alto e mais claro e
a parecer em tudo outro homem.
A brisa favorecia-nos admiravelmente. Vovamos adiante dela
como um pssaro, com a costa a passar por ns como um
relmpago e o panorama a modificar-se de minuto a minuto.
Depressa passmos as terras altas e deslizmos ao longo de um
terreno baixo e arenoso, onde aqui e ali se viam alguns
pinheiros anes, que logo ficaram para trs, e contornmos o
ngulo da colina rochosa. onde a ilha termina ao norte.
Sentia-me orgulhoso do meu novo poder e encantado com o tempo
esplendoroso de sol e as perspectivas diferentes deste lado da
costa. Tinha agora fartura de gua e de coisas boas para comer
e a minha conscincia, que me roera duramente pela minha
desero, tranquilizara-se com a grande conquista que fizera.
E creio que nada mais me inquietaria, se no fossem os olhos
do contramestre a seguirem-me, escarninhos, pelo convs
e o sorriso singular que Lhe aparecia continuamente no rosto.
Um sorriso que a um tempo era algo de sofrimento e de
imbecilidade--o sorriso de um velho endurecido; mas, alm
disso, havia um ar de zombaria, uma sombra de traio na
expresso com que ele me observava dissimuladamente,
vigiando-me no meu trabalho.
Captulo vinte e seis

ISReL HANDS

o vento que nos estava servindo s mil maravilhas rodara agora
para oeste. Assim podamos facilmente correr da ponta nordeste
da ilha para a embocadura da angra do Norte. Somente no
podamos ancorar nem nos atrevamos a varar o barco enquanto a
mar no subisse um bom bocado, e tivemos de ficar de braos
cruzados. o contramestre disse-me como havia de manter o navio
assim e depois de muitas tentativas l o consegui. E a seguir
a outra refeio, ambos ficmos em silncio.
--Capito--disse ele, por fim, com o mesmo sorriso
desagradvel --, aqui est o meu antigo camarada o'Brien;
creio que s capaz de p-lo pela borda fora. No  que isso
s*a da praxe nem se me d que ele para a fique; mas acho que
no faz a nada, no te parece?
--No tenho fora para isso nem a tarefa me agrada; por mim,
fica muito bem onde est--respondi.
--Isto  um navio desgraado, a Hispaniola, Jim-prosseguiu
ele, piscando os olhos. --J mataram um poder de homens da
Hispaniola. Foi uma mancheia de infelizes marinheiros que
morreram ou desapareceram desde que tu e eu embarcmos em
Brstol. Nunca vi uma sorte to negra, nunca! Havia este
o'Brien, mas agora est morto, no est? ora eu no sou nenhum
menino da escola e tu s um rapaz que sabe ler e fazer contas;
pois ento pe l isto a claro: no teu entender um morto est
morto para sempre ou pode tornar a viver?
--J deve saber que voc pode matar o corpo. senhor Hands, mas
no mata o esprito --repliquei-lhe. -o'Brien est no outro
mundo e pode ser que esteja a observar-nos.
--Ah!--fez ele.--Mas isso  uma desgraa, por
ento, matar os parceiros  perder tempo. Seja como for,
parece-me que os espritos no valem l grande coisa. Hei-de

experimentar os espritos, Jim. E agora que falaste com
franqueza, gostava que fosses ali abaixo  cmara e me
trouxesses... um... bem, um... raios me partam! No sou capaz
de Lhe dar com o nome. ora bem, vais buscar-me uma garrafa de
vinho, Jim, que esta aguardente aqui  forte de mais para a
minha cabea.
ora a hesitao do contramestre no me parecia natural e
quanto  sua preferncia por vinho em vez de aguardente no
acreditava nele de modo algum. Toda aquela histria no
passava de um pretexto. o que ele queria era que eu
abandonasse o convs, estava mais que visto; com que fim, 
que eu nem sequer podia imaginar. os olhos dele no se
encontravam nunca com os meus, saltitavam de um lado para o
outro, ora para cima, ora para baixo, fitando agora o cu,
passando logo de relance sobre o cadver de o'Brien.
Conservara-se sempre sorrindo, com a lngua de fora, como se
estivesse embaraado e culposo, de tal forma que at uma
criana saberia dizer que ele tinha a sua fisgada.
Todavia, respondi-lhe prontamente, porque vi o partido que
podia tirar; com um parceiro to crassamente estpido, podia
encobrir com facilidade as minhas suspeitas at ao fim.
--Quer, ento, vinho?--disse-lhe. --Tanto melhor. Branco ou
tinto'?
--ora, isso para mim  o mesmo, camarada--replicou. --Seja ele
forte e esteja a garrafa cheia, o mais no interessa.
--Muito bem--respondi. --Vou trazer-lhe Porto, senhor Hands. o
que tenho  de ir procur-lo.
Dizendo isto, meti pela escada do tombadilho abaixo com todo o
barulho que pude, tirei os sapatos, corri em silncio ao longo
do corredor estreito, subi pela escada do castelo de proa e
pus precipitadamente a cabea fora
da escotilha. Sabia que ele nunca esperaria ver-me ali, mas
tomei todas as precaues possveis; e o certo  que se provou
que as minhas terrveis suspeitas eram mais do que
justificadas.
o homem levantou-se da posio em que estava e apoiou-se nas
mos e nos joelhos; e apesar de a perna ferida o incomodar
profundamente quando se mexia-tanto que o ouvi sufocar um
gemido--, ainda assim arrastou-se depressa pelo convs. Em
meio minuto chegara aos trincanises de bombordo e sacava de um
rolo de cabo uma longa faca, ou antes, uma espcie de punhal
curto, tinto de sangue at ao cabo. Examinou-o um momento,
estendendo para diante o maxilar inferior experimentou-lhe a
ponta na mo e depois, ocultando-o com rapidez no peito, por
baixo do casaco, voltou outra vez para o lugar onde estava,
encostado  amurada.
Era tudo quanto eu queria saber. Israel podia agora mexer-se 
vontade--estava armado e, se ele se esforava tanto por ver-se
livre de mim, era evidente que seria eu a vtima. Que faria
depois? Iria tentar atravessar de rastos a ilha desde a angra
do Norte at ao acampamento no meio dos pntanos, ou
dispararia um tiro do Grande Tom, na esperana de que os seus
camaradas viessem ajud-lo? Isso  que eu no podia saber.
Num ponto estava eu certo que podia confiar nele, visto que os
nossos interesses se conjugavam: era no que dizia respeito 
escuna. Ambos desejvamos encalh-la, com a necessria
segurana, em local protegido, para depois, na altura prpria,
podermos saf-la de novo, com o menor trabalho e o menor risco

possveis; at que Isto se conseguisse, achava eu que a minha
vida seria, decerto, poupada.
Enquanto assim dava voltas  questo na minha cabea, o meu
corpo no estava parado. Escapuli-me outra vez para a cabina,
enfiei os sapatos novamente e peguei ao calhar numa garrafa de
vinho e depois, com esse pretexto, tornei a aparecer na
coberta.
Hands continuava tal como eu o tinha deixado, todo derreado,
numa trouxa, com as plpebras descadas, como se estivesse to
fraco que no pudesse suportar a luz. No entanto,  minha
chegada, olhou para cima, ps a garrafa  boca, como quem
segue um velho hbito e engoliu um bom trago com a sua
saudao favorita:
--Que fortuna!
Ficou quieto um momento e depois, puxando de um rolo de
tabaco, pediu-me que Lhe cortasse um bocado para mascar.
--Corta-me a um pedao--disse--, porque no tenho faca e
sinto-me sem foras. Ah, Jim, Jim, que perdi os estais!
Corta-me a uma ponta, deve ser a ltima, rapaz; sinto que vou
fazer a minha ltima viagem e no devo enganar-me.
--Est bem--respondi--, j vou cortar-lhe tabaco; mas no seu
lugar, se me sentisse assim to mal, fazia as minhas oraes,
como bom cristo.
--Porque?--fez ele. --Bom, dize-me l porqu.
--Porque?!--bradei.--Ento acaba agora mesmo de falar-me na
morte, tem quebrado os seus juramentos e vivido no meio de
pecados, mentiras e sangue, neste momento tem aos seus ps um
homem que assassinou e ainda me pergunta porqu?! Para
alcanar a misericrdia de Deus, senhor Hands,  para isso!
Falara com certo calor, pensando no punhal ensanguentado que
ele escondia no bolso e com o qual, na sua malvadez,
tencionava dar cabo de mim. Ele, pelo seu lado, tomou um
grande gole de vinho e ps-se a falar com o mais
extraordinria solenidade.
--H trinta anos que cruzo os mares e vejo o que  bom e o que
 mau, o melhor e o pior, tempo bom e temporal, provises a
desaparecer, facas a avanar e o que o Diabo no quer. ora
muito bem; digo-te que nunca vi vir nada de bom da bondade.
Deitar logo abaixo  o meu ideal; homem morto no morde,  o
meu ponto
de vista; amm! assim seja. E agora, olha l--acrescentou, mudando subitamente de tom--, j dissemos tolices
bastantes. A mar est boazinha. Segue as minhas ordens,
capito Hawkins, e o navio pe-se a andar num rufo e
acabou-se.
Quando muito, teramos umas escassas duas milhas a percorrer;
mas a navegao ali era difcil; o acesso  enseada do norte
era no s estreito e baixo, como sinuoso, com baixios a leste
e oeste, de forma que a escuna tinha de ser muito bem
manobrada para poder avanar por ele. Posso dizer que me
portei como um bom e rpido subordinado e tenho a certeza de
que Hands era um excelente piloto, porque fomos singrando,
furtando-nos aos bancos de areia e roando por eles com tal
certeza e percia que era um prazer ver.
Mal ultrapassmos as pontas de areia, vimo-nos cercados de
terra. As margens da angra do Norte eram to espessamente
arborizadas como as do ancoradouro do sul; a sua superfcie,
porm, era mais comprida e mais estreita, e assemelhava-se

mais ao esturio de um rio, o que era, na verdade. Mesmo na
nossa frente, no extremo sul, avistmos os destroos de um
navio em adiantado estado de destruio. Era um grande barco
de trs mastros, mas estava h tanto tempo exposto 
inclemncia dos temporais, que dele pendia, envolvendo-o todo,
uma grande teia de algas marinhas e no convs cresciam os
arbustos das margens, que at ali tinham lanado razes e
agora estavam cobertos de flores. Era um espectculo triste,
mas que nos mostrava como o ancoradouro era sereno.
--Agora, olha l--disse Hands--, aqui est um bocado jeitoso
para se encalhar um navio. Areia fina e abundante, sem aragem
e rvores em toda a volta e flores a abrir naquele barco velho
como se fosse um jardim .
--E uma vez o barco encalhado--indaguei eu-como  que o
safamos depois.
--Muito simples--replicou ele.--Na mar baixa

 n

atiras um cabo para terra pelo outro lado e ds-lhe uma volta
num daqueles pinheiros grandes; depois traze-lo para aqui
outra vez, ds-lhe outra volta  roda do cabrestante e
deixa-se ficar  espera da mar. Quando a mar encher, puxam
todos pelo cabo e o barco safa-se com a maior naturalidade. E
agora, meu rapaz, aguenta. J estamos perto do stio e o barco
est a avanar de mais. Um pouco a estibordo, assim, firme! A
estibordo, um pouco a bombordo, firme! Firme!
Conforme ele dava as ordens, eu executava-as, ofegante, sem
perder um segundo. De sbito ele gritou:
--Agora, meu rapaz, forca!
Sustive o leme com toda a fora e a Hispaniola deu uma volta
rpida e correu de proa para a margem baixa e coberta de
rvores.
o nervosismo destas ltimas manobras impediu-me um tanto de
exercer a vigilncia enrgica que mantivera at ali sobre o
contramestre. A minha ateno, mesmo, estava to concentrada,
 espera de sentir o navio tocar no fundo, que esquecera
completamente o perigo que pendia sobre a minha cabea, e
conservava-me de p, debruado no parapeito de estibordo, a
ver a efervescncia das ondas que se estendiam largamente 
frente do talha-mar. Teria baqueado sem defender a vida, se
uma inquietao, sbita no se tem apoderado de mim,
fazendo-me voltar a cabea. Talvez porque tivesse ouvido
qualquer rangido ou tivesse visto, pelo canto do olho, a
sombra dele a mexer-se, ou, talvez, por um sentimento
instintivo, como o do gato, o certo  que, quando olhei 
minha volta, dei com Hands j a meio da distncia que o
separava de mim, com o punhal na mo direita .
Ambos soltmos decerto um grito estridente quando demos de
cara um com o outro, mas enquanto o meu foi um grito agudo de
terror, o dele foi uma praga de furor semelhante ao mugido de
um touro a arremeter. No mesmo instante ele atirou-se para a
frente, e eu dei um
salto para o lado, na direco da proa. Ao fazer este
movimento larguei a cana do leme, que saltou violentamente
para sotavento. Creio que foi isto que me salvou a vida,
porque Hands foi atingido em pleno peito e, por momentos,
deteve-se, aturdido.

Antes de ele se refazer, j eu me escapara do canto onde me
tinha encurralado e passara a ter o convs todo para Lhe
fugir. Parei justamente em frente do mastro grande, tirei uma
pistola do bolso e, com todo o sangue-frio, apesar de o homem
se ter voltado, uma vez mais, para mim, puxei o gatilho. o co
disparou mas no produziu chama nem detonao; a escorva
inutilizara-se com a gua salgada. Amaldioei-me a mim prprio
pela minha negligncia. Porque  que eu no escorvara j nem
carregara de novo as nicas armas que possua? Desde aquele
momento era um mero carneiro que fugia  frente do magarefe.
Era espantoso como ele podia mover-se com tanta rapidez,
ferido da maneira que estava, com o cabelo grisalho a cair-lhe
para a cara, to encarnada como um pimento, na nsia do
rancor. No tive tempo de experimentar a outra pistola, nem,
na verdade, senti desejo de faz-lo, certo, como estava, de
que ela se inutilizara igualmente. Uma s coisa via com
clareza: eu no podia fugir apenas diante dele, porque
depressa me encurralaria  proa, como momentos antes me
encurralara  r. Uma vez apanhado, nove ou dez polegadas do
punhal ensanguentado dar-me-iam a minha ltima experincia
nesta vida. Espalmei as mos de encontro ao mastro real, que
tinha uma boa grossura, e aguardei, com os nervos todos em
tenso.
Vendo o que eu pretendia, ele parou tambm; e uns momentos se
passaram, com tentativas da parte dele e movimentos
correspondentes da minha. Era uma espcie de jogo em que eu
tantas vezes me entretivera na terra natal, perto das rochas
da enseada da Colina Preta, jamais, porm, com o corao a
palpitar to descompassadamente como agora. Bem sei que era um divertimento de
garotos, mas que achava que podia levar a melhor com um
marinheiro velho e ferido numa coxa. De facto, a minha coragem
subira a tal ponto que me pus a fazer algumas conjecturas
rpidas sobre o fim que aquilo teria; e enquanto eu ganhava a
certeza de poder prolongar a coisa por muito tempo, no via a
menor esperana de uma escapadela definitiva.
ora enquanto isto se passava a Hispaniola, bruscamente,
embateu em qualquer coisa, oscilou, arrastou-se um instante na
areia, e a seguir, com a rapidez de um sopro, tombou para
bombordo, at o convs formar um ngulo de quarenta e cinco
graus, e uma massa de gua entrou pelos embornais, deixando um
lago entre a coberta e a amurada.
Num segundo, ambos fomos envolvidos e rolmos, quase juntos,
para os trincanises; o morto com o barrete encarnado, sempre
de braos abertos, veio cair, obtusamente, em cima de ns.
Ficmos, realmente, to perto, que a minha cabea foi bater
nos ps do contramestre com rudo e os meus dentes
matraquearam. Mesmo contuso e tudo, fui o primeiro a pr-me de
p outra vez, porque Hands estava embaraado com o cadver. A
repentina inclinao do navio pusera o convs incapaz de se
correr nele, mas eu encontrara um novo meio de fuga, que logo
pus em prtica, porque o meu inimigo estava quase a tocar-me.
Rpido como o pensamento, saltei para a enxrcia da mezena,
trepei a pulso por ela e no respirei enquanto no me vi nas
cruzetas do cesto de gvea.
A minha salvao foi ter sido to rpido: o punhal fora
arremessado e cravara-se a menos de meio p abaixo de mim, na
ocasio em que decidi amarinhar; e Israel Hands l estava, de

cara voltada para mim, com a boca escancarada, imagem perfeita
da surpresa e do desapontamento .
Agora que eu podia respirar um momento, tratei de
mudar a escorva da pistola sem perda de tempo e d .pois, tendo
uma pronta a servir, procedi  descarga  la outra e tornei a
carreg-la toda, para me defender melhor.
A minha nova tarefa encheu Hands de espanto; compreendeu que o
jogo comeava a ser-lhe adverso e, depois de hesitar, iou-se
tambm aos ovns, pesadamente, e com o punhal na boca comeou
a subir com lentido e esforo. A ascenso era vagarosa e, ao
arrastar aps a si a perna ferida, gemia, dando-me tempo de
acabar os meus preparativos antes de ele estar a pouco mais de
um tero da subida. Ento, empunhando uma pistola em cada mo,
bradei-lhe:
--Um passo mais, senhor Hands, e fao-lhe saltar os miolos!
Bem sabe que os mortos no mordem... -acrescentei, com uma
risada.
Ele parou imediatamente. Pelo jogo da sua fisionomia, vi que
procurava reflectir, mas este trabalho decorria com tal demora
e fadiga que eu, no meu novo abrigo de defesa, soltei uma
gargalhada estridente. Por fim, engolindo em seco umas duas
vezes, comeou a falar, tendo ainda estampada nas faces a
mesma expresso de perplexidade. Para poder falar, tirara o
punhal da boca, mas, assim mesmo, continuou imvel.
--Jim -- disse ele --, em meu entender estamos doidos, tanto
tu como eu, e temos de fazer as pazes. Podia fazer de ti o que
quisesse se o barco no tem tombado, mas no tive sorte;
confesso que tenho de amainar as velas, o que  duro, hs-de
concordar, para um mestre marinheiro, em frente de um grumete
como tu, Jim.
Eu bebia-lhe as palavras e continuava a sorrir, vaidoso como
um galo empoleirado num muro, quando, num abrir e fechar de
olhos, ele levou a mo direita atrs e depois elevou-a acima
do ombro. Algo silvou no ar como uma flecha: senti um golpe e
a seguir uma dor aguda e percebi que estava pregado ao mastro
pelo ombro. Com a dor horrvel que senti e com a surpresa do
momento--mal posso dizer se foi por minha vontade, mas estou
certo que foi inconscientemente--, as duas pistolas que eu
empunhava dispararam-se e escaparam-se-me das mos. Porm, no
caram sozinhas: dando um grito rouco, o contramestre largou
os ovns e mergulhou na gua, de cabea para baixo.

Captulo vinte e sete

PEAS DE oITo!

Devido  inclinao do barco, os mastros tinham ficado
tombados para a gua; eu continuava empoleirado no cesto de
gvea e por baixo de mim no havia seno a superfcie da baa.
Hands, que no chegara a subir tanto, estava, por
consequncia, mais perto do navio e caiu entre mim e a
amurada. Ainda veio uma vez ao de cima, num turbilho de
espuma e de sangue, mas depois submergiu-se para sempre.
Conforme a gua foi serenando, pude v-lo estendido na areia
fina e brilhante,  sombra do costado do navio. Um peixe
passou velozmente por cima do seu corpo. As vezes, no frmito
da gua, parecia mesmo que se mexia um pouco e que tentava
levantar-se. Porm, estava morto e bem morto, atravessado por

uma bala e coberto de gua, a servir de pasto aos peixes,
precisamente no lugar que ele me destinara.
Ao vir-me esta ideia, comecei a sentir-me desfalecer,
aterrorizado. o sangue quente corria-me pelas costas e pelo
peito. o punhal, no stio em que se cravara no meu ombro,
pregando-me ao mastro, era como um ferro escaldante; mas no
era bem este sofrimento o que mais me afligia, pois julgo que
eu o suportaria sem um murmrio; era o horror, que me enchia a
mente, de vir a cair do cesto de gvea naquela gua esverdeada
e serena, ao lado do corpo do contramestre.
Agarrei-me com ambas as mos at sentir as unhas a doer-me e
fechei os olhos para no ver o perigo. Pouco a pouco a minha
imaginao acalmou-se, o pulso aquietou-se num ritmo mais
natural e eu dominei-me outra vez.
A primeira ideia foi arrancar o punhal; mas ou ele estava
muito enterrado ou os meus nervos me atraioaram, e desisti
com um estremecimento violento. o mais
singular  que esse mesmo estremecimento fez o que eu no
conseguira. Efectivamente, a arma por pouco no errara o alvo;
mantinha-me seguro apenas por um pedao de pele, que o meu
movimento fez rasgar.  certo que o sangue correu mais, mas eu
tornava a ser senhor de mim outra vez; ficara preso ao mastro
somente pelo casaco e pela camisa. Rasguei-os com um puxo
brusco e depois voltei para o convs pelo ovns de estibordo.
Impressionado como estava, por nada deste mundo tornaria a
aventurar-me de novo a suspender-me dos ovns de bombordo, de
onde Israel acabava de cair.
Chegado l abaixo, tratei do ferimento conforme pude; fazia-me
sofrer um bocado e continuava a deitar sangue, mas no era
fundo nem grave, nem me incomodava muito quando mexia o brao.
Depois pus-me a olhar em volta e como o navio agora, para
assim dizer, estava por minha conta, pensei em desembara-lo
do seu derradeiro passageiro--o cadver de o'Brien.
Como j disse, tinha ficado de encontro ao anteparo da
amurada, onde jazia como uma espcie de ttere horrvel e
grotesco, de tamanho natural,  facto, mas no diferente na
cor e na atitude! Na posio em que ele estava, podia mov-lo
facilmente, e com a continuao das minhas trgicas aventuras
eu quase perdera todo o temor da morte; peguei-lhe, pois, pela
cintura, tal como pegaria numa saca de smeas, e, com bastante
esforo, lancei-o ao mar. Afundou-se ruidosamente; o barrete
vermelho veio  tona de gua e ficou a boiar; assim que a gua
voltou a serenar, vi-o deitado ao lado de Israel, ambos
confusos pelo trmulo movimento das guas. Embora ainda fosse
novo, o'Brien era muito careca. L ficou, com a cabea calva
atravessada nos joelhos do homem que o matara, enquanto os
peixes rpidos nadavam de um lado para o outro por cima dos
dois.
Eu estava agora sozinho no barco. A mar mudara. o Sol estava
a to poucos graus do poente, que a sombra dos pinheiros se
estendia j sobre esse lado da costa
e comeava a prolongar-se at  enseada e a cair aos traos no
convs. Levantara-se a brisa nocturna e, apesar do abrigo da
colina de dois picos, que se erguia a leste, o cordame
principiou a cantar baixinho e as velas inteis a zumbir e a
adejar de c para l.
Comecei a ver que o barco estava em perigo. Soltei prontamente
as escotas das bujarronas e arrastei-as para o convs; a vela

mestra, porm, era coisa mais difcil. De resto, quando a
escuna tombara, a verga saltara para fora, e agora o topo, com
um ou dois ps de vela, mergulhava mesmo dentro de gua. Isto
era ainda mais perigoso; a vela estava to pesada para se
puxar, que tive medo de meter ombros  tarefa. Por fim,
resolvi pegar na faca e cortar as adrias. o penol caiu
imediatamente e um grande bojo de lona solta flutuou 
superfcie; depois, por mais que fizesse no consegui pux-la
para bordo e tudo o que logrei fazer foi estend-la ainda mais
na gua. o nico recurso era a Hispaniola ficar  merc da
sorte, assim como eu.
Nesta altura j o ancoradouro todo estava mergulhado na sombra
e lembro-me de que os ltimos raios de luz, coando-se atravs
de um intervalo das rvores, resplandeciam como jias
fulgurantes no manto florido do navio naufragado. Comeava a
arrefecer; a mar escoava-se rapidamente para o mar e a escuna
tombava cada vez mais sobre a ncora.
Trepei um pouco e observei a superfcie. A gua parecia
bastante baixa; suspendendo-me com ambas as mos, para maior
segurana, da guindaleta que eu cortara, deixei-me escorregar
docemente para o mar. A gua mal me dava pela cintura; a areia
estava firme e coberta de sinais da ondulao e eu fui
chapinhando para terra na melhor disposio de esprito
deixando a Hispaniola de flanco, com a vela mestra a boiar,
aberta, ao de cima da baa. Quase ao mesmo tempo o Sol
desapareceu no ocaso, enquanto a brisa sussurrava baixinho, no
lusco-fusco, por entre os pinheiros agitados.
Finalmente estava fora do mar, mas no voltava dele com as
mos vazias. Deixava l a escuna limpa, enfim, de piratas e
pronta para os nossos homens irem para bordo e fazerem-se
novamente ao mar. No ambicionava agora mais nada do que
regressar  estacada e sentia-se orgulhoso das minhas
faanhas. Provavelmente iam repreender-me um bocado por me ter
escapado, mas a recuperao da Hispaniola responderia por mim
e eu esperava que at o capito Smollett havia de confessar
que eu no perdera o meu tempo.
Raciocinando assim, bem-disposto, comecei a caminhar na
direco da fortificao e dos meus companheiros. Lembrei-me
que, dos ribeiros que desguam no ancoradouro do capito Kidd,
o que ficava mais a leste era o que corria da colina de dois
picos,  minha esquerda. orientei, pois, o meu rumo naquela
direco, para poder atravessar a corrente onde ela fosse mais
pequena. o bosque ali era aberto e, seguindo ao longo dos
contrafortes da montanha, depressa a contornei e pouco depois
atravessava o curso de gua, molhando-me at ao meio da perna.
Assim cheguei perto do stio onde encontrara Ben Gunn, o
abandonado. Fui andando mais cautelosamente, com um olho para
cada lado. A noite cerrara-se por completo e, logo que
transpus a garganta entre os dois picos, chamou-me a ateno
um brilho trmulo que se projectava no cu. Pensei que era o
homem da ilha que estivesse a preparar a ceia numa fogueira
crepitante. Fiquei admirado por ele ser to desacautelado.
Porque se eu via aquele resplendor, no podia ele chegar
tambm aos olhos de Silver, no stio em que acampava, no meio
dos pntanos?
A pouco e pouco, a escurido da noite foi aumentando; mal
podia orientar-me, mesmo com esforo, na direco que desejava
seguir; a colina dupla, que me ficava atrs, e o Telescpio, 

minha direita, cada vez se divisavam menos; as poucas estrelas
que havia brilhavam palidamente; c em baixo, no cho por onde eu ia vagueando,
esbarrava nos arbustos e resvalava em covas de areia.
De repente, vi perto de mim certa claridade. olhei para cima:
um vislumbre plido de luar comeava a luzir no cume do
Telescpio e pouco depois avistava, ao longe, qualquer coisa
argntea que se movia rente  terra, por trs das rvores: a
Lua subia.
Com este auxlio avancei rapidamente no caminho que ainda me
faltava, e umas vezes andando, outras correndo, impaciente,
cheguei prximo da estacada. Logo que principiei a atravessar
o arvoredo que Lhe ficava em frente, tornei-me mais cauteloso,
afrouxei o passo e avancei com um pouco de prudncia. Seria
acabar tristemente as minhas aventuras se os meus prprios
amigos, por equvoco, me atingissem com um tiro.
A Lua elevava-se cada vez mais e a sua luz comeava a cair a
jorros aqui e ali, atravs dos pontos menos espessos do
bosque, e precisamente diante de mim vi aparecer um claro de
cor diferente por entre as rvores. Era vermelho e ardente e
de vez em quando obscurecia-se um tanto--como se fosse o
brasido duma fogueira a esmorecer.
No podia imaginar o que seria aquilo. Por fim, cheguei mesmo
aos limites da clareira. o extremo ocidental estava j
inundado de luar, mas o resto, assim como a fortificao,
estava ainda imerso em sombra, marchetado de longas estrias de
luz prateada. Do outro lado da cabana uma imensa fogueira
tinha-se convertido num braseiro transparente e espalhava em
torno uma reverberao vermelha e viva, que contrastava
violentamente com o suave calor da Lua. No havia vivalma, nem
se ouvia um som, alm do murmrio da brisa.
Estaquei com o corao cheio de espanto e talvez, tambm, de
algum terror. No era nosso costume acender fogueiras; ramos,
at, um tanto avarentos com a lenha, por ordem do capito, e
eu comeava a temer que
algo de mau se tivesse passado durante a minha ausncia.
Contornei furtivamente o extremo leste, mantendo-me oculto na
sombra, e num stio propcio, onde a escurido era mais densa,
transpus a paliada.
Para maior segurana, pus-me de gatas e arrastei-me, sem um
rudo, para a esquina da barraca. A medida que me aproximava,
uma grande alegria iluminou repentinamente o meu corao.
ouvia-se agora um rudo que no era positivamente agradvel e
que bastas vezes me fizera queixar noutras ocasies, mas
naquela altura era para mim como uma msica ouvir os meus
amigos ressonarem todos alto e placidamente, enquanto dormiam.
o grito martimo do homem de quarto no seu aprazvel "tudo vai
bem" no me teria soado aos ouvidos mais confortadoramente.
Entretanto, de uma coisa eu no tinha dvidas: mantinham uma
vergonhosa e pssima vigilncia. Se fosse Silver e os seus
homens que por ali rastejassem agora, nem um s dos nossos
veria a aurora despontar. Era o que fazia o capito estar
ferido, ia eu pensando; e tornei a censurar-me asperamente por
os ter deixado naquele perigo, com to pouca gente para fazer
guarda.
Nesta ocasio, j tinha chegado  porta, pondo-me de p. L
dentro tudo estava escuro, to escuro que no pude distinguir
nada com o olhar. Continuava a no se ouvir outro rumor alm

do ressonar forte e um pequeno rudo intermitente, uma espcie
de adejar ou de espicaar que no havia maneira de perceber o
que fosse.
De braos estendidos para a frente, entrei resolutamente. Ia
deitar-me no meu lugar (pensava eu, a rir-me em silncio) e
havia de gozar e divertir-me com a cara deles quando dessem
comigo de manha.
Bati com o p numa coisa mole, a perna de um dos dorminhocos,
que se voltou e resmungou, mas no acordou .
E, de sbito, uma voz estrdula rompeu na escurido:
--Peas de oito! Peas de oito! Peas de oito! Peas
de oito! Peas de oito!--e assim por diante, sem pausa nem
mudana, como um moinho irritante.
Era o Capito Filinfo, o papagaio verde de Silver! Era ele que
eu ouvira debicar num bocado de cortia; era ele que se
mantinha de sentinela melhor do que qualquer ser humano e
assim anunciava a minha chegada com o seu enfadonho
estribilho.
No tive tempo, sequer, de refazer-me da surpresa. A voz aguda
e cortante do papagaio, os que dormiam acordaram de um salto;
e, com uma praga poderosa, a voz de Silver bradou:
--Quem vem l?!
Voltei-me a correr, esbarrei violentamente com algum,
retrocedi e fui cair nos braos de outro, que os fechou e me
apertou.
--Traz um archote, Dick!--ordenou Silver, quando teve a
certeza de eu estar preso.
Um dos homens saiu da barraca e voltou prontamente com um
tio a arder.
Sexta Parte

o CAPITo SILVER
Captulo vinte e oito

No CAMPo Do INIMIGo

o resplendor avermelhado do archote, iluminando o interior da
fortificao, mostrou-me que as minhas piores apreenses se
tinham realizado. os piratas estavam de posse da cabana e das
provises; ali estava o barril do conhaque, a carne de porco,
o po e tudo o mais, e o que aumentava dez vezes o meu horror
era no haver nem um sinal de qualquer prisioneiro. No podia
deixar de presumir que tinham sucumbido todos e o meu corao
sangrava dolorosamente por no ter estado ali para morrer com
eles.
Ao todo havia agora seis piratas; mais nenhum ficara com vida.
Cinco estavam de p, de caras vermelhuscas e opacas,
bruscamente despertos do primeiro sono da bebedice. o sexto
soerguera-se apenas num cotovelo; estava mortalmente plido e
a ligadura tinta de sangue que Lhe envolvia a cabea
demonstrava que fora ferido recentemente e que ainda mais
recentemente fora pensado. Recordei-me do homem que durante o
ataque grande fora atingido com um tiro e que voltara a correr
para o bosque; era ele, sem dvida.
o papagaio estava no ombro de Joo Grande a arranjar as penas.
Ele prprio pareceu-me algo mais plido e mais carrancudo do
que o costume. Envergava ainda o belo fato de fazenda fina com
que fora desempenhar-se da sua misso de parlamentrio, mas j

num estado lastimoso, manchado de lama e rasgado pelas saras
do bosque.
--Com que ento -- disse ele --, c temos Jim Hawkins, hem?
Diabos me carreguem se eu te esperava. Mas est bem,  uma
prova de amizade.
Dizendo isto, sentou-se no barril de aguardente e comeou a
encher o cachimbo.

  I
--D-me c lume, Dick--pediu.
Acendeu bem o cachimbo com o archote, e acrescentou:
--Pronto, rapaz. Entala o archote na pilha da lenha. E vocs,
cavalheiros, deitem-se! No precisam de estar a p por causa
do senhor Hawkins; ele desculpa-os, tenho a certeza. ora
ento, Jim--e parou de fumar--, c ests. Fizeste um agradvel
surpresa ao pobre do velho Joo. Que tu eras esperto, percebi
eu logo da primeira vez que te vi; mas isto vai muito alm do
que eu esperava, isso  que vai.
Como se calcula, no dei a menor resposta a tudo isto.
Tinham-me posto de costas para a parede--e assim fiquei;
olhava Silver de frente, bastante sereno, pelo menos na
aparncia, como desejava, mas com o corao negro de
desespero.
Silver tirou umas duas fumaas do cachimbo, com toda a
tranquilidade, e depois prosseguiu:
--ora vamos l a ver, Jim, j que aqui ests vou mostrar-te o
que penso. Sempre gostei de ti, por seres inteligente e
precisamente o meu retrato quando era novo e escorreito.
Sempre desejei ter-te comigo para receberes a tua quota-parte
e vires a morrer como um perfeito cavalheiro, at que c
chegaste, meu franganote. o capito Smollett  um excelente
marinheiro, no digo que no, mas inflexvel na disciplina. "o
dever acima de tudo", diz ele, e tem razo. Agora ests livre
do capito. o prprio doutor est capaz de te comer e diz que
s um "velhaco ingrato". Ao fim e ao cabo, a histria
resume-se nisto: no podes voltar para os teus, porque eles
no te querem, e a no ser que formes um terceiro partido,
composto s por ti, ters de pr-te do lado do capito Silver.
At aqui ia a coisa bem. os meus amigos estavam vivos, pelo
menos, e conquanto eu s em parte acreditasse nas afirmaes
de Silver ao dizer-me que eles estavam furiosos comigo por
causa da minha desero. o

 ?n

que ouvira aliviara-me a alma mais do que me entristecera.
--Nada te digo quanto ao facto de estares nas nossas
mos--continuou Silver. --Apesar de aqui estares, podes
desistir. Eu sou todo pela tolerncia; nunca vi que as ameaas
dessem bom resultado. Se gostas do servio, muito bem, ficas;
se no gostas, Jim, podes responder livremente porque s bem
acolhido, camarada; e parece-me que melhor do que isto nenhum
marinheiro te dizia, com mil diabos!
--Ento tenho de responder?--perguntei com voz trmula .
Atravs de todas as ironias sentia Pender sobre mim a ameaa
da morte; tinha as faces a arder
batia-me penosamente no peito.
--Ningum te d pressa, rapaz--pronunciou Silver.-Toma l a

tua resoluo. Nenhum de ns quer atrapalhar-te, camarada;
podes crer que a tua companhia nos  muito agradvel.
--Muito bem--disse, tornando-me um pouco mais afoito--, se
posso escolher, declaro que tenho o direito de saber de que
maneira e por que motivo esto vocs aqui e onde  que param
os meus amigos.
--De que maneira?--repetiu um dos bandoleiros com um
ronco.--Isso nem o mais pintado!
--o melhor, meu amigo,  desceres os quartis das escotilhas e
no te meteres onde no s chamado--berrou Silver
desabridamente ao homem que interrompera a conversa.
E a seguir, retomando o seu tom amvel, respondeu-me:
--Senhor Hawkins, ontem, no primeiro quarto da manha, o doutor
Livesey veio com a bandeira de parlamentrio e disse: "Capito
Silver, voc foi atraioado. o navio partiu. " ora ns
tnhamos bebido uns copitos e entretnhamo-nos a cantar. Eu
nada sabia dizer. Em resumo, no tnhamos dado por isso.
Reparmos, ento, e

o corao
com um raio, o navio pusera-se a andar. Nunca vi um magote de
idiotas ficar to embrutecido como ns ficmos, eu ainda mais
do que os outros, podes crer. o doutor disse ento: "ora vamos
l combinar uma coisa." Ele e eu combinmos e aqui nos tens:
provises, aguardente, fortificao, a prpria lenha que vocs
tiveram tanto cuidado em partir, em resumo, o barco todo,
desde os cestos de gvea  sobrequilha, pertence-nos. Quanto a
eles, puseram-se ao fresco e no sei onde param.
Tornou a chupar o cachimbo tranquilamente.
--E agora no se te meta na cabea--prosseguiu-que foste
includo no nosso contrato. As ltimas palavras que trocmos
foram estas: "Quantos de vocs se vo embora?", perguntei eu.
"Quatro", disse ele, "e um est ferido. A respeito do rapaz,
que os diabos o levem! No sabemos dele, nem isso nos d
cuidado. Estamos fartos dele. " Foi isto o que disse.
--E tudo?--inquiri.
--Pois,  tudo o que posso dizer-te, meu filho! volveu Silver.
--E agora tenho de escolher?
--E agora tens de escolher,  claro.
--Est bem. No sou to tolo que no saiba j o que me espera.
Mesmo que venha o pior, pouco me importa. Tenho visto morrer
muitos desde que ando com vocs. Mas h umas coisas que Lhes
quero dizer--prossegui, j completamente excitado.--A primeira
 que a vossa situao  m: perderam o navio, perderam o
tesouro, perderam homens; fui eu! Estava na barrica das maas
na noite em que avistmos terra e ouvi-o a si, Joo, e a si,
Dick Johnson, e ao Hands, que est agora no fundo do mar, e
ainda no tinha passado uma hora j eu contava tudo o que
vocs disseram. Quanto  escuna, fui eu que Lhe cortei a
amarra, fui eu que matei os homens que vocs l tinham a bordo
e fui eu que a levei para onde nunca mais a ho-de ver. D-me
vontade de rir; desde o princpio que tenho na mo o fio desta
meada; tenho tanto medo de vocs como duma mosca. Tanto se me
d que me matem como no. S Lhes digo uma coisa: se me
pouparem e forem julgados por pirataria, o que l vai, l vai
e hei-de fazer o que puder para salv-los. Agora escolham. Se
matarem mais um, o mal  de vocs; se me deixarem com vida tm
uma testemunha para salv-los da forca.

Parei, porque, na verdade, estava exausto, e com grande
admirao minha nem um s homem se mexera: todos estavam
boquiabertos, sentados na minha frente como um rebanho de
carneiros. Aproveitando-me do espanto deles, continuei:
--E agora, senhor Silver: creio que o senhor  o melhor dos
que aqui esto, e, se as coisas enveredarem pelo pior, espero
que me faa o favor de informar o doutor da atitude que tomei.
--No me esquecerei--disse Silver, com um acento tal que, por
minha f, no pude concluir se ele se ria do meu pedido, ou se
a minha coragem o impressionava favoravelmente .
--E ainda mais isto--gritou o velho marinheiro, de cara cor de
acaju, chamado Morgan, que eu vira na taberna de Joo Grande,
no cais de Brstol.--Foi ele que reconheceu o Co Negro.
--Pois--ajuntou o cozinheiro de bordo--, e olha que ainda
tenho outra coisa contra ele, com um raio! Foi ele que
descobriu o mapa do Billy Bonnes. Ao cabo e ao fim o Jim
Hawkins roeu-nos sempre a corda!
--Pois ento a tens!--regougou Morgan, com uma praga, dando
um salto e sacando da faca, temvel como se fossem vinte.
--A! --bradou Silver. --Quem s tu aqui, Tom Morgan? Se
calhar julgas que s o capito. Com mil
diabos, que eu ensino-te bem! Anda-me s avessas do que eu
quero e vais parar onde h trinta anos muitos outros tm ido
parar antes de ti, uns pendurados nas
vergas e outros pela borda fora, para servir de pasto aos
peixes. Ainda no houve um s homem que se atrevesse a
fazer-me frente que no soubesse o que isso custa, Tom Morgan,
toma bem conta disso!
Morgan deteve-se, mas um murmrio surdo se ergueu entre os
outros.
--Tom tem razo--disse um.
--J l vai o tempo em que eu tinha medo--acrescentou outro.
--Eu seja enforcado se ainda me metes medo, Joo Silver!
--Vamos l a ver se algum dos cavalheiros quer ajustar contas
comigo! --rugiu Silver, endireitando-se no barril e segurando
o cachimbo ainda aceso. --Digam l o que querem, andem! Creio
que no so mudos. Cada um tem o que merece. ou eu vivi estes
anos todos para qualquer filho do diabo vir aqui rir-se 
minha custa?! Todos vocs so cavaleiros da fortuna e j sabem
como isto . Eu estou pronto! Quem se atrever, pegue numa
faca, a ver se no Lhe ponho as tripas ao sol antes de acabar
esta cachimbada!
Nenhum se mexeu, e nenhum respondeu.
--De que raa vocs so! --acrescentou, metendo o cachimbo na
boca. --No passam de uns verbos de encher. No tm sangue nas
veias... Se calhar nem entendem o ingls do rei Jorge...
Escolheram-me para capito. E sou aqui o capito porque tenho
dado as melhores provas. No so capazes de bater-se como
cavaleiros da fortuna. Portanto, tm de obedecer, com um raio,
 assim mesmo! Gosto deste rapaz; nunca vi um garoto como ele.
 mais homem do que qualquer par de ratos dos que aqui esto.
E agora que eu veja algum pr-lhe a mo em cima;  s isto que
digo, podem crer!
A estas palavras seguiu-se um longo silncio. Eu continuava de
p, de encontro  parede, com o corao a bater pesadamente,
mas com um raio de esperana a brilhar l no fundo. Silver
apoiara as costas  parede, de braos cruzados e cachimbo ao
canto da boca, to calmo

como se estivesse numa igreja, embora o seu olhar percorresse
tudo furtivamente, e baixando, num tom decidido, que mais
ningum podia ouvir, disse:
--Tu ests em perigo de morte e, o que ainda  pior, em risco
de ser torturado. Eles vo demitir-me. Mas nota que eu estou
ao teu lado, d por onde der. Se no tens falado, no me
passava isso pela ideia. Estava quase desesperado, por ver ir
tudo por gua abaixo e vir a ser enforcado ainda por cima. Mas
vi que tu eras a minha salvao e disse comigo: "Pe-te do
lado do Hawkins, Joo, e o Hawkins estar do teu lado. Tu s a
sua ltima cartada e, com todos os demnios! Joo, ele  a
tua. Faam costas um com o outro. Tu salvas um defensor e ele
salva-te o pescoo!"
Eu comeava a compreender vagamente.
--Acha que est tudo perdido?--perguntei.
--No, que diabo! Julgo que no! -- respondeu-me.--Mas, em
geral, navio perdido, cabea perdida. Quando olhei para a
baa, Jim Hawkins, e no vi a escuna, e olha que sou forte,
dei logo tudo por perdido. Quanto ao bando que est em
conselho, no passam de doidos e cobardes. Hei-de salvar-te
das garras deles seja l como for. Mas repara bem, Jim, uma
mo lava a outra... vais salvar o Joo Grande de danar na
ponta da corda.
Eu estava estupefacto, to falho de esperana me parecia o que
ele me pedia--ele, o velho pirata, o cabecilha de tudo.
--o que eu puder fazer fao--disse.
--Combinado! --exclamou Joo Grande. --Falas como um livro
aberto, cos diabos! Tive sorte.
Encaminhou-se a coxear para o archote metido entre a lenha e
acendeu de novo o cachimbo.
--Compreende-me, Jim--disse ele, ao voltar. -Eu tenho a cabea
no seu lugar, podes crer. Agora estou do lado do fidalgo. Sei
que puseste o navio a salvo nalgum lado. Como  que fizeste,
no sei, mas sei que o tens seguro. Suponho que Hands e
o'Brien se deixaram ir no bote. Nunca me fiei muito em nenhum
deles. Agora, repara bem. No te fao perguntas, nem consinto
que os outros tas faam. Sei ver quando o jogo vai bem, podes
crer, e sei que espcie de rapaz s tu. s novo: tu e eu,
juntos, fazamos grandes coisas!
Tirou conhaque do barril para um copo de estanho.
--Queres provar, camarada?--perguntou.
E depois de eu ter recusado:
--Pois eu, Jim, tomo uma golada. Preciso de reforo porque a
coisa vai dar bota. E agora por falar nisto: porque seria que
o doutor me deu o mapa, Jim?
A minha cara exprimiu uma admirao to espontnea, que ele
viu que era desnecessrio fazer mais perguntas.
--Bem, ele l sabe...--tornou.--Mas deve haver aqui qualquer
coisa, Jim, boa ou m.
E tomou outro gole de aguardente, sacudindo a grande cabea
fulva, como um homem que vislumbra o pior.
Captulo vinte e nove

oTTTRA VF7 A MAR('A NF '.RA

o conselho dos piratas durava h j algum tempo, quando um
deles tornou a entrar na barraca e, repetindo o mesmo
cumprimento, que aos meus olhos tinha o seu qu de irnico,

pediu licena para levar o archote por um momento. Silver
aquiesceu com um breve sinal e o emissrio retirou-se outra
vez, deixando-nos s escuras.
--J comea a vir vento, Jim--disse Silver que por essa altura
adoptara um tom inteiramente amigvel e familiar.
Voltei-me para a abertura da parede que me ficava mais prxima
e espreitei para fora. o brasido da grande fogueira
consumira-se e o brilho que ainda tinha era to pouco que
fiquei a perceber porque  que os conspiradores tinham vindo
pedir o archote. Um segurava nele; outro estava de joelhos no
meio deles e vi-lhe na mo a lmina duma navalha aberta, a
brilhar em cambiantes variados  luz da Lua e do archote. os
restantes estavam inclinados para ele, como se estivessem
vendo o que fazia. Percebi ento que, alm da navalha, este
tinha um livro na mo; e pasmava ainda de como esse estranho
objecto Lhes fora parar s mos, quando o homem que estava
ajoelhado se ergueu e o bando todo comeou a andar na direco
da barraca.
--A vm eles --disse eu, tornando a por-me na posio em que
estava, porque me parecia humilhante que me encontrassem a
espreit-los.
--Deixa-os l vir, pequeno, deixa-os vir--respondeu-me Silver,
com satisfao. --Ainda no queimei o ltimo cartucho.
A porta abriu-se e cinco homens apareceram acotovelando-se no
interior da barraca, empurrando um deles para a frente. Em
qualquer outra circunstncia seria cmico v-lo avanar
lentamente, hesitando a cada passo que dava, com a mo direita
fechada e estendida para diante.
--Anda l para a frente, rapaz!--gritou Silver. -Eu no te
como. Descansa, animal, que conheo as regras e no fao mal a
um enviado.
Assim encorajado, o pirata avanou com mais afoiteza e,
passando qualquer coisa para a mo de Silver, deslizou com a
maior rapidez para junto dos seus companheiros .
o cozinheiro viu o que Lhe tinham dado.
--A marca negra! J estava  espera disto--observou.--onde
diabo foram vocs arranjar o papel? Mas olhem l, isto no d
sorte! Cortaram um bocado da Bblia. Qual foi o doido que
cortou a Bblia?
--A est! --pronunciou Morgan. --A est! No dizia eu? Eu
logo disse que no era bom.
--Muito bem! Fizeram um bonito servio--prosseguiu Silver. --o
que vocs queriam era ser todos enforcados. Qual era o
mamarracho que tinha a Bblia?
--Era o Dick--disse um.
--Era o Dick, hem? Ento pode ir encomendando a alma ao Diabo
--articulou Silver. --A sorte dele acabou-se, podem ter a
certeza.
Nesta altura, o homem alto, dos olhos amarelos, interrompeu:
--Cale-se l com isso, Joo Silver! Esta tripulao
destinou-lhe a marca negra em conselho plenrio, nos termos
devidos; portanto, agora vire-a, como  seu dever, e veja o
que l est escrito. Depois pode falar.
--obrigado, George -- replicou o cozinheiro. -Foste sempre
esperto e tenho o prazer de saber que tens o regulamento de
cor, George. Ento vamos l a ver o que ? Ah! Demitido, no
? E est muito bem escrito, na verdade; palavra que parece
impresso. Foi escrito por ti, George? Ests a tornar-te um

homem importante c na tripulao. No me admiro que daqui a
pouco sejas o
capito. Faz-me o favor, chega-me a outra vez o archote, sim?
o cachimbo apagou-se.
--Vamos l--disse George--, no continue a escarnecer da
tripulao. J sabemos que  muito engraado; mas agora est
demitido e s tem de descer dessa barrica e vir votar.
--Creio que vocs disseram que conheciam o
regulamento--retorquiu Silver desdenhosamente. --Mas se no
sabem, sei eu. Espero aqui e continuo a ser o vosso capito,
at que me apresentem as vossas razes de queixa e que eu
responda. Entretanto, a vossa marca negra no vale um caracol.
Depois disso, veremos.
--oh!--replicou George.--No esteja em cuidado, ns sabemos
todos o que queremos. Primeiro, o senhor fez uma bambochata
desta viagem, e s se for descarado  que nega isto. Segundo,
o inimigo estava aqui como numa armadilha e deixou-o
escapar-se a troco de nada. Por que  que essa gente quis
ir-se embora? Eu no sei; mas est claro como gua que foram
eles que quiseram ir-se embora. Terceiro, no nos deixou
atirar-nos a eles no pntano. oh, mas ns estamos a ver a
coisa, Joo Silver; o senhor est jogando com um pau de dois
bicos, para o caso de as coisas Lhe correrem mal. E a quarta 
este rapaz.
--Est tudo dito? -- perguntou Silver tranquilamente .
--E  j bastante--retrucou George. --Havemos de ser todos
pendurados ao sol por causa das suas asneiras.
--Muito bem. Agora olhem que eu vou responder a esses quatro
pontos um por um. Fiz uma bambochata desta viagem, no foi?
Pois agora vejam todos o que eu pretendia e reconheam que se
se tivesse feito o que eu queria, a esta hora estaramos a
bordo da Hispaniola, teramos todos os homens vivos e sos e
estaramos bem regalados e com o tesouro metido no poro, com
mil raios! E quem foi que me contrariou? Quem  que me foi 
mo, como se eu no fosse aqui o verdadeiro capito? Quem me
endossou a marca negra no dia em que desembarcmos e a dana
comeou? E que linda dana, em que entrmos todos e parece
mesmo um bailado na ponta de uma corda na doca das Execues
em Londres... Mas de quem  a culpa? De Anderson, de Hands e
de ti, George Merry! Tu s o ltimo que resta desse bando de
intrometidos e ainda tens a insolncia de Davy Jones de te
levantares na minha frente como capito, tu que meteste a
pique uma poro dos nossos! Pelos diabos! Que isto  do
melhor que tenho visto!
Silver parou e pela fisionomia de George e dos seus camaradas
verifiquei que estas palavras no haviam sido ditas em vo.
--Isto quanto ao primeiro ponto--gritou o acusado, limpando o
suor da testa, pois falara com tal veemncia que a barraca
estremecia.--Palavra que j me incomoda falar com vocs. No
tm nem critrio, nem memria; nem sei de que massa os fizeram
para virem para o mar. o mar! Cavaleiros da fortuna! Alfaiates
 que deviam ser.
--Continua, Joo--disse Morgan.--Fala dos outros pontos.
--os outros!--volveu Joo.--So uma linda conta, no so?
Vocs dizem que esta viagem foi um desastre. Pois digo-lhes
que se pudessem compreender at que ponto foi um desastre,
veriam ento. Estamos to perto da forca, que sinto o pescoo
entoiar-se s de pensar nisso. Vocs j devem ter visto

fiadas de enforcados com as aves em volta deles. os
marinheiros passam, olham-nos com d, como se fosse o mar que
os levasse. "Quem  aquele?" diz um. "Aquele!  o Joo Silver.
" "Conheci-o bem", diz o outro. E quem se aproxima ouve o
ranger das correntes. ora  a isso que havemos de chegar, ns
todos, os filhos das nossas mes, graas a esse Hands, a
Anderson e a outros desgraados como vocs. E agora quanto ao
quarto ponto,
a este rapaz. Com um raio! No  um refm? E havemos de perder
um refm? No, no! Pode ser a nossa ltima esperana de
salvao, no  nada de admirar. Mat-lo? Eu no, camaradas! E
o terceiro ponto? A respeito do terceiro ponto h muito que
dizer. Naturalmente vocs acham que no vale nada ter um
mdico formado pela Universidade para vir v-los todos os
dias, a ti, Joo, com a cabea partida, ou a ti, George Merry,
que ainda h seis horas tremias de febre e que neste mesmo
momento tens os olhos amarelos como cidra? Naturalmente tambm
no sabem que vem a a caminho um barco de socorro? L
chegaremos e ento  que havemos de ver se no sabe bem ter um
refm quando chegarmos a isso. Quanto ao segundo ponto e 
razo por que fiz um acordo, no me pediram, vocs de joelhos
que o fizesse, j desanimados? De resto, teriam morrido  fome
se no procedesse como procedi; mas isto no vale nada! olhem,
a tm a verdadeira razo!
E arremessou ao cho um papel, que eu reconheci
imediatamente--nem mais nem menos do que o mapa de papel
amarelo, com as trs cruzes vermelhas, que eu encontrara no
encerado, no fundo da mala do capito. Porque  que o doutor
Lho entregara  que no podia imaginar.
Porm, se isso era inexplicvel para mim, o aparecimento do
mapa era incrvel para os rebeldes sobreviventes. Pularam
sobre ele como gatos em cima de um rato. Passou de mo em mo,
arrancado de uns para os outros. Soltavam exclamaes,
acompanhadas de pragas, de gritos e de risos infantis, numa
tal expanso que parecia estarem j, no s de posse do ouro,
mas em pleno mar, a salvo.
--, sim--dizia um--,  mesmo o de Filinto. J. F. e um trao
em baixo e um ponto no meio. Era assim que ele fazia sempre.
--Esplndido--disse George.--Mas como vamos ns sair daqui com
o tesouro, se no temos navios?
Bruscamente, Silver deu um salto e, apoiando-se com uma das
mos contra a parede, gritou:
--Vou avisar-te, George. Se dizes mais uma estupidez das tuas,
chamo-te ali abaixo e dou cabo de ti. Como? Porqu? Como
hei-de sab-lo? Tu  que tens obrigao de mo dizer, tu e os
outros, que me fizeram perder a escuna, por andarem a meter-se
nos meus negcios. Queimados vocs fossem! Mas no ho-de ser
vocs, no, que no tm prstimo para nada! E tu, George
Merry, tens de habituar-te a falar com mais delicadeza,
convence-te disso.
--Est muito certo--disse o velho Morgan.
--Certo! Assim  que --afirmou o cozinheiro.-Vocs perderam o
navio, eu encontrei o tesouro. Quem deu as melhores provas?
Mas eu deixo o lugar, com um raio! Escolham l quem quiserem
para ser capito, que no tenho nada com isso.
--Silver!--bradaram eles.--Viva Barbecue! Barbecue  que  o
capito!
--Chegaram ento a essa concluso, no  verdade?-exclamou o

cozinheiro. -- George, compreendo que todos vocs esperassem
que isto levasse outro rumo, amigo; o que te vale  eu no ser
vingativo. Mas no tenho esse costume. E agora, camaradas,
para que serve a marca negra? Para nada, no ? o Dick
enguiou-se e estragou a sua Bblia e no fim para nada.
--Mas o livro ainda serve para prestar juramento,
no?--grunhou Dick, que evidentemente estava preocupado com a
maldio que atrara sobre si.
--Uma Bblia com um bocado a menos!--replicou Silver,
escarninho.--No, isso agora vale tanto como um livro de
cantigas.
--No entanto, sempre vale!--exclamou Dick com certo
contentamento. --Para mim, pelo menos, ainda tem valor.
--olha, Jim, aqui tens uma curiosidade para ti -disse Silver,
atirando-me o papel.
Era uma rodela, quase do tamanho de uma coroa. De um lado,
branca, porque era a ltima folha; do outro, havia um
versculo ou dois do Apocalipse, com estas palavras, entre
outras, que me ficaram bem gravadas na mente: "Ficaro de fora
os ces... e os homicidas." o lado impresso fora enegrecido
com madeira queimada, que comeava j a sair e que me sujava
os dedos. No lado que estava em branco, tinham escrito tambm
a carvo, a palavra "Demitido". Tenho conservado comigo esta
curiosidade at agora, mas presentemente nem um trao resta do
que foi escrito, alm de um simples vinco, como o que se pode
fazer com uma unha.
Eis como terminou aquela noite. Pouco depois, com uma rodada
de vinho, todos nos deitvamos para dormir e a maior vingana
de Silver foi pr George Merry de sentinela e amea-lo de
morte se ele no se mantivesse vigilante .
Levei muito tempo primeiro que pudesse pregar olho e s Deus
sabe quanto pensei no homem que eu matara naquela tarde, na
minha situao perigosssima e, sobretudo, no jogo notvel que
eu via Silver agora executar, conservando os rebeldes juntos
com uma mo, enquanto com a outra buscava a sua paz e a
salvao da sua vida miservel por todos os meios possveis e
impossveis. Dormia placidamente e ressonava sonoramente, e o
meu corao compadecia-se dele, embora fosse um facnora ao
pensar nos perigos que o rodeavam e na forca ignominiosa que o
esperava.

Captulo trinta

SoB PALAVRA

Fui despertado--ou antes, todos fomos despertados, porque vi a
prpria sentinela a sacudir-se no stio em que adormecera,
junto  porta--por uma voz clara e vibrante, que nos chamava
da orla do bosque.
--ol, fortificao! --bradava. --C est o mdico !
Era o doutor. E conquanto eu me sentisse alegre por ouvi-lo,
essa alegria no era completa. Recordava com embarao a minha
desobedincia e a minha m conduta; e ao verificar at onde
ela me conduzira, ao ver os companheiros e os perigos que me
rodeavam, tive vergonha de encar-lo.
Ele devia ter-se levantado ainda de noite, porque o dia mal
despontara; e quando corri a uma das aberturas e olhei l para
fora, vi-o de p como vira Silver uma vez, envolto at meio

das pernas nos vapores que emanavam da terra.
--o senhor, doutor?! Muito bom dia! --exclamou Silver, que se
ps logo a p, numa radiante disposio de
esprito.--Bem-disposto e madrugador, como sempre. L diz o
ditado: o pssaro madrugador  o que apanha o melhor bocado.
George, mexe l as pernas, filho, e ajuda o doutor Livesey a
saltar para bordo. Vai tudo bem, doutor, e os seus doentes
esto todos bem-dispostos.
Assim gralhando, erguia-se no topo do cmoro, com a muleta
debaixo do brao e uma mo encostada  barraca, exactamente o
antigo Joo Grande, na voz, nas maneiras, na expresso.
--E tambm c temos uma grande surpresa para o
senhor--continuou.--Temos c um pequeno forasteiro. Eh! eh! Um
novo Pensionista, senhor doutor, que
parece estar so como um pro. Dormiu como uma pedra, toda a
noite, ao lado c do Joo, voltados um para o outro.
Nesta altura, j o Dr. Livesey tinha transposto a paliada e
estava muito perto do cozinheiro, e percebi que a voz se Lhe
alterava ao dizer:
--No  o Jim, no?
--Pois  mesmo o Jim!--respondeu Silver.
o mdico estacou, como se no pudesse falar, e por alguns
segundos pareceu no poder dar um passo.
--Est bem, est bem!--disse por fim.--Primeiro a obrigao e
depois a devoo, como voc costuma dizer, Silver. Deixe-me l
ver esses doentes.
Um momento depois entrava na fortificao, e olhando-me com
certa severidade, deu incio  sua tarefa entre os doentes.
No parecia preocupado, apesar de no ignorar que a sua vida,
no meio daqueles traidores demonacos, estava pendente de um
cabelo; e, no entanto, ia tagarelando com um e com outro, como
se estivesse fazendo uma visita vulgar a qualquer pacfica
famlia inglesa. Creio que essa atitude encontrava nos homens
a sua reaco, pois comportavam-se com ele como se nada
tivesse ocorrido, como se ele fosse, ainda, o mdico de bordo,
e eles honestos e fiis marinheiros.
--Vais indo muito bem, meu amigo -- disse ao homem da cabea
ligada. --Podes gabar-te de teres escapado de boa; deves ter a
cabea dura como ferro. E ns, George, como vai isso? Ests
com uma cor linda, no haja dvida; esse fgado deve andar
muito escangalhado. Tens tomado o remdio? olhem l, ele tem
tomado o remdio?
--Tem, sim senhor, tem--respondeu Morgan.
--Porque, enfim, vejam l bem, j que sou mdico de rebeldes,
ou mdico de priso, como eu prefiro chamar-disse o Dr.
Livesey com o seu modo mais agradvel--,  para mim uma
questo de honra no perder nem um homem para o rei Jorge (que
Deus o abenoe!) e... para a forca.
os marinheiros olharam uns para os outros, mas tragaram o
gracejo em silncio.
--Dick no se sente bem, senhor doutor--disse um.
--Tambm tu?--replicou o mdico.--Ento chega c, Dick, e
deixa-me ver a lngua. ora! S me admirava que assim no
fosse!  uma lngua que mete medo. outra febre.
--A est--sentenciou Morgan--o que faz rasgar as Bblias...
--o que faz  vocs serem uns asnos chapados-retorquiu o
doutor--e no terem senso bastante para diferenciarem o ar
puro do envenenado e os locais secos dos covis infectos e

pestilentos. o mais provvel, se bem que isto no passe,
talvez, de uma opinio minha,  vocs no conseguirem ver-se
livres da malria. Mas quiseram acampar num pntano, no foi?
S o que me espanta  voc, Silver;  menos estpido do que os
outros todos que aqui esto, mas parece no ter a menor noo
das regras sanitrias.
E depois de ter medicado todos e de todos terem recebido as
suas prescries, com uma humildade verdadeiramente irrisria,
mais como meninos de asilo do que como rebeldes e piratas
manchados de sangue, continuou:
--ora bem, por hoje est tudo feito. E agora gostaria de ter
uma conversa com esse garoto.
E, afectuosamente, fez um sinal com a cabea na minha
direco.
George Merry estava  porta, cuspinhando qualquer medicamento
malgostoso; mas logo que ouviu as primeiras palavras do mdico
voltou-se encarniado e gritou:
--No!--E soltou uma imprecao.
Silver bateu no barril com a mo espalmada.
--Silncio!--rugiu, e olhou em torno, positivamente como um
leo.--Doutor--prosseguiu no seu tom

'7 7
habitual--, estava a pensar justamente nisso, visto que sei a
afeio que tem pelo pequeno. Estamos-lhe todos humildemente
reconhecidos pela sua amabilidade e, como v, temos confiana
em si e tomamos as drogas que nos d como se fossem a melhor
bebida. E, em meu entender, encontrei um meio de contentar
todos. Hawkins, queres dar-me a tua palavra de honra, como um
jovem cavalheiro, porque tu s um jovem cavalheiro, embora de
origem humilde, ds-me a tua palavra de honra em como no me
atraioas?
Dei prontamente a fiana que me pediam.
--Ento, doutor--pronunciou Silver--, o senhor vai passar para
fora da estacada e, uma vez l, levo-lhe o garoto l abaixo,
do lado de dentro, e acho que podem falar pelos intervalos das
estacas. Muito bom dia, senhor doutor, e os nossos respeitos
ao fidalgo e ao capito Smollett.
Assim que o doutor abandonou a barraca explodiram exclamaes
de desaprovao de todos os lados, que nem o olhar fulminante
de Silver conteve. Silver era acusado de fazer jogo duplo, de
procurar fazer uma paz separada para ele, de sacrificar os
interesses dos seus cmplices e vtimas, e era, alis,
exactamente o que estava a fazer. Isto era para mim to
evidente, que nem sabia como  que ele conseguia aplacar-lhes
a ira. Ele, porm, era duas vezes senhor daqueles homens e a
sua vitria da noite anterior dera-lhe um enorme ascendente.
Acoimava-os de doidos e cretinos, dizia que era necessrio que
eu falasse com o mdico, passava-lhes o mapa em frente dos
olhos e perguntava-lhes se queriam romper o tratado no prprio
dia destinado  descoberta do tesouro.
--No, com mil raios!--bradava. --Havemos de romper o tratado
quando chegar a altura prpria; mas at l hei-de trazer o
mdico preso ao gurups, nem que tenha de engraxar-lhe as
botas com aguardente!
Depois disto deu-lhes ordem para atiar a fogueira
que se apagara e l foi coxeando apoiado  muleta, com a mo
no meu ombro, deixando-os desnorteados e emudecidos com a sua

verbosidade, mas no convencidos.
--Devagar, pequeno, devagar--ia dizendo.--Eles podem atirar-se
a ns num abrir e fechar de olhos se nos vem apertar o passo.
Cautelosamente, pois, atravessmos a areia, na direco em que
o mdico nos aguardava do outro lado da estacada e, logo que
chegmos a uma distncia em que podamos falar, Silver parou.
--Julgo que tomar isto em linha de conta, doutor-disse ele--,
e o garoto vai dizer-lhe como Lhe salvei a vida e como fui
demitido por causa disso, pode crer. olhe, doutor, quando um
homem governa o leme to chegado ao vento como eu, jogando a
vida como numa brincadeira de crianas, h-de concordar que
merece, pelo menos, uma palavra de ateno, no  verdade?
Peo-lhe que fixe bem que j no se trata agora s da minha
vida, a deste garoto tambm est em jogo; e o doutor vai
falar-me com estima e vai dar-me uma rstia de esperana, por
quem !
Silver tornara-se outro homem, desde que ali chegara, e
voltara costas aos amigos e  fortificao; parecia ter as
faces abatidas e a voz tremia-lhe; tinha a alma cheia de
morte.
--Que  isso, Joo, voc no  medroso?--inquiriu o Dr.
Livesey.
--Senhor doutor, no sou cobarde, nem nunca o fui!-e deu um
estalo com os dedos.--E se o fosse, no o diria. Mas
confesso-lhe francamente que sinto arrepios quando penso na
forca. o senhor  verdadeiramente bom, nem nunca vi melhor! o
senhor no h-de esquecer-se do bem que fiz, assim como no se
esquece do mal, eu sei. Agora vou-me embora, veja bem, e
deixo-o sozinho com o Jim. E o senhor vai levar-me tambm
isto em conta, porque representa muito!
Dizendo estas palavras, recuou alguns passos, at
pr-se fora do alcance da nossa voz, e depois sentou-se num
coto de rvore e comeou a assobiar; de vez em quando
voltava-se no lugar em que estava e lanava o olhar ora para
mim e o mdico, ora para os seus bandoleiros insubmissos, que
andavam de um lado para o outro da barraca, para a
fogueira--ocupados a ate-la de novo--e da fogueira para a
barraca, de onde traziam carne de porco e po para fazer o
almoo.
--ora ento, Jim--disse o doutor com tristeza--, aqui ests
metido. Quem boa cama fizer, nela se deitar, meu rapaz. Deus
sabe que de todo o corao no penso em censurar-te; mas, quer
gostes, quer no, sempre tenho que te dizer; enquanto o
capito Smollett esteve de sade, nunca te atreveste a fugir;
assim que o apanhaste doente, sem poder impedir-to... Por
Deus! Foi simplesmente cobarde!
Confesso que, ao ouvir isto, principiei a chorar.
--Senhor doutor--exclamei--, no me aflija! Bastante me tenho
censurado por isso; j paguei bem o que fiz e j estava morto
a esta hora se o Silver no se tem posto do meu lado. E
acredite, doutor, posso morrer, e atrevo-me a dizer que o
mereo, mas do que tenho medo  da tortura. Se eles vo
torturar-me...
--Jim--interrompeu-me o mdico com a voz completamente
alterada --, Jim, no posso suportar isto. Salta c para fora
e deitamos a correr!
--Senhor doutor--redargui--, comprometi a minha palavra.
--Bem sei, bem sei--volveu. --Agora nada podemos fazer, Jim.

Eu carregarei com tudo, seja o que for, censuras e vergonhas,
meu rapaz, mas aqui  que no te deixo ficar. Salta! Um pulo e
ests c fora e pomo-nos a correr como coras.
--No--repliquei.--Sabe muito bem que o senhor nunca o faria;
nem o senhor, nem o fidalgo, nem o capito e eu tambm no o
fao. Silver confiou em mim; eu empenhei a minha palavra e
volto para junto dele. Mas o senhor doutor no me deixou
acabar. Se eles me torturam posso deixar escapar uma palavra a
respeito do local onde o navio est; porque eu cacei o navio,
em parte por acaso e em parte por arrojo, e est na angra do
Norte, na margem sul. Estamos na praia-mar, mas a meio da mar
ele deve ficar em seco.
--o navio!--exclamou o mdico.
Descrevi-lhe rapidamente as minhas aventuras e ele ouviu tudo
em silncio.
--H em tudo isto uma espcie de predestinao-observou,
quando eu terminei. --A cada passo s tu quem nos salva a
vida; e pensas, por acaso, que vamos deixar perder a tua?
Seria uma recompensa bem triste, meu pequeno. Tu descobriste a
conjura; encontraste Ben Gunn, que  de todos os teus feitos o
melhor que praticaste, nem que vivas cem anos. oh, por
Jpiter! Falando agora de Ben Gunn!  o diabo em figura de
gente.
E, elevando a voz, chamou:
--Silver! Silver! Vou fazer-lhe uma advertncia-prosseguiu
quando o cozinheiro se aproximou. --No tenha muita pressa em
ir em busca do tesouro.
--Pois sim, senhor, mas hei-de fazer o possvel por
encontr-lo -- replicou Silver. -- Queira desculpar, mas s
assim posso salvar a vida e a deste rapaz, pode crer.
--Est bem, Silver--respondeu o mdico--, sendo assim, vou um
pouco mais longe: quando o encontrar, cuidado com a borrasca.
--Senhor doutor--pronunciou Silver--, falando de homem para
homem, o que me diz nada adianta. Que  que tem em vista,
porque abandonou a fortificao, porque me deu o mapa? Nada
sei. E no entanto aceitei de olhos fechados o que me ofereceu
e nem uma palavra de esperana! Mas no, isto agora  de mais.
Se no quer dizer-me o que pensa fazer... ento largo o leme
da mo.
--No--volveu o doutor pensativo--, no tenho
o direito de Lhe dizer mais nada. o segredo no  s meu,
Silver, bem v; de contrrio, dou-lhe a minha palavra de que
Lho dizia. Mas vou o mais longe que posso, avanando um pouco,
e, ou muito me engano, ou o capito vai ensaboar-me o juzo!
Para comear, dou-lhe uma esperana: Silver, se ambos
escaparmos com vida desta ratoeira de lobos, farei tudo o que
puder para salv-lo, menos jurar falso.
A fisionomia de Silver estava radiante.
--Creia que ainda que fosse minha me, no me podia dizer
mais!--gritou ele.
--Muito bem, esta  a minha primeira concesso-prosseguiu o
mdico.--A segunda  um aviso: mantenha o pequeno sempre ao p
de si e, quando precisar de auxlio, pea-o. Estou pronto a
esforar-me por consegui-lo, e isso Lhe demonstrar que no
falo  toa. Adeus, Jim.
E o Dr. Livesey apertou-me a mo por entre a estacada, fez um
sinal com a cabea a Silver e afastou-se a passo rpido pelo
bosque.

Captulo trinta e um

A CAA Ao TESoURo:
AS INDlCAeS DE FILINTo

--Jim--disse-me Silver quando ficmos ss--, se eu te salvei a
vida, tu salvaste-me a minha e no o esquecerei. Vi o doutor a
fazer-te acenos para fugires, vi-o, pelo canto do olho; e
vi-te a dizer que no, to bem, como se ouvisse. Isto  bom
para ti, Jim. Confesso-te que, desde que o ataque fracassou,
foi este o primeiro raio de esperana. E agora, Jim, vamos dar
caa ao tal tesouro--cheio de segredos e mistrios, o que no
me agrada nada. Tu e eu temos de andar agarrados um ao outro,
costas com costas, e assim havemos de salvar a pele, apesar do
destino e da sorte.
Precisamente naquela ocasio, um dos homens chamava-nos da
fogueira e dizia que o almoo estava pronto. Em breve todos
estvamos sentados, espalhados pela areia, em frente de
biscoitos e de pedaos de carne frita. Tinham feito uma
fogueira que dava para assar um boi, e o calor era tanto que
apenas podiam aproximar-se dela do lado do vento e assim mesmo
com toda a precauo. Com o mesmo esprito esbanjador tinham
cozinhado creio que trs vezes mais do que aquilo que podamos
comer e, com um riso alvar, um deles atirou com o que sobrou
para o fogo, que levantou chama e crepitou com aquele
combustvel inusitado. Nunca na minha vida vi homens to
descuidados com o dia de amanha. Gastar sem conta nem medida 
a nica expresso que pode dar uma ideia do seu procedimento;
com tal desperdcio de alimentos e apegados ao sono como eram,
at quando estavam de sentinela, mesmo que fossem valentes
para uma surtida e a aguentassem bem, verifiquei que eram
absolutamente incapazes para qualquer coisa semelhante a uma
campanha prolongada.
o prprio Silver ia comendo sempre, com o Capito Filinto em
cima do ombro, sem ter uma palavra de censura para aquela
falta de cuidado. E o que mais me surpreendia,  que me
parecia nunca o ter visto to matreiro como ento.
--Pois  verdade, camaradas--dizia--,  uma sorte terem o
Barbecue para pensar por vocs com esta cabea. Eu consigo
sempre o que quero.  certo que eles tm o navio. onde  que o
tm, no sei ainda; mas assim que dermos com o tesouro, damos
por a uma saltada e acabamos por ach-lo. E depois, camaradas
quem tiver o barquinho  que d cartas.
Assim foi continuando, com boca cheia de toucinho quente;
assim ia restaurando a esperana e a confiana dos outros, ao
mesmo tempo que robustecia a sua prpria, se eu bem
compreendia.
--Quanto ao refm--prosseguiu--, penso que  a ltima vez que
falou com os amigos de quem gosta tanto. Soube algumas
novidades, que tenho de agradecer-Lhe; mas agora, acabou-se.
Vou prend-lo com uma corda quando formos  caa do tesouro,
porque nos convm guard-lo como ouro, no caso de algum
acidente, notem vocs, e enquanto vemos no que param as
coisas. Assim que apanharmos o navio e o tesouro e nos
fizermos ao mar, satisfeitos da nossa vida, conversaremos,
ento, com o senhor Hawkins, pois ento! E havemos de dar-lhe
a sua parte por toda a sua amabilidade.
No era de admirar que naquela ocasio os homens estivessem na

melhor disposio de esprito. Pela minha parte, estava
horrivelmente acabrunhado. Se o plano que ele acabava de
esboar se apresentasse exequvel, Silver, j duas vezes
traidor, no hesitaria em adopt-lo. Continuava com um p em
cada campo, mas no havia dvida de que preferia o bem-estar e
a liberdade com os piratas  simples escapada da forca, que
era o mais que podia esperar do nosso lado.
E ainda mesmo que as coisas se passassem de maneira que fosse
forado a manter-se fiel ao Dr. Livesey, ainda mesmo assim,
quantos perigos tnhamos pela frente! Que mau bocado seria, no
momento em que as suspeitas dos seus companheiros se
convertessem em certeza e tanto ele como eu tivssemos de
vender cara a vida--ele, um mutilado, e eu, um garoto--, a
lutar contra cinco marinheiros fortes e decididos!
Acrescente-se a esta dupla apreenso o mistrio que envolvia
ainda a conduta dos meus amigos; o seu inexplicvel abandono
da estacada; a extraordinria entrega do mapa e, o que ainda
era mais difcil de compreender? o ltimo aviso  o doutor a
Silver: "Quando o encontrar, cuidado com a borrasca", e
facilmente se imagina o pouco gosto que encontrei no meu
almoo e com que peso no corao me pus a andar atrs dos meus
captores em busca do tesouro.
Curiosa figura era a nossa, se houvesse algum que nos visse,
todos com os fatos de marujo emporcalhados e todos, excepto
eu, armados at aos dentes. Silver levava duas espingardas a
tiracolo--uma  frente e outra atrs,--, alm da grande faca
na cinta e uma pistola em cada bolso do casaco. Para completar
to esquisito aspecto, o Capito Filinto ia empoleirado no seu
ombro, a tagarelar ditos martimos, sem ps nem cabea. Eu
tinha uma corda em volta da cintura e seguia docilmente atrs
do cozinheiro, que segurava a ponta solta da corda, umas vezes
com a mo que tinha livre, outras com os dentes fortes. Ia
conduzido como um urso de saltimbancos.
os outros levavam diferentes carregos: uns ps e
picaretas--que haviam trazido de bordo da Hispaniola por ser
indispensvel--e outros transportavam carne de porco, po e
aguardente para a refeio do meio-dia. Reparei que todas as
provises eram das nossas reservas e pude verificar a verdade
das palavras de Silver na noite anterior. Se no tivesse
estabelecido o pacto com o mdico, tanto ele como os seus
sequazes, despojados do
navio, teriam sido obrigados a sustentar-se de gua e do que
fossem caando. A gua devia ser pouqussima para o seu
paladar e o marinheiro, em geral, no tem boa pontaria, alm
de que, tambm no era provvel que a plvora abundasse.
Assim armados e equipados, pusemo-nos a caminho --mesmo o que
tinha a cabea partida, que devia ter ficado  sombra--e, uns
atrs dos outros, encaminhmo-nos para a praia, onde os dois
botes nos aguardavam. At eles tinham vestgios das bebedeiras
dos piratas, um com um banco partido e ambos imundos e com
gua dentro. Para segurana levaramos os dois connosco, e
assim, divididos pelas duas embarcaes dirigimo-nos para o
fundo do ancoradouro.
Enquanto remvamos, ia-se discutindo sobre o mapa. A cruz
encarnada era, sem dvida, uma coisa muito vaga para nos
servir de guia, e os termos em que estava feita a nota nas
costas do mapa eram, tambm, algo ambguos. Como devem
lembrar-se, rezava assim:

"Arvore alta, flanco do Telescpio, um ponto ao N. de NNE.
Ilha do Esqueleto ESE e para E." Dez ps."

o sinal principal era, portanto, uma rvore alta. ora, mesmo
na nossa frente, a enseada era limitada por uma planalto de
duzentos a trezentos ps de altura, que ao norte se juntava ao
flanco abrupto, virado ao sul, do Telescpio, e que ao sul se
erguia novamente formando a iminncia escalvada, denominada
Colina de Mezena. o cimo do planalto era densamente coberto de
pinheiros de vrios tamanhos. Aqui e ali, um ou outro de
espcie diferente elevava-se quarenta ou cinquenta ps acima
dos vizinhos, mas qual deles era a tal "rvore alta" do
capito Filinto s no prprio local poderia resolver-se,
conforme as indicaes da bssola. Fosse como fosse,

cada um dos homens a bordo das lanchas tinha uma rvore
preferida e ainda estvamos a metade do caminho; s Joo
Grande encolhia os ombros, aconselhando-os a esperarem at l
chegarmos.
Remvamos  vontade, conforme as instrues de Silver, a fim
de no cansar os homens j de entrada, e depois de uma
travessia demorada desembarcmos na embocadura do segundo rio,
que desce por uma das vertentes do Telescpio coberta de
arvoredo. Uma vez a, virmos  nossa esquerda e principimos
a subir o declive que conduz ao planalto.
Ao comeo, o terreno era pesado e lamacento e uma vegetao
espessa e pantanosa demorava-nos muito o avano; mas pouco a
pouco a encosta comeou a tornar-se escarpada e pedregosa sob
os nossos ps e o carcter do arvoredo foi-se modificando,
crescendo mais  vontade. Aproximvamo-nos, de facto, de um
dos pontos mais agradveis da ilha. As giestas rescendentes e
muitos arbustos floridos quase tinham expulsado a erva. Tufos
de moscadeiras verdejantes eram, de quando em quando, cortados
pelas colunas vermelhas dos pinheiros frondosos, ao mesmo
tempo que o cheiro forte das primeiras se misturava com o
aroma das outras. o ar era fresco e leve, o que constitua
para ns um refgio maravilhoso sob os raios ardentes do Sol.
o grupo dispersou-se para longe na forma de um leque, gritando
e saltando de um lado para o outro. Quase ao meio e a boa
distncia dos restantes, seguamos Silver e eu--eu preso pela
corda e ele atravessando, ofegante, o cascalho resvaladio. De
tempos a tempos tinha de estender-lhe a mo, para ele no
atrapalhar os passos e no cair de costas pela colina abaixo.
Assim andmos cerca de meia milha e estvamos j perto do topo
do planalto quando o homem que se afastara mais para a
esquerda comeou a gritar, tomado de terror. Dava gritos
sucessivos e os outros principiaram a correr para ele.
--No pode ter encontrado o tesouro--disse o velho Morgan, que
vinha da direita, ao passar por ns.-Isto aqui  uma clareira.
De facto, quando l chegmos, verificmos que era uma coisa
muito diferente. Junto de um lindo pinheiro alto e envolvido
por uma trepadeira viridente, que j levantara, em parte,
alguns dos ossos mais pequenos, jazia um esqueleto humano, com
alguns pedaos de roupa. Creio que por um momento todos
sentiram um calafrio.
--Era marinheiro--comentou George Merry, que, mais corajoso do
que os outros, apanhara bocados de tecido e os
examinava.--Era, pelo menos, um rico fato de marujo...

--Pois com certeza--interveio Silver.--Acho que no querias
encontrar um bispo por aqui. Mas de que maneira to esquisita
estes ossos aqui esto! No parece natural.
Efectivamente, reparando bem, parecia impossvel que o corpo
estivesse numa posio natural. Mas, talvez por qualquer razo
estranha (como, por exemplo, a aco das aves que teriam
baixado sobre ele, ou pelo crescimento da trepadeira que fora
envolvendo aqueles restos pouco a pouco), o corpo jazia
perfeitamente a direito, os ps apontando para uma direco e
as mos, levantadas acima da cabea, como as do nadador que se
atira  gua, na direco oposta.
--Tenho uma ideia c no caco--observou Silver.-Aqui temos a
bssola; c est a parte mais alta da ilha do Esqueleto,
aguada como um dente. Muito bem, tomem agora a direco
seguindo a linha dos ossos.
Fez-se o que ele disse. o corpo apontava perfeitamente na
direco da ilha e a bssola indicava precisamente ESE para E.
--Bem me parecia!--gritou o cozinheiro.-- um indicativo.
Sempre a direito  o nosso caminho para a Estrela Polar e para
o nosso rico dinheiro. Mas, com um
raio! Sinto um arrepio s de pensar em Filinto. ou muito me
engano, ou isto  uma das suas graas. Ele e os tais seis
estiveram aqui ss; ele matou-os a todos, um a um, e a este,
arrastou-o para aqui e p-lo numa posio tirada pela bssola,
com mil diabos! Tinha ossos compridos e cabelo louro. Pois,
devia ser Allardyce. Lembras-te de Allardyce, Tom Morgan?
-- claro que me lembro -- volveu Morgan. -Muito bem at;
devia-me dinheiro e levou-me a faca para terra.
--Agora por falar em faca--disse outro--porque  que no vemos
a faca dele por aqui? Filinto no era homem para meter a mo
na algibeira de um marujo e acho que as aves no a levavam.
--Com os diabos,  assim mesmo!--gritou Silver.
--No ficou por c nada--observou Merry, que continuava a
tactear no meio dos ossos --, nem uma moedita de cobre, nem
uma caixa de tabaco... Isto para mim no  natural.
--Pois no -- concordou Silver. -- Nem natural, nem agradvel,
podes dizer. Pelo inferno, camaradas! Se Filinto estivesse
vivo, isto aqui era uma fogueira, tanto para vocs, como para
mim. Eles eram seis e ns somos seis e o que deles resta agora
so ossos.
--Eu vi-o morto, com estes que a terra h-de comer-disse
Morgan. -- Billy levou-me l. Estava deitado, com moedas de
penny nos olhos.
--Est morto e bem morto--disse o que tinha a cabea
amarrada--, mas se os espritos voltassem, Filinto devia ser
um deles. Realmente, o Filinto morreu mal!
--Isso morreu -- observou outro. --Umas vezes enfurecia-se,
outras gritava por rum, outras vezes cantava. os Quinze Homens
era a nica cantiga dele, camaradas; e para Lhes dizer a
verdade, desde ento nunca mais gostei de ouvir isso. Estava
um grande calor e havia ventania e eu ouvia a velha cano a
subir, cada vez mais ntida, e a mo da morte j em cima dele.
--Vamos, vamos--interrompeu Silver--, parem l com essa
conversa. Ele est morto e, que eu saiba, no anda; pelo menos
no anda de dia, podem crer. J no faz mal a uma mosca. Vamos
l para a frente, em cata dos dobres!
 claro que nos pusemos a andar, mas, a despeito do sol
ardente e da resplandecente luz do dia, os piratas nunca mais

se separaram, a correr e a gritar pelo bosque, antes se
mantinham ao lado uns dos outros, falando em voz baixa. o
pavor do pirata morto invadira-lhes o esprito.

Captulo trinta e dois

A CAA Ao TESoURo:
UMA voZ PoR ENTRE AS ARVoRES

Em parte por causa da perniciosa influncia do medo, em parte
para Silver e os doentes descansarem, todos se sentaram assim
que chegmos ao termo da nossa ascenso.
Como o planalto se inclinava um tanto para oeste, do stio em
que ns parmos dominava-se uma vasta perspectiva em todos os
sentidos. Em frente, por cima das copas das rvores,
alcanmos o cabo da Floresta, franjado de espuma; para trs,
no s vamos, l em baixo o ancoradouro e a ilha do
Esqueleto, como avistvamos, claramente, atravs do
despenhadeiro e das plancies de leste, a grande praga do mar
largo para o oriente. Bem saliente, erguia-se acima de ns o
Telescpio, que aqui e ali tinha pinheiros isolados e mais
alm escuros precipcios. No se ouvia qualquer rudo alm do
rumor das vagas distantes, que subia em toda a volta, e o
zumbido de insectos sem conta pelas moitas. No se via um
homem, nem uma vela no mar; e a imensa vastido, que se
avistava, aumentava a sensao de isolamento.
Silver, assim que se sentou, tratou de orientar-se com a
bssola.
--H trs rvores altas -- disse ele --, mais ou menos na
linha da ilha do Esqueleto. Flanco do Telescpio, acho que
deve ser este esporo aqui. Agora  uma brincadeira de
crianas encontrar a coisa. Mas parece-me que o melhor 
jantar primeiro.
--No tenho vontade--resmungou Morgan. --S de pensar no
Filinto perdi o apetite.
--Na verdade, meu filho, podes dar graas s tuas estrelas por
ele estar morto--acentuou Silver.
--era um diabo horrvel --exclamou um terceiro,

  I
com um estremecimento de terror--, com a cara toda roxa.
Foi quando o rum se apossou dele--acrescentou Merry.--Roxa!
Era mesmo roxa,  verdade.
Desde que tinham encontrado o esqueleto e se haviam deixado
arrastar por estas ideias, falavam cada vez mais baixo; as
suas vozes eram agora quase um murmrio, de tal sorte que a
sua conversa mal interrompia o silncio do bosque.
Subitamente, do meio das rvores que estavam na nossa frente,
uma voz trmula e aguda irrompeu na conhecida ria:

Quinze homens na mala do morto lo-ho-ho, e uma garrafa de rum!

Nunca vi homens mais amedrontados do que aqueles piratas. A
cor fugia-lhes das faces como por encanto; uns deram um salto
e outros aferraram-se aos companheiros; Morgan arrojou-se ao
cho.
-- Filinto!...--bradou Merry.
A cano parou bruscamente, como principiara -quebrada, por

assim dizer, no meio de uma nota, como se algum tivesse posto
a mo na boca do cantor. Vinda de to longe, atravs da
atmosfera lmpida e cheia de sol e das copas verdes das
rvores, essa voz tinha para mim um som etreo e suave e o
efeito por ela produzido nos meus companheiros parecia-me dos
mais estranhos.
--Vamos--disse Silver, fazendo esforo para que os lbios
encortiados pronunciassem as palavras --, isto assim no pode
ser. Levantemo-nos e vamos andando. No posso reconhecer a
voz, mas isto  partida de algum engraado, algum que se quer
divertir, mas que  de carne e osso, podem crer.
A medida que ele falava  a coragem ia-lhe voltando, ao mesmo
tempo que o rosto se Lhe animava com certa cor. os outros
comearam, tambm, a cobrar nimo com este estmulo e j se
tinham refeito um pouco
quando a mesma voz se fez ouvir de novo--desta vez sem cantar,
mas num apelo dbil e longnquo, que ecoou sempre mais dbil
pelas quebradas do Telescpio.
--Darby M'Graw! --gemia a voz num queixume, porque esta  a
palavra que melhor descreve aquele som.--Darby M'Graw! Darby
M'Graw!--chamava a voz repetidamente.
Depois, elevando-se um pouco mais, soltou uma praga que no
quero dizer:
--Vai buscar rum, Darby!
os piratas estavam pegados ao cho, com os olhos a
saltarem-lhes das rbitas. J a voz se extinguira h muito e
ainda eles se conservavam em silncio, mortalmente apavorados.
--S por isto j a gente sabe que  ele--disse um,
arquejante.--Vamos l.
--Foram as suas ltimas palavras--gemeu Morgan--, as ltimas
que disse a bordo.
Dick pegara na sua Bblia e orava atabalhoadamente. Tivera uns
certos princpios de educao, o Dick, antes de ir para a vida
do mar e de andar com ms companhias .
Silver ainda no se dominara. ouvia-o bater os dentes, mas no
se deixava vencer.
--Ningum aqui nesta ilha ouviu falar de Darby-murmurou por
entre dentes--, ningum, a no ser ns, os que aqui estamos.
Depois, fazendo um esforo penoso, ajuntou:
--Camaradas, estou aqui para caar a tal coisa e no me deixo
abater por ningum, seja ele homem ou demnio. Nunca temi
Filinto quando era vivo, e morto hei-de fazer-lhe frente, com
o inferno! A menos de um quarto de milha daqui h setecentas
mil libras. Quando  que um cavaleiro da fortuna virou as
costas a tanto dinheiro, s por causa de um marinheiro velho e
bbedo, com a cara roxa, e morto, ainda por cima?
Mas no havia sinais de a coragem se reanimar nos
seus companheiros; pelo contrrio, o terror recrudesceu neles
com a irreverncia destas palavras.
--Cale-se a, Joo!--disse Merry. --No queira defrontar-se
com um esprito.
os outros estavam aterrados em demasia para responderem. De
boa vontade teriam deitado a fugir se tivessem coragem para
isso; o medo, porm, conservava-os juntos, e mantinham-se
perto de Joo Grande, como se a coragem dele pudesse
valer-lhes. Por seu lado, ele conseguira vencer o seu temor.
--Um esprito? Est bem, pode ser--proferiu. -Mas h uma coisa
que no percebo. Houve eco. ora nunca ningum viu um esprito

que tenha sombra; portanto, sempre gostava de saber como  que
pode ter eco? No  natural, no  verdade?
Este argumento parecia-me bastante fraco. Todavia, ningum
pode dizer o que produz efeito sobre a superstio e, com
grande espanto meu, George Merry ficou muito aliviado.
--Na verdade  assim--disse.--No h dvida de que voc tem
cabea, Joo! Velas ao vento, camaradas! A tripulao estava
enganada no rumo, estou convencido disso. E, pensando bem,
mesmo que fosse a voz de Filinto, apesar de tudo no era to
forte como a dele. Era parecida com a voz de certa pessoa...
assemelhava-se ...
--De Ben Gunn, com mil raios!--rugiu Silver.
--Isso mesmo, era ele!--gritou Morgan, levantando-se sobre os
joelhos.--Era Ben Gunn, era!
--A diferena tambm no  muita -- murmurou Dick.--Se Filinto
no est aqui em carne e osso, Ben Gunn tambm no.
os mais velhos, porm, acolheram esta observao
escarninhamente .
--ora, ningum se preocupa com Ben Gunn--bradou Merry.--Morto
ou vivo, ningum pensa nele.
Era extraordinrio como tinham cobrado nimo e
como a cor natural voltara queles rostos. Depressa comearam
a tagarelar uns com os outros, fazendo intervalos em que se
punham  escuta; e pouco depois, no tornando a ouvir mais
nada, puseram as ferramentas s costas e meteram-se de novo a
caminho, Merry  frente com a bssola de Silver para se
manterem em linha recta com a ilha do Esqueleto. Ele dissera a
verdade: morto ou vivo, ningum se preocupava com Ben Gunn.
S Dick continuava agarrado  Bblia, lanando em redor, 
medida que andava, olhares cheios de medo; mas ningum o
secundava e Silver zombava, at, das suas precaues.
--Bem te dizia eu--gracejava--, bem te dizia que isso de
rasgar a Bblia... Mas se ela nem serve para fazer um
juramento que importncia julgas que Lhe d um esprito?
Nenhuma!
E deu um estalo com os dedos, parando, um momento, encostado 
muleta.
No havia nada, porm, que confortasse Dick. Em breve
compreendi, mesmo, que o rapaz ia adoecer; acelerada pelo
calor, pelo cansao, e pela emoo do susto, a febre predita
pelo Dr. Livesey desenvolvia-se, evidentemente, com rapidez.
C em cima, no planalto, andava-se bem, embora o caminho fosse
um pouco em declive, pois, como j disse, o planalto descia
para oeste. os pinheiros, uns maiores, outros mais pequenos,
cresciam  vontade, afastados uns dos outros, e as prprias
clareiras que havia por entre os tufos de moscadeiras e de
azleas abrasavam sob o ardor do Sol. Avanando para noroeste,
aproximmo-nos cada vez mais dos flancos do Telescpio, ao
mesmo tempo que a vista abarcava um espao maior sobre essa
baa ocidental onde eu tremera no coracle em terrveis
balanos.
Chegmos  primeira rvore alta, mas, pela posio em que
estava, verificou-se no ser aquela, o mesmo se
dando com a segunda. A terceira elevava-se uns duzentos ps
acima da espessura do bosque; era um gigante do reino vegetal,
com a sua coluna avermelhada, sobre a qual os troncos grandes
se abriam numa sombra enorme, onde podia abrigar-se uma
companhia em manobras. Devia avistar-se bem do mar, tanto de

leste como de oeste, e podia ter sido anotada no mapa como um
sinal para a navegao.
No era, porm, o seu tamanho o que impressionava os meus
companheiros, era o saberem que algures, sob a sua vasta
sombra, jaziam enterradas setecentas mil libras. A medida que
se aproximavam, o pensamento do dinheiro varria para bem longe
todos os seus terrores. os olhos coruscavam-lhes nas faces; os
ps tornavam-se-lhes mais leves e ligeiros e toda a alma se
Lhes prendia quela fortuna, quela vida de extravagncia e de
prazer que ali estava  espera.
Apoiado  muleta, Silver saltitava, resmungando, com as
narinas dilatadas e trmulas; imprecava como um possesso
quando as moscas Lhe pousavam na cara a escaldar de sol e
puxava furiosamente pela corda com que me levava preso,
despedindo de quando em quando sobre mim olhares mortferos.
No se esforava j por ocultar os seus pensamentos, que eu
lia, como se Lhe estivessem impressos no rosto. A aproximao
imediata do ouro, tudo Lhe esquecera; a sua promessa e a
advertncia do doutor eram coisas do passado. E eu no
duvidava de que ele esperava apoderar-se do tesouro, encontrar
a Hispaniola e embarcar nela a coberto da noite, cortar todas
as cabeas honestas que houvesse na ilha e fazer-se ao mar,
como sempre tencionara, carregado de crimes e de riquezas.
Impressionado como estava com estas apreenses, era-me difcil
acompanhar o andamento rpido dos caadores do tesouro.
Tropeava uma vez ou outra e Silver puxava ento pela corda
com toda a dureza e atirava-me olhares homicidas. Dick ficara
para trs e formava a reta
guarda, balbuciando preces e blasfmias, enquanto afebre
subia. Isto aumentava a minha infelicidade e, a coroar tudo,
viera importunar-me a ideia da tragdia que um dia se
desenrolara no planalto, em que o feroz pirata da cara roxa--o
que morrera em Savannah a cantar e a gritar por lcool--matara
ali seis cmplices, com as suas prprias mos. Por aquele
arvoredo, agora to sereno, deviam ter-se repercutido gritos,
pensava eu, e,  fora de pensar, ouvia-os ainda ecoar.
Chegmos  orla da mata.
--Vitria, camaradas, corramos todos! -- bradou Merry. E os
que iam  nossa frente deitaram a correr.
De repente, a menos de dez metros de distncia, vimo-los
parar. ouviu-se um grito rouco. Silver dobrou de rapidez,
avanando com a muleta como um doido, mas pouco depois ele eu
estacmos tambm assombrados.
Na nossa frente estava uma grande cova, que no era recente,
porque a terra dos lados j tinha resvalado, e no fundo a erva
despontava. Havia l um cabo de picareta partido em dois e
diversas tbuas de caixote espalhadas em volta. Numa dessas
tbuas vi, gravada a ferro em brasa, a palavra  <Walrus" --o
nome do navio de Filinto.
Percebia-se tudo claramente. o esconderijo fora descoberto e
roubado; as setecentas mil libras tinham voado !
Captulo trinta e trs

A QUEDA DE UM CHEFE

Nunca se viu uma confuso tal. Cada um daqueles seis homens
estava como se houvesse sido fulminado por um raio. Mas o
abatimento de Silver passou quase instantaneamente. Assim como

o corredor procura alcanar a meta, assim todo o esforo do
seu pensamento fora apanhar aquele tesouro. Por um rpido
segundo ficara como morto, porm, depressa acalmou as ideias,
recuperou o sangue-frio e modificou os seus planos antes que
os outros tivessem tempo de refazer-se do desapontamento.
--Jim --disse-me em voz baixa--, toma l isto e prepara-te
para o que der e vier.
E passou-me uma pistola de dois canos.
Ao mesmo tempo comeou tranquilamente a andar para o norte e
em poucos passos ps a escavao entre ns dois e os outros
cinco. Depois olhou para mim e fez-me um sinal com a cabea,
como se me dissesse: "Estamos metidos num beco sem sada",
como, efectivamente, eu achava que estvamos. os seus olhares
eram agora perfeitamente amigveis; sentia-me to revoltado
com estas mudanas contnuas, que no pude deixar de murmurar:
--J mudou de casaca outra vez.
No teve tempo de responder-me. Com pragas e gritos, os
piratas comearam a saltar para o buraco uns atrs dos outros
e a revolver a terra com os dedos, arremesssando as tbuas
para os lados. Morgan encontrou uma moeda de ouro. Ergueu-a no
ar, com uma perfeita saraivada de improprios. Era uma moeda
de dois guinus, que andou de mo em mo durante uns quinze
segundos .
--Dois guinus !--rugiu Merry, atirando-a a Silver.--

Aqui esto as suas setecentas mil libras, no ? E  voc o
homem dos tratados, hem? Que nunca se saiu mal de nada, seu
estpido de gua doce!
--Cavem, cavem, rapazes -- disse Silver com a mais fria
desfaatz--, se encontrarem tberas, no me admiro nada.
--Tberas!--repetiu Merry num grito estridente.-Esto a ouvir
isto, camaradas?! Agora digo-lhes que este homem j sabia de
tudo h muito tempo. olhem para a cara dele e vejam se no  o
que l est escrito.
--Ah, Merry--observou Silver--, queres ento ser capito outra
vez? s um rapaz de coragem, no haja dvida.
Mas desta vez estavam todos inteiramente a favor de Merry.
Principiaram a trepar para fora da escavao, dardejando
olhares furiosos para trs. observei uma coisa que me pareceu
boa para ns: subiram para o lado oposto ao de Silver.
Assim, estvamos dois de um lado e cinco do outro, com o
buraco entre ns, e ningum tinha a coragem bastante para
atirar a primeira pedra. Silver no fez o menor movimento;
vigiava-os, muito direito de muleta, e olhava to calmo como
eu nunca o vira. No h dvida de que era valente.
Por fim, parece que Merry julgou a propsito dizer algumas
palavras:
--Camaradas, daquele lado h s dois: um  o velho aleijado
que nos trouxe aqui e que nos arrastou a esta estupidez; o
outro  o cachorro que mangou com a gente. Portanto,
camaradas...
Levantara o brao e a voz e era evidente que tencionava
disparar. Justamente naquele momento, porm, pum! pum ! pum !,
trs tiros de mosquete partiram da mata. Merry caiu de cabea
para baixo na cova, o homem da cabea ligada rodopiou como um
pio e caiu ao comprido, de lado, a estrebuchar, ferido de
morte; os outros trs deram uma volta e desataram a correr
quanto podiam.

Num abrir e fechar de olhos, Joo Grande desfechou a sua
pistola de dois canos sobre Merry, que se agitava ainda, e,
enquanto o desgraado volvia para ele os olhos na derradeira
agonia, disse-lhe:
--Vejo que consegui sossegar-te, George.
Ao mesmo tempo o doutor, Gray e Ben Gunn, de mosquetes
fumegantes, saltavam do meio das moscadeiras e vinham
juntar-se a ns.
--Para a frente! --gritou o mdico. --Depressa, rapazes, 
preciso impedi-los de chegar s lanchas!
E partimos todos, a correr, por vezes afundados nas moitas at
ao peito.
Silver procurou ansiosamente manter-se a par connosco. o
esforo que este homem fazia, avanando, a saltar, amparado 
muleta, ao ponto de os msculos do peito parecerem rebentar,
era um esforo que mais nenhum homem faria, como dizia o
mdico. Apesar disso, quando chegmos ao cimo do declive,
estava j a uns trinta metros de ns, quase asfixiado.
--Senhor doutor! --gritou. --olhe para ali! No  precisa
tanta pressa!
De facto era escusado correr mais. Numa das clareiras maiores
do planalto podamos ver os trs sobreviventes correndo sempre
na mesma direco em que tinham partido, direitos  colina do
Mastro de Mezena. Estvamos j entre eles e as lanchas, e
enquanto nos sentvamos para tomar flego, Joo Grande chegava
ao p de ns vagarosamente, a limpar a cara.
--Muito obrigado, senhor doutor--disse ele. -Chegou na hora
prpria para mim e para Hawkins, e tu tambm, Ben
Gunn!--acrescentou. --s admirvel
podes crer.
--Sou Ben Gunn, sou --replicou o abandonado, contorcendo-se
como uma enguia no seu embarao.
E, depois duma longa pausa, ajuntou:
--E o senhor Silver como passa? Muito bem, como espero.
--Ah, Ben, Ben! Lembrar-me eu do que fizeste por mim !
o doutor mandou Gray voltar atrs, para ir buscar um dos
alvies abandonados pelos rebeldes na fuga, e depois, enquanto
descamos a encosta com todo o vagar, at ao stio onde
estavam os barcos, contou-nos, em poucas palavras, o que tinha
acontecido. A histria, cujo heri, desde o princpio ao fim,
era Ben Gunn, o abandonado semilouco, interessou Silver
profundamente.
Nas suas longas e solitrias digresses pela ilha, Ben tinha
achado o esqueleto, e fora ele que o despojara; depois achara
o tesouro. Desenterrou-o (era dele o enxado partido ao meio
que estava na escavao) e acarretou-o s costas, durante
muitos dias de canseira, de ao p do pinheiro alto para a
caverna que tinha na colina dos dois picos a nordeste da ilha,
e a o ps em segurana dois meses antes da chegada da
Hispaniola.
Quando o doutor Lhe apanhou este segredo, na tarde do ataque,
e quando, na manha seguinte, viu o ancoradouro deserto, foi
ter com Silver, deu-lhe o mapa que era agora intil e
entregou-lhe as provises--porque a gruta de Ben Gunn estava
bem fornecida de carne de cabra que ele prprio salgara--,
entregou-lhe tudo, enfim, que Lhe desse ocasio a sair com
segurana da estacada para a colina de dois picos? onde
estavam livres da malria e onde podiam fazer guarda ao

dinheiro.
--S por tua causa, Jim--disse--,  que isto me custou, mas
fiz o que me pareceu melhor para aqueles que se mantiveram no
seu lugar, e, se no estavas no meio deles, de quem era a
culpa?
Naquela manha, vendo que eu estava envolvido na terrvel teia
de decepo que preparava para os sediciosos, correra todo o
caminho que levava  gruta e, deixando o fidalgo a acompanhar
o capito, levara consigo Gray e o abandonado e partira,
atravessando a ilha em diagonal, para chegar depressa ao p do
pinheiro. No
entanto, viu em breve que o nosso grupo Lhe levava a
dianteira; e Ben Gunn, que andava com mais rapidez, foi
mandado adiante, para fazer o que pudesse sozinho.
ocorreu-lhe, ento, actuar sobre o sentimento de superstio
dos seus amigos camaradas de bordo e foi to bem sucedido que
Gray e o mdico se Lhe juntaram e estavam j de emboscada
ainda antes de chegarem os que iam  caa do tesouro.
--Ah! -- observou Silver. -- Foi uma felicidade para mim ter o
Hawkins comigo. Seno o doutor tinha deixado cortar em pedaos
o velho Joo e nunca mais se lembrava dele.
--Ah, isso nunca mais! --replicou o Dr. Livesey
zombeteiramente.
Nesta altura, tnhamos chegado ao p das lanchas. o mdico
espatifou uma delas  enxadada e depois metemo-nos todos na
outra e largmos, a fim de contornar por mar a angra do Norte.
Foi uma corrida de oito ou nove milhas e Silver, posto que
estivesse j quase morto de fadiga, ps-se a um remo, como
todos ns, e em breve deslizvamos rapidamente sobre um mar
que parecia um espelho. Depressa ultrapassmos os estreitos e
dobrmos a ponta sudoeste da ilha, pela qual, quatro dias
antes, passramos na Hispaniola .
Ao passarmos pela colina de dois picos, vimos a entrada escura
da caverna de Ben Gunn e entre ela uma figura de p, apoiada a
um arcabuz. Era o fidalgo; agitmos um leno e atirmos-lhe
trs hurras, aos quais se ajuntou a voz de Silver, to cordial
como as nossas.
Trs milhas adiante, j dentro da embocadura da angra do
Norte, encontrmos a Hispaniola navegando sozinha! A ltima
mar fizera-a desencalhar, e se ali fizesse muito vento ou
houvesse corrente forte, como na baa do sul, nunca mais a
encontraramos ou se a encontrssemos era arrojada  costa,
sem possibilidades de salvao. Assim, poucos danos tinha,
alm da destruio da
vela principal. Fomos buscar outra ancora e lanmo-la em
braa e meia de gua. Voltmos a remar para a cova do Rum, que
era o ponto mais prximo da cabana do tesouro de Ben Gunn, e
depois Gray regressou sozinho na lancha para bordo
da Hispaniola, onde passou a noite de guarda.
Um talude suave subia da praia para a entrada da gruta. L em
cima, o fidalgo veio ao nosso encontro. Foi cordial e amvel
para mim, nada me dizendo a respeito da fuga, nem para me
censurar, nem para me elogiar. A saudao corts de Silver
f-lo corar um tanto.
--- Joo Silver--disse ele--, voc  um prodigioso patife e um
impostor, um monstruoso impostor. Disseram-me que nada Lhe
exigisse e, portanto, assim farei. Mas os que morreram  que
ho-de pesar-lhe em cima do pescoo como ms de atafona.

--Muitssimo obrigado, senhor -- replicou Joo Grande,
cumprimentando outra vez.
--Probo-o de me agradecer!--gritou o fidalgo.- uma renncia
violenta que fao ao meu dever. Ponha-se a andar.
Aps isto, entrmos todos na gruta. Era um lugar amplo e
arejado, com uma pequena nascente e uma lagoazinha de gua
lmpida, de onde pendiam fetos. o cho era de areia. o capito
Smollett estava deitado em frente de um bom lume e, num canto
afastado, onde a claridade das chamas batia apenas vagamente,
avistei um grande monte de moedas e quadrilteros feitos de
barras de ouro. Era o tesouro de Filinto, que viramos
procurar to longe e que custara j a vida a dezassete homens
da Hispaniola. E quantos mais tinha custado j, quanto sangue
e quantas atribulaes, quantos navios metidos a pique,
quantos bravos precipitados no mar de olhos vendados, quantos
tiros de canho, quantas vergonhas, mentiras e crueldades?!
Nenhum vivo, talvez, pudesse diz-lo! Todavia, ainda havia
trs na ilha-Silver, o velho Morgan e Ben Gunn --que haviam
tomado parte nesses crimes, tal como cada um deles esperara,
em vo, ter a sua parte no esplio.
--Anda c, Jim--disse o capito.--Tu s um bom rapaz  tua
maneira, Jim, mas nem quero pensar que tu e eu havemos de ir
para o mar outra vez. Ultrapassas muito os limites do meu
agrado. E voc,  Joo Silver? Ento o que o trouxe por c,
homem?
--Voltar s minhas obrigaes, capito -- volveu Silver.
--Ah!--fez o capito. E no disse mais nada.
Que ceia que eu tive naquela noite, com todos os meus amigos
em volta de mim, que refeio aquela, com a carne de cabra
salgada de Ben Gunn, algumas gulodices e uma garrafa de vinho
velho vindo da Hispaniola.' Tenho a certeza de que nunca houve
gente mais feliz .
E Silver ali estava, um pouco afastado e quase s escuras, mas
comendo com vontade, pronto a saltar logo que era preciso
alguma coisa e juntando-se, at, pacatamente, s nossas
gargalhadas--o mesmo marinheiro amvel, delicado, obsequioso,
da nossa viagem.

Captulo trinta e quatro

FINAL

No dia seguinte, logo de manhzinha, pusemo-nos ao trabalho,
para transportar aquele grande amontoado de ouro para a praia.
Tnhamos de andar cerca de uma milha por terra, at  beira de
gua, e da para a Hispaniola eram trs milhas de barco. A
tarefa era, pois, considervel para to pequeno nmero de
obreiros.
os trs homens, ainda a monte pela ilha, no nos davam grande
cuidado; uma simples sentinela na encosta da colina era o
suficiente para nos proteger de qualquer investida sbita;
alm disso, na nossa opinio, eles deviam j estar fartos de
lutas.
Assim, pois, o trabalho fazia-se com boa disposio e rapidez.
Gray e Ben Gunn andavam com a lancha de c para l, enquanto
os outros, na ausncia deles, amontoavam o tesouro na praia.
Duas barras, presas nas pontas de uma corda, eram uma boa
carga para um adulto, e tinha de ir devagar. Por minha vez,

como no estava habituado a carregar, passei todo o dia na
caverna a meter moedas em sacos de po.
Era uma coleco extraordinria, como a de Billy Bones, pela
diversidade da cunhagem; somente era muito maior e mais
variada e creio que jamais sentirei prazer to grande como
aquele de separar e arrumar essas moedas--inglesas, francesas,
espanholas, portuguesas, jorges e luses, dobres e guinus
duplos, moidores * e cequins, com a imagem de todos os reis da
Europa nos ltimos cem anos, estranhas moedas do oriente, com
um cunho que parecia molhos de cordis ou bocados de teias de
aranha; moedas redondas e quadradas, outras
furadas ao meio como se fossem para pendurar ao
pescoo--enfim, creio que quase todas as variedades de moedas
do mundo deviam fazer parte daquela coleco. Quanto ao
nmero, estou certo de que eram como as folhas no outono, pois
doam-me as costas de estar dobrado e os dedos de arrum-las.
o trabalho durou vrios dias. Todas as tardes ficava uma
fortuna armazenada a bordo, mas outra fortuna nos esperava no
dia seguinte, e durante todo este tempo nada soubemos dos trs
rebeldes sobreviventes.
Por fim --parece-me  que foi na terceira noite --, o doutor e
eu vaguevamos pela vertente da colina, de onde se avistam as
terras baixas da ilha, quando, vindo da escurido espessa que
havia l em baixo, o vento nos trouxe um rudo, que tanto
parecia um guincho, como um canto. o que chegava at ns era
apenas um retalho desse som, logo seguido pelo silncio que
envolvia tudo.
--Que o cu Lhes perdoe!--murmurou o mdico.
--So os rebeldes!
--Tudo aquilo  vinho, senhor doutor--sobressaltou-nos a voz
de Silver por trs de ns.
Devo dizer que Silver gozava de inteira liberdade e, apesar
dos desaires que sofria todos os dias, parecia considerar-se,
uma vez mais, como um subordinado privilegiado e estimado. Na
verdade, era admirvel como ele suportava o desprezo; e a
delicadeza infatigvel com que procurava congraar-se com
todos. E, no entanto, acho que ningum o tratava melhor do que
a um co? exceptuando Ben Gunn, que ainda tinha um medo
terrvel do seu antigo quartel- nestre, e eu, que, realmente,
tinha alguma coisa a agradecer-lhe, conquanto tivesse mais
razes do que qualquer outra pessoa para pensar dele o pior,
visto que o surpreendera a congeminar no planalto a sua ltima
traio. Era, portanto, compreensvel a aspereza com que o
mdico Lhe respondeu:
--F vinho f  e delrio da febre.

razo, doutor--replicou Silver--, mas quer para si, quer
para mim, pouca importncia tem que seja uma coisa ou outra.
--Eu j sabia que era difcil encontrar em voc alguma
humanidade--retorquiu-lhe o mdico com um olhar de desprezo--,
e por isso a minha maneira de sentir o enche de surpresa,
mestre Silver. Mas se eu tivesse a certeza de que eles estavam
a delirar, embora saiba perfeitamente que pelo menos um est
cheio de febre, saa daqui e, fosse qual fosse o risco que
esta carcaa corresse, ia prestar-lhes a assistncia do meu
saber.
--Peo desculpa, senhor doutor, mas est muito
enganado--atalhou Silver. --Perdia a sua preciosa vida, pode

ter a certeza. Estou agora do seu lado, de corpo e alma, e no
quero ver o nosso grupo mutilado, muito menos tratando-se de
si, porque sei o que Lhe devo. E que esses homens que esto l
em baixo so incapazes de manter a sua palavra: mesmo
admitindo que quisessem, no podiam, e o que  mais, nunca
acreditariam que o senhor mantivesse a sua.
--Pois no --volveu o doutor. --Bem sabemos como voc mantm a
sua.
Foram estas as ltimas novas que tivemos dos trs piratas.
Somente uma vez ouvimos um tiro de mosquete a grande distncia
e supusemos que eles andassem  caa. Reunimo-nos em conselho
e chegmos  concluso de que devamos abandon-los na ilha --
com enorme alegria de Ben Gunn, devo diz-lo, e com a
aprovao absoluta de Gray. Deixmos uma boa proviso de
plvora e de balas, a maior parte da carne de cabra salgada,
uma poro de remdios e mais algumas coisas necessrias,
ferramentas, roupas, uma vela de reserva, uma ou duas braas
de corda e, por especial desejo do doutor, um generoso
presente de tabaco.
Foi isto, para assim dizer, a ltima coisa que fizemos na
ilha. Antes, tnhamos arrecadado o tesouro, metra
mos bastante gua a bordo, assim como o resto da carnede
cabra, para o caso de qualquer falta, e, por ltimo, uma bela
manha, levantmos ferro--alm das ancoras pouco mais havia a
bordo que funcionasse--e largmos da angra do Norte, levando a
adejar o mesmo pavilho que o capito arvorara na paliada e
sob o qual combatramos .
os trs foragidos deviam vigiar-nos mais de perto do que
pensvamos, como em breve amos verificar. Ao atravessar os
canais, tivemos de costear a ponta sul e vimos os trs a
reunidos, de joelhos, numa lngua de areia, com os braos
erguidos numa splica. Creio que todos sentimos o corao
despedaar-se ao deix-los naquela desgraada situao, mas
no podamos arriscar-nos a outra sublevao, e repatri-los,
para entreg-los  forca, seria uma espcie de generosidade
cruel. o mdico chamou-os  fala e disse-lhes que Lhes
deixramos provises e qual o stio onde se encontravam. Eles,
porm, continuavam a chamar-nos pelo nome e a rogar-nos, por
amor de Deus, que tivssemos piedade e no os deixssemos
morrer em tal lugar.
Por fim, vendo que o navio continuava a sua rota e que se
afastava rapidamente do alcance da voz, um deles --no sei
qual --ps-se de p com um grito rouco, levantou o mosquete 
altura do ombro e disparou um tiro, que passou, a silvar, por
cima da cabea de Silver e perfurou a vela mestra.
Abrigmo-nos, por isso, com a amurada e quando voltei a
espreitar tinham desaparecido da ponta da areia e a prpria
ponta mal se avistava j, diluda na distncia crescente. Pelo
menos, foi assim que a vi desaparecer e, antes do meio-dia,
com inexprimvel alegria minha, a rocha mais elevada da ilha
do Tesouro mergulhava na cpula azul do mar.
ramos to poucos a bordo que todos ns tnhamos de trabalhar,
e s o capito estava deitado numa rede,  r, dando as suas
ordens, porque, embora j estivesse muito melhor, precisava
ainda de repouso. Fizemos rumo em

 7


direco ao porto mais prximo da Amrica espanhola, porque
no nos atrevamos a empreender a viagem de regresso sem
pessoal novo; e, entretanto, com ventos variveis e dois
tufes recentes estvamos todos exaustos antes de l chegarmos.
o Sol descia no poente quando lanmos ferro num formoso golfo
abrigado pela terra. Fomos imediatamente cercados por
barquinhos costeiros cheios de negros, de ndios mexicanos e
mestios, a vender frutos e vegetais e oferecendo-se para
mergulhar a troco de pequenas moedas. A vista de tantos rostos
alegres (especialmente os dos pretos), o sabor das frutas
tropicais, e, sobretudo, as luzes que principiavam a cintilar
na cidade faziam um contraste encantador com a negra e
sangrenta estada que tivramos na ilha; e o mdico e o
fidalgo, levando-me com eles, foram a terra passar as
primeiras horas da noite. Encontraram, ento, o comandante de
um navio de guerra ingls, travaram conversa com ele, fomos a
bordo do seu barco e, resumindo, to bem passmos o tempo que
o dia comeava a romper quando voltmos para a Hispaniola .
Ben Gunn estava sozinho no convs, e, assim que chegmos a
bordo, comeou a fazer-nos uma confisso com as mais estranhas
contores. Silver fora-se embora. o abandonado fora conivente
na sua fuga, num bote, apenas umas horas antes, e
afianava-nos que se assim procedera fora para nos defender a
vida, que, decerto, estaria sempre em perigo se "o homem com
uma perna s continuasse a bordo". Isto, porm, no era tudo.
o cozinheiro de bordo no fora de mos a abanar. Arrombara um
tabique sem que dssemos por isso e arrastara um dos sacos de
moedas que valia, talvez, trezentos ou quatrocentos guinus,
para o ajudar a prosseguir a viagem .
Creio que todos ficmos contentes por nos vermos livres dele
por to pouco.
E agora, para encurtar esta histria to grande, mete

 7

11
mos alguns homens a bordo, fizemos uma excelente viagem de
regresso e a Hispaniola chegou a Brstol precisamente na
altura em que o senhor Blandly comeara a pensar em equipar o
barco de socorro. Dos homens que tinham embarcado, somente
cinco vinham a bordo. "A bebida e o diabo deram cabo dos
outros", como vingana; todavia, ainda no estvamos em to m
situao como os daquele navio da cano:

Da sua tripulao s um homem vive, efez-se ao mar com setenta
e cinco.

Todos ns tivemos larga parte no tesouro, que cada qual
empregou com sabedoria ou insensatez, conforme a sua natureza.
o capito Smollett abandonou a vida do mar. Gray no s soube
preservar o seu dinheiro como, tomado em breve pelo desejo de
fazer-se algum, estudou a sua profisso e  hoje o imediato e
o co-proprietrio de um belssimo navio. Alm disso casou e 
pai de famlia.
Quanto a Ben Gunn, couberam-lhe mil libras, que gastou ou
perdeu em trs semanas ou, para ser mais exacto, em dezanove
dias, porque no vigsimo voltara a mendigar. Arranjaram-lhe,
ento, um lugar de porteiro, exactamente o que ele receava,

quando estava na ilha;  ainda vivo e muito estimado na terra,
apesar de os rapazes o troarem, s vezes, e canta muito bem
na igreja aos domingos e dias santos.
De Silver no soubemos mais nada. Esse formidvel marinheiro
coxo desapareceu finalmente e por completo da minha vida. No
entanto, atrevo-me a dizer que foi ao encontro da sua negra
velha e que talvez ainda viva com todo o conforto na companhia
dela e do Capito Filinto. Em meu entender  para desejar que
assim seja, porque as suas possibilidades de bem-estar, no
outro mundo, so muito pequenas.
Apenas sei que as barras de prata e as armas continuam ainda onde Filinto as enterrou e, pela minha
parte, decerto l ficaro. Por nada deste mundo conseguiriam
levar-me outra vez a essa ilha maldita; e os piores pesadelos
que ainda tenho  quando julgo ouvir o bramido da ressaca na
costa, ou quando me sento de um pulo na cama, com a voz aguda
do Capito Filinto a ressoar-me nos ouvidos: "Peas de oito!
Peas de oito!"
APNDICE

A ERA VlToRIANA

Robert Louis Stevenson nasce em 1850, em pleno apogeu da era
vitoriana. Desde Junho de 1837 que a rainha Vitria est no
trono--e durante mais de meio sculo ela ser o garante da
estabilidade e da prosperidade do Imprio. <.Britania rule  he
waves  ("A Inglaterra domina os mares")  mais do que uma
simples frase:  o sentimento de cada um dos seus sbditos, 
a traduo do orgulho nacional,  como que um hino nacional.
 a poca em que se passa dos ltimos esplendores do
romantismo (que ainda "brilham  em Tennyson ou Browining) para
o incio do romance, que v despontar grandes nomes como
Dickens, as irmas Bronte, William Thackeray, oscar Wilde.
 a poca das grandes aventuras e dos grandes empreendimentos:
a construo do canal do Suez, o desenvolvimento dos
caminhos-de-ferro, as exploraes do Dr. Livingston por uma
Africa desconhecida. E a entrada da ndia para a Coroa
britnica, dando  rainha Vitria mais um ttulo: a de
imperatriz.

R.L. STEVENSoN

Robert Louis Stevenson nasceu em Edimburgo (Esccia) a 13 de
Novembro 1850, filho nico de um engenheiro, especialista na
construo de faris. Era uma criana doente e muito frgil,
que os pais sempre superprotegeram. Apesar da sua fragilidade,
desde muito criana que o fascinava a vida aventurosa,
fascnio que alimentava atravs das muitas leituras de viagens
e histrias de aventuras.
Seu pai quis para ele o mesmo ofcio de engenheiro, e enviou-o
para a Universidade de Edimburgo--mas o seu destino iria ser
bem diferente:  companhia de professores e estudantes, sempre
preferiu a dos clientes de bares e tabernas, onde, entre o
fumo dos charutos e o cheiro a lcool, havia sempre algum que
falava de longes terras e aventuras fascinantes.
Em 1874 a sua sade precria aconselha uma mudana de ares, e
Stevenson vai para Frana. Dois anos mais tarde, na cidade
francesa de Grez, conhece Fanny osbourne, dez anos mais velha

do que ele divorciada e me de dois filhos, com quem vir a
casar em 1880. A sade ir ser motivo de constantes
deslocaes, sempre para locais menos frios e mais
acolhedores, mas nada parece ser capaz de curar as

 77
enfermidades de Stevenson que, entretanto, comeara j a
escrever: desses anos datam Viagens de Burro, Viagem ao
Continente, Histria de  Jma Menrira, e Requiem.
A partir de 1880 o estado de sade de Stevenson agrava-se
sempre mais, at que decide ir viver para a Sua. A estada a
no  longa, e em 1881 est de novo em Inglaterra.  nesse ano
que comea a escrever A llha do Tesouro, mais para preencher o
tempo que tinha de estar metido em casa devido ao clima hmido
e frio. Com ele vivia ento o seu enteado Lloyd, de treze
anos, ouvinte atento de todas as histrias que Stevenson
criava e gostava de contar a quem se encontrava  sua volta.
A llha do Tesouro nasceu propositadamente para Lloyd -- mas
logo a partir de outubro desse ano ela comeou a ser
publicada, em folhetim, no jornal Youllg Folks Magazine.
A medida que a sua sade piorava, parecia que a sua imaginao
criadora no tinha limites. Um longo rol de obras se seguiram
nesses anos: A . Flec.ha Negra, o Esrranho Caso do Dr. Jeck
ll e do Sr. H! de, o Senhor de Ballantre, o Rapro.
Mas o apelo do mar continuava sempre bem enraizado em
Stevenson, que no esquecera os bares da sua juventude, o
cheiro ao lcool
a magia das histrias de piratas e corsrios. E em 1888
embarca com a famlia rumo aos mares do Sul.
Em princpio pensara em Taiti como destino da viagem, chegando
a desembarcar em Fakarava. Mas sobreveio-lhe uma crise mais
aguda, e Stevenson dirigiu-se a outra ilha, Tautira, onde
acabaria por, em pouco mais de dois meses. recuperar a sade.
Da seguiu para Honolulu, mas tambm a a estada no foi
demorada. Seria finalmente na ilha de Samoa que Stevenson
encontrou o lugar que buscava: a comprou terra e construiu a
sua casa.
Stevenson nunca foi um estrangeiro em Samoa, mas sim um homem
integrado na comunidade que os naturais respeitavam, com quem
se aconselhavam, e a quem chamavam "Tusitala", ou seja, "o
contador de histrias". Em Samoa Stevenson reconstruiu toda a
sua vida, desligando-se completamente de Inglaterra. A famlia
estava com ele, incluindo a me, que viera de Inglaterra para
Samoa.
Em Samoa, diante do mar, a criatividade e a imaginao de
Stevenson no conheceram trguas, e varios livros foram sendo
publicados.
Mas a sua sade ser sempre dbil, e em 3 de Dezembro de 1894,
com apenas quarenta e trs anos de idade, morria, vtima de
hemorragia cerebral. Foi enterrado no alto do monte Ve, de
frente para o mar, tal como tinha pedido. Na lngua de Samoa,
uma placa assinala: "Este  o tmulo de Tusitala."
Desde ento os indgenas proibiram a caa naquela montanha,
para que os pssaros possam fazer companhia ao seu amigo
"contador de histrias" .

"A ILHA Do TESoURo"


Nada melhor para entender A llha do Tesouro do que ler a carta
que Stevenson escreveu ao seu amigo W.E.Henley, em 1881:
"Ficars admirado quando souberes que o livro trata de
piratas, que comea na Estalagem do Almirante Benbow, que a
histria anda toda  volta de um mapa, de um tesouro, de uma
revolta, de um velho chamado Trelawney, de um mdico, de um
cozinheiro s com uma perna, de uma cantiga com o refro: "Ho,
ho, ho, e uma garrafa de rum!" Imagina no homem em que eu me
transformei... Dois captulos esto j escritos, e foram
"testados" em Lloyd com muito sucesso. Espero fazer um
captulo por dia: so curtos. No h mulheres na histria:
ordens de Lloyd.... Escrever histrias para rapazes 
francamente divertido. Fazemos o que o nosso corao nos dita,
 tudo. No h dificuldades, no h tenses... a gente escreve
 medida que as palavras nascem..."
Por aqui se nota j qual a principal qualidade da llha do
Tesouro: a de ignorar as regras da literatura que ento se
escrevia para os jovens, e estabelecer as suas prprias
regras. Uma histria que quebra com com o maniquesmo at
ento dominante dos personagens bons em oposio aos
personagens maus. Aqui o vilo tem qualquer coisa de herico,
e Stevenson mostra um soberano desDrezo Delos moralistas.

Mervyn Peake, o ilustrador desta edio, de nacionalidade
britanica, nasceu em 1911, em Kuling, na China Central.
o seu nome est ligado a ilustraes de alguns dos mais
famosos clssicos para crianas, dos quais destacamos Alice no
Pas das Maravilhas.  ainda autor e ilustrador de algumas
obras para jovens tendo publicado tambm vrias novelas e
livros de pesia. Morreu em 1968.

